Recomendações à ‘Estratégia’ Chinesa no Atlântico Sul.

Nova rota da seda chinesa

Teçamos aqui alguns comentários de caráter geoestratégico acerca da Nova Rota da Seda chinesa no Atlântico Sul.

 Uma das críticas geralmente apontadas à diáspora chinesa mundo fora reside na falta de transparência de algumas das suas práticas. Melhorando o seu soft power – um desafio complexo, mas que veementemente recomendamos aqui para que o espírito da Nova Rota da Seda chinesa possa ser bem acolhido pela Comunidade Internacional – a China pode, assim, contribuir para apaziguar muito dos rumores e estereótipos acerca da (infundada) tese da ‘ameaça chinesa’ neste novo século. Uma China mais transparente é um parceiro mais previsível e digno de confiança porque o mundo só receia verdadeiramente o que não conhece bem.

Sugerimos que futuras investigações e pesquisadores consagrem mais atenção acerca da presença e interesses chineses no Atlântico Sul. O tema é pertinente embora pouco se saiba, por enquanto, acerca dele. Na verdade, a própria China não tem sequer uma política oficial face ao Atlântico Sul, nem tampouco bases ou presença militar permanente na região. É certo que se poderá argumentar que por muito importante que seja o Atlântico Sul para a China, este não justifica, pelo menos por ora, do ponto de vista económico e/ou político, uma presença militar chinesa permanente na região.

Todavia, não estimamos ser descabido especular que o vazio de poder que resultará, por exemplo, da saída da Força Aérea norte-americana da Base das Lajes, nos Açores (embora aqui estejamos geograficamente mais no Atântico Norte que no Atlântico Sul), poderá revelar-se uma oportunidade para a nova China de Xi Jinping, que possui uma vocação universalista, se posicionar estrategicamente como guardiã do Oceano. A mesma situação em Cabo Verde, este sim mais para sul que para norte, e onde não havendo petróleo nem gás, há, contudo, um arquipélago geoestrategicamente localizado entre África e a América do Sul.

Proteger as linhas marítimas enquanto vias de comércio de bens e mercadorias essenciais à economia de uma grande potência é uma questão premente e que faz sentido não só nas águas do Golfo de Aden, assoladas pela pirataria marítima, mas também no Atlântico Sul, eventualmente em menor intensidade, é certo, mas nunca completamente ignorado. Tanto mais que várias embarcações chinesas são acusadas de envolvimento em atividades pesqueiras ilegais na região, e que o Atlântico Sul é uma via de escoamento de estupefacientes provenientes das Américas com destino à Europa, a África, entre outros. Enquanto potência mundial, a China deve ter um papel mais ativo nas questões de segurança do planeta, não deixando esse papel unicamente à superpotência norte-americana.

A combinação de um hard power moderno, no qual tem apostado a nova China de Xi Jinping, com um soft power mais cuidadoso e responsável, pode contribuir para atenuar a imagem, muitas vezes negativa, de um parceiro que inunda os mercados de produtos low-cost e de fraca qualidade, ou que compete deslealmente ao nível económico, ou, ainda, como um gigante que não se interessa por outra coisa a não ser em forjar laços económicos com os Estados. A Nova Rota da Seda chinesa deve inspirar confiança e responsabilidade, criando a imagem de um parceiro que patrulha, por exemplo, os oceanos, que envia tropas para locais de genocídio, que socorre atempadamente vítimas de inundações ou sismos à escala planetária…

Este é um papel que até hoje tem frequentemente cabido ao hegemon norte-americano, e que muito tem contribuído para elevar o soft power dos Estados Unidos. Numa altura em que a política chinesa de não-ingerência nos assuntos internos dos Estados tem dado mostras de evolução (já que Pequim parece perceber, por exemplo, que tem o dever de agir para proteger a diáspora chinesa que mundo fora é vítima de violência, sequestros, etc, ou para securitizar o seu acesso às fontes energéticas), porque não ousar ser um parceiro mais ativo nas grandes questões securitárias do planeta ? O Atlântico Sul pode ser aqui um bom teste a uma China moderna e quer reativar, em conjunto com a Humanidade, os laços históricos que outrora ligavam o Império do Meio ao mundo. Num momento em que África e América Latina enfrentam problemas concretos de segurança, como tráfico de droga e de seres humanos, lavagem de dinheiro, crime organizado, Rogue States e Narco-Estados entre outros, a China pode e deve ser um parceiro ativo no combate a estes flagelos. Outro exemplo concreto, o reaparecimento de tensões entre britânicos e argentinos, na sequência da descoberta recente de importantes reservas energéticas a norte das Falkland. Num contexto em que o Brasil, enquanto hegemon regional sul-americano, se opõe à eventual presença da NATO no Atlântico Sul, não poderá a China, beneficiando de tal conjuntura geopolítica, ser um contrapeso às forças ocidentais e, ao mesmo tempo, um mediador entre o Reino Unido e Argentina ?

Uma outra recomendação que deixamos : a China pode e deve apoiar mais a investigação marinha no Atlântico Sul, o qual é promissor em recursos marinhos e energéticos (eventualmente depois em seu próprio proveito), mas onde comparativamente aos Oceanos Índico e Pacífico, existe ainda uma investigação incipiente.

Num espaço em devir, onde as regiões do Sul são atualmente protagonistas de uma reconfiguração geopolítica, após terem conquistado um maior autonomia face à Europa e Estados Unidos na última década, a China pode e deve lançar a sua âncora num cenário geostratégico onde as potências do Atlântico norte estão a perder terreno. Acreditamos também que a China pode ter um papel ativo na construção de uma estratégia integrada para a bacia do Atlântico, promovendo a cooperação em outras frentes que não apenas as vocacionadas para a economia, ou seja, para o business. Afinal, a confirmar-se a profecia de um artigo publicado no Huffington Post, “O século XXI não será necessariamente um ‘século Pacífico’, pode muito bem ser um Atlântico” (2013 : para. 11).[1]

Paulo Duarte é doutorando em Relações Internacionais na Univerité Catholique de Louvain, Bélgica, e investigador no Instituto do Oriente, em Lisboa. É autor do livro ‘Metamorfoses no Poder: rumo à hegemonia do dragão?’ com prefácio do reputado comentador Marcelo Rebelo de Sousa ([email protected]).

[1] The Huffington Post (2013). “Why the Atlantic, Not the Pacific, May Dominate the 21st Century”, November 12, http://www.huffingtonpost.com/erik-brattberg/why-the-atlantic-not-the-_b_4409828.html

Em:  Revista Sociedade Militar – Brasil – Rio de Janeiro.

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