Salvar o Brasil

Como as ruas demonstraram mais uma vez neste domingo (04/12), a população repudia a corrupção, apoia a operação Lava Jato e responsabiliza a classe política pela situação do País.

A complacência para com o radicalismo que insiste em destruir a sociedade leva à rebelião das pessoas que vivem dentro das normas por ela aceitas.

Este axioma está se verificando no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Onde as instituições são sólidas, as mudanças se dão pela via eleitoral e se consumam pelas políticas de Estado. Onde elas são incipientes, tudo pode acontecer.

Onde há responsabilidade e maturidade, as instituições corrigem os exageros. Onde predominam aventureiros e oportunistas, o caminho se abre ao caos.

Experimentamos nas últimas décadas um desequilíbrio da vida social em nome de uma igualdade que fez uns mais iguais do que outros, alçados ao poder para criar mais discriminações, de gênero, de raça, de classe e tantas outras.

Esse desequilíbrio que destrói a família, a propriedade e as instituições para inverter a normalidade pela legalização das drogas, do aborto, das invasões e, por via da neutralização da Justiça, até do crime, não chegaria a esse ponto se não ele tivesse dominado o campo por onde começou: a política.

O fim do comunismo,  da União Soviética, da Guerra Fria e da justificação da violência pela ideologia não alterou os fins da esquerda radical, fosse ela chique ou truculenta, que jamais deu adeus às armas, mas apenas as trocou para melhor atuar no campo político. A sociedade haveria de ser transformada pela revolução.

A sua grande estratégia foi o deslocamento do centro político para a esquerda. Uma jogada tão promissora que, por um tempo, até os truculentos se acomodaram ao seu papel caricato, esperando a abertura do caminho para o poder pelos chiques.

Um exemplo foi a realização na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, no início dos anos 90, do seminário “Tendências do Pensamento Político Brasileiro”.

Lá pontificou, como representante do centro no pensamento político brasileiro, nada mais nada menos do que o então Senador Fernando Henrique Cardoso, colocando para escanteio o então Deputado Aloísio Mercadante e o então presidente do Instituto Liberal, o empresário Donald Stewart Júnior, escalados para representarem a esquerda e a direita respectivamente.

Foi preciso que FHC  plantasse a revanche contra os militares, que cevasse o MST, que inventasse as bolsas sem fundo, que ajudasse Lula a alcançar o poder e que, por final, viesse a público celebrar a Revolução Cubana, para ficar bem claro que ele jamais esteve no centro do espectro ideológico.

Nesse meio tempo, ele moeu a direita que bobamente achava que era sua aliada. E desequilibrou o quadro político nacional, colocando-o todo à esquerda e calando o debate sobre o futuro do País, que está hoje sem rumo.

Foi preciso tudo isso para ficar claro que FHC sempre foi, é e será de esquerda, como o seu partido, o PSDB, do qual alguns dos maiores expoentes, Aécio Neves e José Serra aí incluídos, não se furtaram em homenagear Fidel Castro. Para a degustação da esquerda sim, mas nem por isso menos significativo.

Sempre houve uma zona cinza entre tucanos e petistas, em todos os níveis da administração no País, mas depois da passagem do bastão, em 2002,  com as rusgas pelo poder, ficou mais difícil saber quem era quem.

Agora, com a permanência de grão-petistas nesta administração e a nomeação de algumas dessas conhecidas figuras para cargos chave, ficou mais fácil compreender a revoada tucana em apoio ao governo Temer em crise.

Alegando a louvável intenção de fazer o País chegar às eleições de 2018,  os tucanos se esforçam desde já para vencê-las. Até aí nada de mais. O problema é o que pretendem fazer dessa vitória e como estão interpretando o seu grande avanço nas eleições municipais deste ano.

Da mesma forma que a maioria da classe política, eles não estão entendendo o que está se passando no Brasil. Avançaram eleitoralmente por que a população está farta com o que aí está e neles enxergou uma alternativa.

Mas à medida que se evidencia o déjá-vu,  vai ficando impossível para o PSDB posar como oposição legítima a tudo que se fez no País durante os últimos treze anos.

Como os incríveis acontecimentos das últimas semanas estão demonstrando, o mesmo se aplica a todos os partidos, repita-se a todos, da organização política desta República. Têm em comum o desprezo à opinião pública e ao seu eleitorado.

A democracia brasileira passa hoje por mais uma prova crucial. Ela precisa desesperadamente de representação política legítima. Como as ruas demonstraram mais uma vez neste domingo (04/12), a população repudia a corrupção, apoia a operação Lava Jato e responsabiliza a classe política pela situação do País.

Com as manifestações consolidou-se uma tendência da sociedade em prol da austeridade pública, do estímulo ao mérito e ao trabalho, do combate à criminalidade, da valorização da família e do patriotismo, uma agenda abandonada há mais de trinta anos no Brasil.

Mas a paciência do brasileiro acabou. Há uma rebelião da classe média contra o desemprego, a corrupção, a insegurança, a impunidade, os abusos de autoridades em todos os Poderes e agora contra a tentativa de lhe empurrarem a conta dos erros e dos descalabros cometidos pela classe política.

Se essa revolta da sociedade não for canalizada por uma representação política crível que atue de maneira responsável no marco institucional do Estado democrático de Direito, teremos inevitavelmente uma ruptura no País, com consequências imprevisíveis.

Para que isso não ocorra, é necessário que o levante que está tomando as ruas e as redes sociais se estenda ao Congresso, contra os presidentes do Senado e da Câmara, contra as lideranças dos partidos políticos que se mancomunaram na grande farsa do projeto de lei anticorrupção e contra os que impedem as reformas urgentes para salvar a economia nacional.

Que se levantem no Congresso as vozes de poucos que falarão por muitos.

Este pode ser o primeiro passo para salvar o Brasil.  Salvar o Congresso.

Publicação autorizada. Texto de: Sergio Paulo Muniz Costa – Historiador / Publicado inicialmente no Diário do Comércio

Revista Sociedade Militar


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