A LIÇÃO DO EX-DIRETOR DO FBI DEMITIDO POR TRUMP – Ida Maia

 A LIÇÃO DO EX-DIRETOR DO FBI DEMITIDO POR TRUMP – Ida Maia

Um dos mais comentados fatos da política contemporânea norte-americana foi, indubitavelmente, a demissão do ex-diretor do FBI, James Comey, pelo Presidente Donald Trump. Embora o fato esteja aberto a inúmeras indagações, o mais importante é que do fato emergiu a posteriori a publicação do livro escrito por James Comey – A Higher Loyality- truth, lies, and leadership (Uma Lealdade Maior – verdade, mentiras e liderança). Apesar de a história do FBI estar cercada de atos capazes de questionamentos críticos, especialmente relacionados ao seu passado conturbado, representado pela figura sinistra de Edgar Hoover, o depoimento de Comey é permeado de afirmações universais que ele procurou desenvolver através do livro Higher Loyalty (1ª. Edição de 2018, Flatiron Books N.Y 289 p), que retoma temas sobre o perfil da formação moral de um líder que dirige uma nação, norteado pelas seguintes perguntas: Quais os atributos morais que devem caracterizar esse líder e o que significa uma liderança ética? Devido aos limites conferidos por esta revista, limitar-me-ei a comentar o prefácio do livro de Comey.

            Debatida por filósofos e aproveitada por arrivistas e oportunistas, a palavra verdade, na visão de Comey, foi assediada e denegrida pela desonestidade e pela corrupção de uma liderança mentirosa e profundamente perigosa para os destinos da nação. Nas linhas iniciais do texto, o autor pergunta, com letras maiúsculas: QUEM SOU EU, para dizer aos outros o que é uma liderança ética? Qualquer um que queira escrever um livro sobre ética pode parecer presunçoso e egocêntrico. Ainda mais alguém, que foi publicamente demitido de seu último emprego.  [1] Mais adiante, Comey justifica-se dizendo que não foi por vaidade, mas mudou de ideia porque estamos vivendo um momento perigoso em nosso país, em um ambiente político, onde os fatos básicos são disputados, como: a verdade fundamental, mentir é uma norma, e o comportamento antiético é ignorado, desculpado ou premiado.[2]  Inegavelmente, o argumento de Comey não se perde em retórica confusa e complexa que a maioria das pessoas não possa compreender. Assim, ele desenvolve seu argumento enumerando alguns casos até chegar à experiência que lhe custou o emprego, quando resolveu não atender ao pedido do Presidente, que lhe exigiu lealdade pessoal. Comey preferiu ser fiel aos valores que aprendeu, em seus estudos sobre liderança ética, desde os anos de universidade, e lutou durante décadas para praticar. Embora admita que “não exista um líder perfeito capaz de oferecer lições, concluiu que cabe a nós, que nos preocupamos com essas questões, introduzir o assunto e desafiar a nós mesmos e aos nossos líderes a praticar o melhor.[3].

É interessante a ideia do dever compartilhado entre o indivíduo ético e sua responsabilidade moral sobre os líderes e a nação como um todo. Esse é um argumento que Comey desenvolve baseando-se no pragmatismo norte-americano que cerca os melhores discursos de seus líderes mais ilustres. Entre as características de um líder ou de uma liderança ética, Comey assevera que “líderes éticos não fogem à crítica, especialmente à autocrítica, e não se escondem por trás de questões desconfortantes (…)”[4]. E acrescenta: “Ouvir os outros que discordam de mim e tenham o desejo de me criticar é essencial para perfurar a certeza. Dúvida, aprendi, é sabedoria”[5]. Esses valores, para Comey, estão presentes na tradição religiosa, na visão mundial da moral e na apreciação da história.

Apesar de Comey estar marcado por uma visão predominante norte-americana, sabemos que existe uma forma universal sobre o significado da moral e da ética presentes em todas as tradições religiosas, ocidentais ou não, assim como em todas as histórias de todos os povos, é claro, o que é certo ou errado, moral e imoral. Líderes éticos, continua, Comey, “escolhem uma lealdade maior localizada em valores superiores ao seu próprio ganho.”[6] “(…) Sem essa entrega fundamental, a verdade, especialmente em  nossas instituições públicas e daqueles que a lideram – estamos perdidos”[7] (…). Comey também afirma que, por meio das ações, uma cultura pode ser moldada com base na honestidade e na transparência, enquanto líderes éticos podem moldar uma cultura com suas palavras e, o mais importante, suas ações, porque são observados. Porém, ele adverte,  “infelizmente, o inverso também é verdade.  Líderes desonestos têm a mesma habilidade de moldar a cultura com o exercício da desonestidade, da corrupção e da decepção”[8].

Concluindo, ele afirma:  “Uma total rendição à verdade como a mais alta lealdade é o que separa um líder ético daqueles que ocupam  apenas papéis de liderança”.[9] E ainda, “ Passei um bom tempo pensando no título desse livro. Ele surgiu de um jantar bizarro na Casa Branca, quando o novo Presidente dos Estados Unidos, que me pediu lealdade a ele – sobre as minhas obrigações como diretor do FBI e do povo americano (…)[10]  (…), “ há uma lealdade maior em todas as nossas vidas – não a uma pessoa, não a um partido, não há um grupo. A mais alta lealdade é para com os valores mais importantes que amparam a verdade”[11].

  O livro de Comey até o dia 25 abril de 2018, vendeu  600,000 cópias. Já é considerado uma obra clássica sobre a moral e a ética.

[1]WHO AM I TO TELL others what ethical leadership is? Anyone claiming to write a book about ethical leadership can come across as presumptuous, even sanctimonious. All the more so if that author happens to be someone who was quite memorably and publicly fired from his job”

[2]  “We are experiencing a dangerous time in our county, with a political environment where basic facts are disputed, fundamental truth is questioned, lying is normalized, and unethical behavior is ignored, excused, or rewarded”.

[3] No perfect leader is available to offer those lessons, so it falls to the rest of us who care about such things to drive the conversation and challenge ourselves and our leaders to do better

[4]Ethical leaders do not run from criticism, especially self-criticism, and they don’t hide form uncomfortable questions.

[5]Listening to the others who disagree with me and are willing to criticize me is essential to piercing the seduction of certainty”. Doubt, I’ve learned, is wisdom”.

[6]Choose a higher loyalty to those core values over their own personal gain

[7]  “Without a fundamental commitment to the truth-especially in our public institutions and those who led them –we are lost”.

[8]  “ Unfortunately, the inverse is also true. Dishonest leaders have the same ability to shape a culture, by showing their people dishonest, corruption, and deception”.

[9]A commitment to integrity and a higher loyalty to truth are what separate the ethical leader from those who just happen to occupy leadership roles. We cannot ignore the difference”.(…)

[10] I spent a lot of time thinking about the title of this book. In one sense, it came out of bizarre dinner meeting at the White House, where the new president of the United States demanded my loyalty-to him, personally-over my duties as FBI director to the American people/

[11] (…) there is a higher loyalty in all of our lives-not to a person, not to a party, not to a group. The higher loyalty is to lasting values, most important the truth”.

Revista Sociedade Militar