Recomendações à ‘Estratégia’ Chinesa no Atlântico Sul.

abril 11, 2015 - 20:21

Nova rota da seda chinesa

Teçamos aqui alguns comentários de caráter geoestratégico acerca da Nova Rota da Seda chinesa no Atlântico Sul.

 Uma das críticas geralmente apontadas à diáspora chinesa mundo fora reside na falta de transparência de algumas das suas práticas. Melhorando o seu soft power – um desafio complexo, mas que veementemente recomendamos aqui para que o espírito da Nova Rota da Seda chinesa possa ser bem acolhido pela Comunidade Internacional – a China pode, assim, contribuir para apaziguar muito dos rumores e estereótipos acerca da (infundada) tese da ‘ameaça chinesa’ neste novo século. Uma China mais transparente é um parceiro mais previsível e digno de confiança porque o mundo só receia verdadeiramente o que não conhece bem.

Sugerimos que futuras investigações e pesquisadores consagrem mais atenção acerca da presença e interesses chineses no Atlântico Sul. O tema é pertinente embora pouco se saiba, por enquanto, acerca dele. Na verdade, a própria China não tem sequer uma política oficial face ao Atlântico Sul, nem tampouco bases ou presença militar permanente na região. É certo que se poderá argumentar que por muito importante que seja o Atlântico Sul para a China, este não justifica, pelo menos por ora, do ponto de vista económico e/ou político, uma presença militar chinesa permanente na região.

Todavia, não estimamos ser descabido especular que o vazio de poder que resultará, por exemplo, da saída da Força Aérea norte-americana da Base das Lajes, nos Açores (embora aqui estejamos geograficamente mais no Atântico Norte que no Atlântico Sul), poderá revelar-se uma oportunidade para a nova China de Xi Jinping, que possui uma vocação universalista, se posicionar estrategicamente como guardiã do Oceano. A mesma situação em Cabo Verde, este sim mais para sul que para norte, e onde não havendo petróleo nem gás, há, contudo, um arquipélago geoestrategicamente localizado entre África e a América do Sul.

Proteger as linhas marítimas enquanto vias de comércio de bens e mercadorias essenciais à economia de uma grande potência é uma questão premente e que faz sentido não só nas águas do Golfo de Aden, assoladas pela pirataria marítima, mas também no Atlântico Sul, eventualmente em menor intensidade, é certo, mas nunca completamente ignorado. Tanto mais que várias embarcações chinesas são acusadas de envolvimento em atividades pesqueiras ilegais na região, e que o Atlântico Sul é uma via de escoamento de estupefacientes provenientes das Américas com destino à Europa, a África, entre outros. Enquanto potência mundial, a China deve ter um papel mais ativo nas questões de segurança do planeta, não deixando esse papel unicamente à superpotência norte-americana.

A combinação de um hard power moderno, no qual tem apostado a nova China de Xi Jinping, com um soft power mais cuidadoso e responsável, pode contribuir para atenuar a imagem, muitas vezes negativa, de um parceiro que inunda os mercados de produtos low-cost e de fraca qualidade, ou que compete deslealmente ao nível económico, ou, ainda, como um gigante que não se interessa por outra coisa a não ser em forjar laços económicos com os Estados. A Nova Rota da Seda chinesa deve inspirar confiança e responsabilidade, criando a imagem de um parceiro que patrulha, por exemplo, os oceanos, que envia tropas para locais de genocídio, que socorre atempadamente vítimas de inundações ou sismos à escala planetária…

Este é um papel que até hoje tem frequentemente cabido ao hegemon norte-americano, e que muito tem contribuído para elevar o soft power dos Estados Unidos. Numa altura em que a política chinesa de não-ingerência nos assuntos internos dos Estados tem dado mostras de evolução (já que Pequim parece perceber, por exemplo, que tem o dever de agir para proteger a diáspora chinesa que mundo fora é vítima de violência, sequestros, etc, ou para securitizar o seu acesso às fontes energéticas), porque não ousar ser um parceiro mais ativo nas grandes questões securitárias do planeta ? O Atlântico Sul pode ser aqui um bom teste a uma China moderna e quer reativar, em conjunto com a Humanidade, os laços históricos que outrora ligavam o Império do Meio ao mundo. Num momento em que África e América Latina enfrentam problemas concretos de segurança, como tráfico de droga e de seres humanos, lavagem de dinheiro, crime organizado, Rogue States e Narco-Estados entre outros, a China pode e deve ser um parceiro ativo no combate a estes flagelos. Outro exemplo concreto, o reaparecimento de tensões entre britânicos e argentinos, na sequência da descoberta recente de importantes reservas energéticas a norte das Falkland. Num contexto em que o Brasil, enquanto hegemon regional sul-americano, se opõe à eventual presença da NATO no Atlântico Sul, não poderá a China, beneficiando de tal conjuntura geopolítica, ser um contrapeso às forças ocidentais e, ao mesmo tempo, um mediador entre o Reino Unido e Argentina ?

Uma outra recomendação que deixamos : a China pode e deve apoiar mais a investigação marinha no Atlântico Sul, o qual é promissor em recursos marinhos e energéticos (eventualmente depois em seu próprio proveito), mas onde comparativamente aos Oceanos Índico e Pacífico, existe ainda uma investigação incipiente.

Num espaço em devir, onde as regiões do Sul são atualmente protagonistas de uma reconfiguração geopolítica, após terem conquistado um maior autonomia face à Europa e Estados Unidos na última década, a China pode e deve lançar a sua âncora num cenário geostratégico onde as potências do Atlântico norte estão a perder terreno. Acreditamos também que a China pode ter um papel ativo na construção de uma estratégia integrada para a bacia do Atlântico, promovendo a cooperação em outras frentes que não apenas as vocacionadas para a economia, ou seja, para o business. Afinal, a confirmar-se a profecia de um artigo publicado no Huffington Post, “O século XXI não será necessariamente um ‘século Pacífico’, pode muito bem ser um Atlântico” (2013 : para. 11).[1]

Paulo Duarte é doutorando em Relações Internacionais na Univerité Catholique de Louvain, Bélgica, e investigador no Instituto do Oriente, em Lisboa. É autor do livro ‘Metamorfoses no Poder: rumo à hegemonia do dragão?’ com prefácio do reputado comentador Marcelo Rebelo de Sousa (duartebrardo@gmail.com).

[1] The Huffington Post (2013). “Why the Atlantic, Not the Pacific, May Dominate the 21st Century”, November 12, http://www.huffingtonpost.com/erik-brattberg/why-the-atlantic-not-the-_b_4409828.html

Em:  Revista Sociedade Militar – Brasil – Rio de Janeiro.

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