Paulo Duarte

Estados e Unidos e China: entre ‘paixão’ recíproca e desconfiança mútua

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Estados e Unidos e China: entre ‘paixão’ recíproca e desconfiança mútua.

<< Ha risco de enfrentamento motivado pela questão de Taiwan…  o nacionalismo que ‘unifica’ os chineses em torno de um futuro ‘glorioso’ >>

Contrariamente às relações entre chineses e europeus, as relações entre Washington e Pequim revelam-se muito mais complexas, frequentemente tensas e impregnadas de um misto de ‘paixão’ recíproca e de desconfiança mútua. Elas são, aqui, alvo de análise dada a sua importância (uma, porque é a superpotência, a outra, uma potência em ascensão). Por outro lado, “o que torna hoje essa relação mais importante e interessante que nunca, é que ela associa dois países cujo peso face ao resto do mundo não tem cessado de aumentar desde há vinte anos” (Vermander, 2004: 101).  

Vários autores estimam que este novo século será mais ‘chinês’ que ‘americano’. Todavia, se em Washington a ‘obsessão chinesa’ é efetivamente uma realidade, os responsáveis políticos parecem, no entanto, hesitar face aos perigos de uma política de contenção que, no caso da China, poderia ser nefasta à economia americana” (Courmont, 2007: 1). O que sucede, na prática, é que os Estados Unidos preferem optar, antes, pela via ‘intermédia’, que consiste em “isolar politicamente Pequim, mantendo, simultaneamente, uma parceria ativa no que respeita às questões económicas e comerciais” (Courmont, 2007: 1).

Perante tal contexto, pode-se afirmar que as relações sino-americanas são marcadas por uma ameaça potencial, ourevelam, ao contrário, uma vontade de cooperação? A resposta oscila entre estes dois extremos, mas como veremos, parece ser sobretudo marcada por um clima de suspeição mútua.[1]De facto, nas relações entre Washington e Pequim, existe a possibilidade de uma colaboração frutuosa nos mais variados domínios. Mas, por outro lado, segundo B. Courmont (2007: 1), “os dirigentes americanos consideram a China, se não como inimigo ou ameaça à sua segurança, pelo menos, enquanto risco potencial”.

Na realidade, há desafios-chave, tais como “a competição política e económica na Ásia, a vontade chinesa de estender a sua soberania aos espaços terrestres e marítimos que ela considera seus, e sobretudo a questão de Taiwan” que, em conjunto, “continuam a comportar riscos sérios de tensão, ou mesmo de afrontamento, inclusivamente no plano militar” (Heisbourg et al, 2004: 17).

De acordo com Benoît Charpentier e Christophe Reveillard (2007: 265), “a omnipresença e a desconfiança americana face à China é percebida como um isolamento, uma dominação injusta, e um obstáculo à concretização dos objetivos estratégicos chineses, em particular, o seu abastecimento energético, já que a China se tornou fortemente dependente de energia”.

Se tal ‘isolamento’ está longe de ser irreal, já que Washington tenta fazer de tudo para que a China permaneça uma ‘média potência’, Pequim não quer ser relegada a segundoplano (Medeiros, 2005-2006).Entre outros aspetos, o Império do Meio conta “antes de mais recuperar Taiwan, por razões estratégicas, mas também, fundamentalmente políticas (o princípio de uma ‘única China’) e, enfim, retomar a hegemonia comercial do Pacífico fazendo encerrar as bases americanas e encorajando a diáspora” (Fouchet, 2001).

No fundo, as ambições e estratégias das duas potências “jogam-se nos mesmos terrenos” pois Pequim e Washington “querem simultaneamente assegurar-se da diversificação das suas fontes de matérias-primas, mas também, controlar os gestos do outro”: elas “interessam-se de novo por África, que era tida como ‘esquecida’, e aproximam-se sensivelmente da Índia” (Charpentier and Reveillard, 2007: 266).

Em todos estes esforços, que se concentram na busca de influência e de recursos pela China e pelos Estados Unidos, o nacionalismo que ‘unifica’ os chineses em torno de um futuro ‘glorioso’ não parece ser compatível com o ‘recalcamento’ das ‘injustiças’ percebidas pelo Império do Meio. Dito de outra forma, a China está a tornar-se “muito crítica face à política americana na Ásia ao longo dos últimos anos (desde o início da crise nuclear norte-coreana, outono de 2002, e do discurso sobre ‘o eixo do mal’ de George W. Bush, em janeiro de 2002, que marcou uma nova era nas relações entre os Estados Unidos e os estados ditos pária)” (Courmont, 2007: 3).

Por sua vez, a política americana tornou-se mais firme do que no passado. Mas isto não impede, contudo, que ela comporte uma certa ambivalência. Com efeito, os termos “strategicpartner” e “strategic competitor” parecem sobrepor-se “em função das circunstâncias e das influências políticas e ideológicas que definem a perceção que Washington tem da China” (Courmont, 2007: 3). Seja como for, o misto de “prudência tática e de indeterminação estratégica”, de que é feita a política chinesa do Estados Unidos, não visa, no entanto, o choque perigoso entre os interesses chineses e americanos (Heisbourg et al, 2004: 24). Segundo B. Vermander (2004: 104), “os Estados Unidos querem absolutamente evitar deixar-se envolver numa espiral conflitual com Pequim”, assim como a China que, por sua vez, procura “não meter em perigo uma relação comercial essencial ao crescimento económico, peça-chave da manutenção da estabilidade social”. Efetivamente, um outro autor, Robert Sutter (2003-04: 77), adverte que indo contra os interesses de Washington, a China “poderá colocar em risco a estabilidade (muito importante para a sua modernização e para a da Ásia do Sul), forçaria os países asiáticos a escolher entre os Estados Unidos e a China, e afastaria dela a maioria dos dirigentes asiáticos (que pretendem evitar a instabilidade)”.

