Geopolítica, Conflito EUA x China. O futuro das Relações no Estreito de Taiwan

estreito de taiwanEspeculando sobre o futuro das Relações no Estreito de Taiwan

Revista Sociedade Militar

No passado dia 15 de janeiro de 2016, Taiwan foi a votos e o povo escolheu a primeira mulher Presidente de um país que, em bom rigor, quer ser país, mas ainda não o é. Nem sei se alguma vez será (independente do que penso sobre a matéria, e das minhas esperanças ou desejos enquanto ‘cidadão do mundo’). Explicando numa linguagem simples, para quem não está familiarizado com o assunto, Taiwan (também chamada República da China, cuja capital é Taipé), é, na perspetiva de Pequim (capital da China, que, em bom rigor se chama República Popular da China), tão-somente uma parte da grande-enorme China (cuja capital é Pequim). Taiwan é uma espécie de filho renegado, que anseia por uma independência não-consentida.

A situação parece, segundo alguns, ser promissora, já que Ma Ying-jeou – o antigo Presidente taiwanês – era mais favorável às ideias do Partido Comunista Chinês e mais propenso, por conseguinte, a um statu quo sem reivindicação de independência e com bons laços económicos face à China continental. Porém, a nova presidente, cujo nome é Tsai Ing-wen, e de partido diferente do de Ma, não vê a realidade sob o mesmo prisma do agora Presidente cessante.

Curiosamente, enquanto bolseiro do Governo de Taiwan, fui convidado para um seminário em janeiro passado, em Taipé[1], onde alegadamente um tal Dr. Olivier Guillard, francês, iria discursar sobre as perspetivas das relações entre a República Popular da China e Taiwan (República da China) no contexto do pós-eleição de Tsai Ing-wen. Ia acompanhado por um colega alemão. Ambos assistimos a tudo menos a um seminário. Passo a explicar. Na verdade, o Dr. Olivier Guillard – que supostamente deveria falar de cenários geopolíticos – passou os primeiros 15 minutos a apresentar-se, fazendo uma espécie de autoelogio e gabando o seu currículo perante os dois grandes especialistas taiwaneses que lá se encontravam. Depois deste verdadeiro one man show, que veio falar não de Taiwan, mas de si próprio, o francês limitou-se a questionar os taiwaneses sobre o que eles achavam que iria acontecer após a vitória da Presidente Tsai Ing-wen, ou seja, como seriam as relações com Pequim a partir de então.

Nesta pseudo-palestra, aprendi, contudo, aspetos importantes. Um deles é que o verdadeiro teste a Tsai Ing-wen, isto é, aquilo que nos permitirá perceber se as relações no Estreito de Taiwan se vão manter, melhorar ou piorar, será o discurso inaugural da Presidente, em maio de 2016. Aí sim, Tsai Ing-wen dará a conhecer a natureza das suas intenções. Será de esperar uma política de continuidade (do statu quo) como fora a de Ma, ou, ao contrário, uma atitude mais audaz/revisionista face a Pequim? Revisionismo declarado para já – tanto quanto pude apurar – da visão dos especialistas de Taiwan, só mesmo quanto à reescrita da História que consta nos manuais escolares. Na prática, a Tsai Ing-wen e ao Partido KMT[2] não agrada a versão da História chinesa (alegadamente de natureza ‘mais pró-China’ continental) que as crianças e jovens taiwaneses aprendem.

Mas em matéria de política mais substancial (digamos assim) para onde tenderão a focar-se as prioridades da nova Presidente? A resposta dos especialistas taiwaneses que escutei parece convergir para um enfoque nas questões económicas internas, no sentido de aliviar o período menos positivo (segundo os próprios) que as finanças de Taiwan estão a atravessar. Todavia, não é propriamente isso que interessa aos académicos, reputados especialistas e mídia internacional, muitas vezes alarmistas na sua análise das relações Taipé-Pequim, como que diagnosticando os sintomas de uma pré-guerra, ou, pelo menos, de um crescendo de tensões entre a República Popular da China e a República da China (ou Taiwan). Contudo – e sem querer desmotivar os que prenunciam uma confrontação mais intensa – diria, tal como entendi das palavras dos dois especialistas Taiwaneses que ouvi na ‘palestra’ a que fui, que o primeiro ano da nova Presidente Tsai Ing-wen tenderá a pautar-se por mais do mesmo.

