Direita, esquerda e FALSAS NARRATIVAS – A influencia dos FAKES na formação da opinião

janeiro 6, 2017 - 13:52

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Direita, esquerda e FALSAS NARRATIVAS – A influencia dos FAKES na formação da opinião

No Brasil é importante dizer que uma imensa multidão dos que se autoproclamam de direita ou de esquerda se sustenta sobre pilares falsos ou construidos por outras pessoas. Isso é tremendamente perigoso para uma democracia. A habilidade de coletar, filtrar informações e – principalmente – capacidade de analisar de forma independente o conhecimento apreendido e assim chegar a conclusões racionais sobre o quotidiano, construindo os próprios fundamentos, são condições sine qua non para a necessária participação política independente de cada um de nós.

Nota do Autor: Para entender o quotidiano você precisa ler e compreender textos com mais de 10 linhas, muito mais. Esse texto deve ter umas 100 linhas e te aviso logo de início para que desista logo. Se você for um desses que entende “pelo título” ou acha que textos bons são apenas aqueles que refletem a sua visão de mundo, usando um jargão militar eu te digo – pede logo pra sair. É fácil, basta clicar no “x” vermelho no lado direito aí na parte superior de sua tela.

No contexto atual, muito mais do que há dez anos, as informações nos chegam aos turbilhões. Hoje o imediatismo, a descentralização e o âmbito global fazem das redes sociais um meio propício para propagação de falsas histórias. O brasileiro passa 60% mais tempo a cada visita nas redes sociais do que os habitantes do resto do mundo. Sem a habilidade acima especificada o indivíduo certamente precisará de “muletas intelectuais” para digerir, ou melhor, ENGOLIR essa quantidade toda de informações. As “muletas” são pessoas que normalmente admira por conta da habilidade no discurso e na feroz defesa de posições que parecem simpáticas aos seus ideais para a sociedade. Estes se tornam espécies de “gurus”, que sustentam posicionamentos, embasam discursos e são o frágil pilar das ações de milhares de militantes que se dizem esclarecidos.

O texto, relembrando, trata de falsas narrativas e construção da mente social 

Alguns exemplos

A esquerda brasileira, principalmente os membros mais jovens, defende ícones estrangeiros, como LENIN, Chê e Fidel, como se os mesmos não tivessem praticado as inúmeras atrocidades que conhecemos. A esquerda brasileira, principalmente os mais jovens, defende ícones nacionais como Dilma Roussef e Lamarca como se os mesmos fossem defensores da democracia, como se suas ações do passado não fossem voltadas para o estabelecimento do autoritarismo em nosso país.

A grande verdade é que a esmagadora maioria dos que têm curso superior jamais digeriu realmente livros que tratam com seriedade sobre o que ocorreu na primeira metade do século XX. Qualquer um que cursou uma universidade federal no final do sec.XX sabe como, principalmente nos cursos de humanas, proliferam as conhecidas “Xerox”, onde os alunos compram cópias de capítulos ou de resumos dos clássicos que deveriam ser inteiramente lidos para que sua formação fosse realmente sólida, fundamentada.

Parcela significativa da auto-proclamada direita brasileira – justamente a mais militante – repete indiscriminadamente falácias como a questão da construção de bases russas no interior da Amazônia e a lenda do nióbio, minério que é produzido e comercializado normalmente, mas que para muita gente esconde mistérios e conspirações que impediriam que o Brasil se torne o país mais rico do planeta.  

o mito do nióbio

Procurando desmistificar esse assunto – um obvio obviamente obsurdo – um deputado federal chegou a visitar a maior industria do ramo e ali, como se esperava, verificou que tudo ocorre normalmente. Infelizmente o vídeo que o político gravou com as informações verdadeiras gerou menos interesse que as mentiras amplamente divulgadas sobre o tema em questão. O que mostra que muitos preferem se apegar à falácias, têm dificuldade de se libertar das supramencionadas “muletas”. Talvez lhes cause incômodo ou considerem constrangedor confessar que por anos a fio repetiram inverdades sem verificar fontes.