Apesar dos desafios que fazem da China e dos Estados Unidos parceiros, parece, na opinião de numerosos analistas, que a rivalidade e a desconfiança superam a cooperação entre os dois países. Certos autores, à semelhança de Gerald Fouchet, veem mesmo a confrontação entre estas duas potências como inevitável, a médio ou longo prazo.[2] Tal constatação funda-se, nomeadamente, na política de modernização vigorosa do armamento chinês. Segundo Charpentier e Reveillard (2007: 266) “Pequim reajusta a sua frota, planeia a aquisição de um porta-aviões, constrói satélites-espiões e revaloriza os salários dos seus homens, como que preparando uma situação militar de envergadura transfronteiriça, com os Estados Unidos (por exemplo), mas também para conquistar uma verdadeira dimensão marítima”.

Dito isto, partindo da ideia que “a disputa China-Estados Unidos é muito mais pesada que a antiga contenda Estados Unidos-URSS, porque é estratégica e não mais ideológica, e também porque se assemelha a um choque de civilizações”, Gérald Fouchet (2001) crê “que um afrontamento global entre Washington e Pequim constitui um dos riscos maiores do século XXI”.Se G. Fouchet (2001) estima que não é possível conhecer o “pretexto do seu despoletar, nem a forma que ele revestirá”, B. Vermander (2003: 459) acredita, a esse respeito, que “cinco grandes questões determinarão o futuro das relações entre uma potência e a outra: Taiwan; a competição económica; os direitos do Homem e a governação política; os valores culturais e o sistema internacional”.

Em conclusão, verificamos que os Estados Unidos se encontram numa posição delicada já que, como sublinha B. Courmont (2007: 3), Washington não pode nem “impor uma parceria durável”, nem aceitar a China “como sendo o inimigo supremo”. Digamos que o estatuto que a China adquirir em função dos acontecimentos, ditará então o seu comportamento: continuar, ou não, a cooperar com os americanos. Elucidativo, a esse respeito, é o comentário deGeorge W. Bush(proferidoquando estava em funções),para quem a China “não é mais um parceiro estratégico, mas um concorrente estratégico”, e que, no fundo, quer se admire ou não a figura do ex-presidente americano, é assaz representativo da perceção do ‘perigo amarelo’ nos Estados Unidos(Courmont, 2007: 3).

Bibliografia

Paulo Duarte é doutorando em Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa – ISCSP-UTL, Portugal, e investigador no Instituto do Oriente (duartebrardo@gmail.com).

CHARPENTIER, Benoît, REVEILLARD, Christophe,(2007)La puissance chinoise au risque de la mondialisation, Géostratégiques – La Chine, N° 17, 2007, p. 261-269.

COURMONT, Barthélémy, (2007) Un siècle américain, ou chinois?, Regard de Taiwan, N°9, 2007, p. 1-5.

FOUCHET, Gérald, (2001). Vers une nouvelle guerre froide États-Unis – Chine, Geostrategiques, nº 3, Institut international d'études stratégiques, [www.strategicsinternational.com]. Acessoem: 02/05/2013.

HEISBOURG, François (etal.), (2004)Emergence d’une superpuissance  – La Chine: partenaire ou adversaire?,Fondation pour la Recherche Stratégique, 104 p.

HOLTZINGER, Jean-Marie, (2008). Escalade des tensions entre la Chine et les Etats-Unis en mer de Chine méridionale, Géostratégie,[www.geostrategie.com/962/escalade-des-tensions-entre-la-chine-et-les-etats-unis-en-mer-de-chine-meridionale]. Acessoem: 04/05/2013.

MEDEIROS, Evan, (2005-2006) Strategic Hedging and the Future of Asia-Pacific Stability, The Washington Quarterly, Vol. 29, Nº 1, 2005-2006, p. 145-167.

SUTTER, Robert, (2003-04) Why Does China Matter?, The Washington Quarterly, Vol. 27, Nº1, 2003-04, p. 75-89.

VERMANDER, Benoît, (2004) La Chine ou le temps retrouvé, Ceras revue Projet, N°278, 2004, p. 1-176.

                 ______, (2003-04) La Chine et les Etats-Unis: partenaires et concurrents, Études, Vol. 399, Nº 5, 2003-04, p. 453-462.

 

[1]Segundo B. Courmont (2007: 1-2), esta suspeição manifesta-se, por exemplo “depois do episódio do avião-espião americano na ilha de Hainan, ou ainda, pelo relatório Cox e o bombardeamento da embaixada da China a Belgrado durante a guerra do Kosovo e, de maneira quase constante, desde a chegada ao poder de George W. Bush”.

 

[2]A título ilustrativo, “Em março de 2002, o Pentágono publica o documento ‘Nuclear Posture Review’, no qual é dito que a China constitui um potencial alvo de ataque nuclear”. (Holtzinger, 2008)

 

 

 

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Sociedade Militar