Terror: o novo normal? Não me leves a mal, mas quero viver

Terror: o novo normal? Não me leves a mal, mas quero viver

Aconteceu uma vez mais. Agora foi em Londres. A Europa está na moda. Alemanha, França, Reino Unido. Eles explodem, eles matam, eles atropelam, eles tentam furtar as armas das forças de segurança… A faca também serve. A ideia é matar o maior número possível de uma só vez. A recompensa é uma passagem direta para o Céu, um encontro com o paraíso, onde os sofrimentos terrenos findam e os prazeres eternos e, claro, as virgens celestiais aguardam impacientemente por estes heróis.

Poderiam ser os objetivos de um jogo de entretenimento, mas é um triste e macabro encontro com a realidade. Os atores são de carne e osso, assim como os civis inocentes por eles mortos, em nome de um fim maior. Julgava que as guerras se combatiam longe dos países civilizados, mas nunca em solo destes.

A carnificina quer-se com muito sangue, para impressionar, persuadir e convencer a Humanidade de que os infiéis estão do lado errado da História. Eu próprio, mero ocidental, sou um infiel destinado a morrer. Dizem que o ser humano é dono do seu destino, mas e se eu tiver o azar de me cruzar com um destes heróis que usam o próprio corpo para matar? Afinal quem é dono do destino? É o autor da carnificina, sou eu que não deveria ter passado em determinado local e hora, ou é Deus que se esqueceu de me proteger? Não quero colocar Deus nesta história, apesar de ser crente, porque acredito que o Homem beneficia, ainda assim, de uma parte significativa de livre arbítrio.

Aquele que mata tem opção de o fazer ou não. Mas também penso que aquele que morre também tem direta, ou indiretamente, oportunidade de não caminhar, como cordeiro manso e passivo, para os desígnios do agressor. Ou seja, como é que eu me posso transformar em agente ativo do destino? Influenciando, por exemplo, os dirigentes políticos do meu país, e, em sentido lato, da comunidade internacional. Não sou apologista da construção de muros, como Donald Trump, mas também não sou defensor de uma liberdade de acolher, de braços abertos, não importa quem.

Escolho o meio termo: uma imigração seletiva, como se pratica em alguns países, de que é exemplo a Austrália.

A Europa e o mundo têm de estar unidos contra os Estados (Des)unidos da América, liderados pela loucura de Trump (não contra os Estados Unidos, note-se), mas retirando uma lição positiva. É preciso ir mais longe que Merkel, mas menos que Trump. O meio termo passa por combater, por meio da legislação, não os refugiados, mas os extremistas. Uma política de acolhimento seletiva, ao invés de exclusiva. Não abrir demasiado a porta, mas também não a fechar completamente. Deixar um espaço.

Já agora, atrevo-me a lançar um outro desafio. O problema dos refugiados não é apenas da Europa, nem unicamente dos Estados Unidos. Ele é uma questão mundial. O incontornável desejo de um pobre ambicionar ter uma vida digna, viver em vez de (sobre)viver. Daí que enquanto houver países civilizados e industrializados, em síntese, o El Dorado, haja tendência para o carenciado ousar bater à porta do que vive melhor.

Não é por acaso que não costumamos ver um pobre e/ou refugiado querer emigrar para outro país pobre. Não, ele espera chegar a um país onde possa ter melhores condições de vida. Por conseguinte, a questão dos refugiados deve ser entendida, a meu ver, como um esforço de países industrializados ou em vias de industrialização (caso da Rússia e China) em criar condições de acolhimento, mas tão ou mais importante, em combater o mal na raiz. Quer isto dizer que para evitar a situação de desespero dos refugiados – que diariamente tentam cruzar o Mediterrâneo para chegar à Europa, ou o México para alcançar os Estados Unidos, etc – a Comunidade Internacional deve considerar rever o Princípio de não-ingerência.

Passo a explicar com um exemplo concreto: os piratas da Somália. Ninguém resolve a pirataria marítima eliminando fisicamente um ou outro pirata. O foco de pobreza, e, portanto, a causa da pirataria, permanecerão. O mal combate-se na raiz, promovendo a melhoria das condições de vida nesse tipo de países. Como é que isso se faz? Não sei. Mas a CIA e outros serviços secretos internacionais sabem. Aliás, derrubar ditadores alegando a existência de pseudo-armas químicas, é uma prática conhecida deste tipo de inteligência (embora eu não subscreva a invasão que foi feita ao Iraque). Por que não ‘colocar’ pessoas ‘mais capazes’ de governar nos locais críticos? Não seria meio-caminho para melhorar as condições de vida e diminuir a emigração massiva?

Paulo Duarte – Doutorado em Ciência Política pela Universidade Católica de Louvain. Investigador no Instituto do Oriente, Lisboa. [email protected]

Revista Sociedade Militar

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