Pelo que conhecemso da rede sabemos que é grande a probabilidade de surgir no campo de comentários (logo abaixo) alguém insinuando que o referido deputado faz parte de conspiração mundial que – tomando o nosso nióbio – pretende impedir que o Brasil se torne uma potência mundial.

Dado importante. Pesquisa recente, em universidade pública, mostra que pelo menos 34% dos alunos de universidade leem no máximo 2 livros por ano.

Um exemplo interessante do caos que a disseminação de falsas informações pode provocar é a desastrosa queda em 10% – em 2008 – do valor das ações da apple por conta de um boato que se disseminou como um “rastilho de polvora” que informava a morte de Steve Jobs. Ocorrencia mais desastrosa ainda foi o assassinato, no Brasil (Santos), de uma mulher por conta de boato nas redes sociais que apontavam a existência de uma sequestradora de crianças com suas características físicas.

No Brasil a crescente polarização e discursos de ódio aparentemente tem como agente potencializador a disseminação indiscriminada de boatos de internet.

Nos ESTADOS UNIDOS

Sem a ajuda dos governos e órgãos de inteligência, as pessoas um pouco mais maduras usam a própria Web para examinar linhas de tempo e identificar as fontes primárias dos chamados fakes, hoax ou boatos. Algumas assinaturas serão encontradas com mais dificuldades, mas estão todas na internet. Basta pensar e pesquisar um pouco, encontrar os caminhos.

Embora possuam uma sociedade menos sujeita a influencia e distribuição de “informações fake”, alguns países de primeiro mundo – cientes da importância do assunto – têm buscado controlar a distribuição de falsas notícias pela grande rede. Nos EUA busca-se desenvolver sistemas de  controle das falsas informações que podem gerar prejuízos à sociedade. Segundo especialistas digitais, os metadados – dados sobre dados – têm a possibilidade de fornecer a identificação dos protagonistas, criadores das chamadas lendas urbanas, fakes, calúnias etc. 

O Departamento de Segurança Interna dos EUA criou um centro de respostas rápidas contra ameaças cibernéticas (CERT) que é agora apoiado por norma importante, embora pouco divulgada, assinada por Barack Obama há poucas semanas.  Que amplia a “mão” do governo no sentido de mais rapidamente:

“identificar as tendências atuais e emergentes em propaganda estrangeira E desinformação, a fim de coordenar e moldar o desenvolvimento de táticas, técnicas e procedimentos para expor e refutar desinformação e desinformação estrangeira e promover proativamente narrativas e políticas baseadas em fatos para públicos fora dos Estados Unidos ” 

Os Estados Unidos, diferente do que ocorre  no Brasil, agora podem oficialmente  se debruçar em identificar e desmanchar as “falsas narrativas que têm potencial de minar as instituições democráticas”. No Brasil uma iniciativa como essa core o risco de ser considerada como absurda.

“falsas narrativas que podem minar as instituições democráticas”

No Brasil, assim como em outros países, grande parte da sociedade obtém suas informações por meio da internet. Muitas pessoas, independente de seu posicionamento político, replicam as informações de forma irresponsável, como se fossem crianças, sem verificar fontes, datas e outros dados que poderiam indicar se são verdade ou não. 

A maior parte dos sites que divulgam falsas informações constrói manchetes em torno de premissas próximas de uma verdade, o que leva o leitor desavisado, despreparado e incapaz de digerir conteúdo, a se impressionar com as letras garrafais ou com palavras como ABSURDO, ATERRORIZANTE, CAOS e outros superlativos, hipérboles.

A revista SOCIEDADE MILITAR possui um número no whatsapp e seguramente posso afirmar, como um dos editores do site, que a esmagadora maioria das informações que recebemos por esse canal não passam de “FAKES” que vão de simples mentiras ou deturpações de informações antigas a mensagens que podem colocar a vida e reputação de pessoas realmente em risco. As informações que exibem fotos de pessoas acusando-as de ser estuprador são um exemplo disso. Rotineiramente – assim como outros veículos sérios –  somos vitimados por sites e blogs que usam extratos de textos gerados por nossos articulistas e acrescentam ou deturpam informações para dar o tom sensacionalista que tanto impressiona ativistas políticos sem pilares intelectuais.

