Receitando “poder doce” ao amigo chinês

Receitando "poder doce" ao amigo chinês

Revista Sociedade Militar  – RJ, Brasil – Recebido do Autor / Quando ontem fui recebido pela Embaixada da República Popular da China em Portugal, a determinado momento da conversa que estava a ter com o Secretário dos Assuntos Políticos, o mesmo me perguntava: “Que crítica gostaria de fazer ao modo como a China apresenta a sua Nova Rota da Seda ao mundo?” Ainda hesitei entre não fazer qualquer observação, de forma a ser politicamente correto e não gerar um qualquer eventual mal-estar aos ‘amigos’ chineses (já que era por amigo da China, algo que muito me honra, que o meu principal interlocutor me tratava. No entanto, como creio que o Ser Humano deve ser fiel àquilo pensa, aos seus princípios (sem contudo deixar de pensar no que diz), optei por correr o risco, sendo, portanto, consequente com a velha máxima bíblica: mais vale ser quente ou frio, morno é que nunca.

Dito de forma simples: mais vale uma decisão e/ou posição errada do que nunca tomar qualquer posição. As decisões erradas são quase sempre alvo de crítica, mas as não-decisões não são objeto de nada, porque elas próprias são nada. Então olhei o amigo chinês nos olhos – e ainda que eu não seja o Pai do soft power, como o é, segundo se diz, o célebre Joseph Nye – expliquei-lhe que o grande público receia a China por não conhecer (bem) o seu projeto. Creio que o amigo chinês deverá, no mínimo, ter duvidado se eu não estaria, quiçá, sob o efeito de um qualquer alucinogénio forte. Mas não. Era exatamente aquilo que ele ouvia. Ao que eu acrescentei ainda – se é que isso serve de algum suporte de referência ao meu argumento – que havia realizado pesquisa doutoral no Cazaquistão, Tajiquistão e Quirguistão e que havia inclusive estado em Moçambique, Angola, entre outras partes do mundo, onde as pessoas com quem falei e especialistas que entrevistei se queixavam precisamente disso. Ou seja, que temem a China por não conhecerem as intenções desta.

Se quisesse uma outra referência de peso para apoiar o meu postulado, poderia sempre citar Shambaugh ou  Nye, para quem a China exerce soft power com hard cash, o que acaba por ser contraproducente, já que as pessoas – pelo menos aquelas com que tenho falado como investigador – são extraordinariamente recetivas à moeda chinesa (o yuan), mas não tanto ao Povo chinês em si. A razão, ou razões, são as mesmas de sempre, e ecoam  um pouco por todo o mundo. Quem de nós não ouviu já dizer que os produtos chineses são baratos mas de fraca qualidade? Ou que os chineses ‘furtam’ os empregos e minam a competitividade dos países onde estão? Ou, ainda, que os trabalhadores chineses se isolam das comunidades locais, gerando pouca ou nenhuma receita nos países de acolhimento? Estas são ladainhas e críticas constantemente repetidas mundo fora.

Então, para melhor aconselhar os meus amigos chineses – que tão atenciosamente me ouviam e faziam questão de saber como poderá a China melhorar o seu soft power – recomendei-lhes não canja de galinha para a alma, mas o receituário que naquele momento me veio ao espírito e que passo a enumerar:

1- Procurar não limitar a mensagem apenas aos tradicionais especialistas ou sinologistas, mas apostar numa diversificação de receptores… ou seja, buscar vários públicos em vez de um nicho composto exclusivamente por experts sobre a China.

2- Procurar que o poder de sedução (ou soft power), provenha do talento do indivíduo e da sociedade onde ele se insere, ao invés, de ser originado pela burocracia asfixiante, nada criativa, inerente à propaganda estatal. No fundo, neste meu receituário limitei-me a prescrever Nye (espécie de placebo para a falta de atração de uma potência económica respeitada, mas com graves lacunas de atração). Ousei mais ainda. Falei ao meu interlocutor da célebre máxima Um país, dois sistemas, de Deng Xiaoping, para melhor ilustrar o meu ponto de vista. Quis explicar-lhe, com os exemplos de Hong Kong e Macau, que Pequim fez bem em ter consentido na criação de um laboratório de economia, que trouxe um desenvolvimento exemplar àquelas duas regiões (Macau e Hong Kong). O que eu lhe queria com isto explicar, transpondo o exemplo da economia para a esfera do soft power, é que se as autoridades chinesas autorizassem uma espécie de laboratório de soft power no seio de think thanks, académicos ou grupos de indivíduos inseridos na sociedade civil, talvez a coisa não corresse necessariamente mal, à semelhança dos casos de Macau e Hong Kong. Por que não dar o benefício da dúvida?

O grande problema é que alguns autores, como Philippe Paquet, argumentam que o pior dos receios consiste na autocensura. E esta já está, em bom rigor, incorporada na esfera mental de cada chinês, que é uma espécie de indivíduo ‘moldado’ pelo regime comunista chinês. Na prática, cada chinês beneficia de ‘liberdade’ para pensar, falar, escolher a sua licenciatura, viajar e, inclusive, ter mais que um filho atualmente (fruto da constatação tardia dos graves desequilíbrios demográficos). Contudo, essa liberdade não é total, na medida em que o indivíduo sabe que não pode passar a chamada linha vermelha, de que é exemplo o ousar criticar o regime chinês, ou o colocar em causa a política de uma China única, entre outros aspetos. À exceção desta autocensura, face à qual cada chinês conhece de antemão os limites de uma conduta tolerável, ele é, entre aspas, relativamente ‘livre’.

No entanto, questiono-me se perante o modus vivendi chinês (altamente padronizado e interiorizado) onde cada cidadão é convidado a pensar no que diz, ao invés de dizer o que pensa, se o meu receituário para um melhor soft power chinês poderá alguma vez resultar, mesmo fazendo a apologia de um mini-laboratório de ‘pseudo-liberdade total’, confinado a um pequeno segmento experimental da população, que não aquela pertencente ao aparelho ou à propaganda partidária. Será que a alegada ‘liberdade total’ funcionaria em quem vive em regime tácito de autocensura? Não sei, mas o meu amigo chinês (que me ouvia atentamente) tomou nota desta minha sugestão num pequeno caderno, que depois presumo ir mostrar ao seu superior hierárquico.

Mas, terminada a reunião, ele disse-me que viu em mim um amigo da China. Será que o sou verdadeiramente? Ou não estarei, sem intenção, a condená-lo à repressão do superior hierárquico que receia, quem sabe, a repressão dos decisores políticos chineses? Se prevalecer esta espiral negativa de receio e conservadorismo, então a propaganda estatal chinesa não gerará soft power, mas tenderá a prolongar a suspeição que uma parte significativa da humanidade (ainda) sente face à China.

Paulo Duarte – 11-2-2017 – Publicado na Revista Sociedade Militar

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