Ou seja, nada de revisionismo. Por um lado para não exaltar Pequim, que, como é sabido, ameaça, há muito, tomar a ilha, caso esta proclame independência. E, por outro lado (e isto é importante), porque no passado ano, quando Tsai Ing-wen se encontrou com Obama, lhe prometeu, caso fosse eleita Presidente, não lhe causar transtornos (pelo menos no último ano de Obama na Casa Branca).

A política externa norte-americana enfrenta várias questões sérias (como o terrorismo islâmico, o Médio Oriente, a Coreia do Norte, entre outros), de modo que ter de defender Taiwan contra uma possível invasão militar de Pequim, seria altamente ‘suicida’. Não que a Marinha norte-americana não seja superior do ponto de vista qualitativo e quantitativo à People’s Liberation Army chinesa (que tem feito um esforço notável para se modernizar), mas entrar em guerra com quem abastece os Estados Unidos e detém uma extraordinária e inimaginável dívida norte-americana) seria, no mínimo, ‘pouco interessante’.

Embora aqui, e abrindo um parêntesis, eu discorde de alguns colegas investigadores, que acreditam numa guerra à escala global entre EUA-China. Na minha opinião, a existir conflito militar, este será localizado, a uma escala micro/regional (não global) e, sobretudo, por causa da pressão dos aliados asiáticos (Japão, Filipinas, Vietname, Taiwan, entre outros) que reclamam liberdade de navegação e fim do monopólio de ilhas e ilhéus (alguns deles artificialmente ampliados por Pequim) nos mares da China Oriental e Meridional. Ou seja, a existir conflito, no meu entendimento, este caraterizar-se-á por pequenas escaramuças entre fragatas chinesas e norte-americanas e/ou aviões dos EUA e China. Mas nada mais. A relação sino-americana, embora marcada por uma desconfiança mútua, é, ao mesmo tempo, pautada por uma dependência económica extraordinária, sendo que ambos os países são membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e, dotados de potencial nuclear. A nenhum dos dois interessa um conflito aberto e/ou de grande escala. A ‘guerra’ já existe, em verdade, sendo feita de outras formas, mais subtis e discretas, por meio de espionagem, ataques cibernéticos, entre outros aspetos.

Num cenário de prospetiva, e em jeito de conclusão, ouso prever, portanto, um enfoque da nova Presidente Tsai Ing-wen nas questões domésticas (combater o crescimento das desigualdades internas, como explicaram os especialistas que escutei), assim como a busca de um equilíbrio hábil entre as aspirações ‘independentistas’ dos seus eleitores, o ‘statu quo’ de Pequim e os contornos ainda incertos do que virá dos Estados Unidos… A grande incógnita da História ensina-nos a ter prudência e a nunca dar por certa e inquestionável uma determinada conjuntura.

Na verdade, em geopolítica não há certezas. Ninguém previu o fim da União Soviética, as ´Primaveras Árabes’… O que acontecerá se Trump suceder a Obama? Uma maior assertividade da América e corrida armamentista? O que significará, por sua vez, isso na proteção que os EUA têm conferido a Taiwan? Incentivar a ilha rebelde a proclamar a independência, desafiando abertamente Pequim, sob escolta de Washington? Perguntas possíveis, respostas incertas que só o Tempo, a História e o seu devir, e o Destino (para quem nele crê) poderão dar a conhecer à Humanidade.

Paulo Duarte – 12-02-2016 

[1] Onde me encontro a fazer pesquisa  [2] Do inglês, Kuomintang.

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