Ja existem no BRASIL normas que prescrevem que quem compartilhar uma informação falsa que coloque a vida ou reputação de alguém em risco deve ser legalmente responsabilizado por isso. É necessário então que as autoridades agilizem o cumprimento da lei.

“Calúnia (art. 138) é acusar alguém publicamente de um crime, e difamação (art. 139), de um ato desonroso.”

Processos automatizados

As agências de informações dos EUA e outros países, a exemplo do google, estão aos poucos criando um banco de dados de assinaturas confiáveis e espera-se que assim os geradores de informações falsas e boatos sejam identificados. Dessa forma, a tecnologia poderá ser usada para rapidamente distinguir entre fontes limpas de notícias e fontes fabricadas que foram envenenadas com desinformação ou desinformação.

A partir da identificação dessas “fontes contaminadas” o que se pode fazer? Bem, o google tem tomado providencias para que as fontes confiáveis “apareçam” na parte superior dos resultados das pesquisas, a chamada SERP (Search Engine Results Position). A ferramenta inclusive oferece oportunidades do cliente classificar a fonte quanto a sua utilidade.

sociedade militar estudo sobre fake notícias

O facebook também já oferece oportunidade de se denunciar publicações falsas ou que ofendam à integridade de outras pessoas.

falsa publicação fake

Um bom material sobre a possibilidade dos algorítimos na “desinfecção” da rede está nesse site, de  Tim O’Reilly

Algumas questões colocadas

  • Em grande escala o fluxo de informações falsas pode atrapalhar um processo democrático?
  • Como administrar, filtrar, restringir a disseminação de falsas informações sem prejudicar a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa?
  • Como diferenciar uma informação FAKE de uma informação que apenas apresenta o fato por um outro prisma?
  • O brasileiro tem sido esclarecido sobre consequências que a dificuldade da distinção entre conteúdos veridicos e inverídicos podem acarretar socialmente?

O que cada um de nós pode fazer

O atual comandante do Exército, general José Eduardo Villas Boâs, disse algumas vezes, respondendo a pedidos para que os militares interfiram nos processos políticos e jurídicos em andamento, que a sociedade “não pode mais ser tutelada”. Muitos entenderam o recado, o militar disse, implicitamente, que os brasileiros precisam crescer, precisam aprender a resolver sozinhos os problemas que a sociedade enfrenta.

A habilidade de apreender informações e digeri-las da forma correta precisa sim ser desenvolvida nos brasileiros. Se continuarmos a depender de nossas “muletas intelectuais”, crendo em suas falas como se fossem “verdades absolutas” só porque são embrulhadas com um papel que representa nosso posicionamento político , corremos o risco de ver nossos netos e bisnetos crescer em um país ainda bem aquém do que deveríamos ser em matéria de qualidade de vida.

A desinformação, mentira ou fakes é prática muito antiga, principalmente seu uso político e estratégico, talvez tão antigo quanto a própria linguagem.  A internet traz apenas novos desafios por conta da velocidade e quantidade das informações. Contudo, há possibilidade de, enquanto não obtemos respostas para as questões acima colocadas, pelo menos conscientizarmos nosso círculo de relacionamentos para que cada um entenda a responsabilidade que tem em não redistribuir informações sem antes verificar a veracidade ou pelo menos a plausibilidade das mesmas.

Se no mundo físico tendemos a descartar informações de pessoas que divulguem mentiras – evitamos os famosos fofoqueiros – é preciso também que no mundo virtual isso ocorra. Observem a imagem abaixo, resposta dura, mas necessária. É uma providência louvável de quem quer construir um país melhor.

compartilhar fakes

Robson A.D.Silva – Militar – Cientista Social – Escreve para a Revista Sociedade Militar

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