DIZ-ME QUEM SÃO TEUS HERÓIS E EU TE DIREI QUEM ÉS – O RETRATO DE ROBERT JACKSON

DIZ-ME QUEM SÃO TEUS HERÓIS E EU TE DIREI QUEM ÉS – O RETRATO DE ROBERT JACKSON 

A palavra herói deriva-se de grandes narrativas que, com o passar dos tempos, passaram a celebrar histórias de guerra e o nome de personagens que se destacaram na história de seus países e, não raramente por ele, deram suas vidas em nome da libertação de seu povo. Normalmente o herói era um nobre de nascimento e, sobretudo, elevado por seu caráter de bravura, coragem e integridade moral.  Com a evolução das sociedades, contrários a esses ideais, surgiram outros indivíduos que ficaram marcados pela vilania, pela perversidade, pela covardia e pela moral profundamente dolosa.

Claramente, esses indivíduos passaram a ser reconhecidos como anti-heróis. Em nossa sociedade contemporânea, há uma concorrência de narrativas tanto de heróis quanto de anti-heróis, que tanto atraem pessoas que se identificam com os heróis quanto com os anti-heróis. Em ambos os casos, diferentes formas de recompensa virão a cada indivíduo de acordo com suas escolhas. Uma nação que quer se grande e poderosa não deve preferir ser governada por anti-heróis, porquanto eles a colocarão à deriva, por nada terem a oferecer ao seu povo, a não ser o caos, a perfídia e a corrupção dos valores e ações mais nobres que devem gerir a vida nacional como modelo.

Penso nisso enquanto assisto a uma reportagem sobre o procurador geral do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Rod Rosenstein.   Na entrevista, alguns aspectos que mais me chamaram à atenção foi uma frase contundente proferida pelo Procurador, que afirmou: Justice Department ‘s not going to be extorted by threats (O Departamento de Justiça não cederá a ameaças), em resposta à pressão imposta pelo Presidente da República e por membros do Congresso para que provas da investigação sejam disponibilizadas.

Ainda jovem, 53 anos, de cabelos pretos escorridos e face benevolente, distinta por óculos quase transparentes, ao ser entrevistado, o procurador[1] recebeu também do jornalista um papel com uma citação “anônima”, esclarecida em seguida, como a de um igualmente famoso procurador federal que se destacou pela retidão de caráter – Robert H. Jackson, no governo do Presidente Franklin Roosevelt.

Há 70 anos, Jackson fez importantes pronunciamentos, especialmente no Tribunal Nuremberg, que ficou conhecido pelo julgamento de criminosos nazistas famosos. A eloquência e a retidão com que ele conduziu sua vida profissional fez de Jackson também um exímio orador, sobretudo, por causa de sua sinceridade e integridade. O papel entregue pelo jornalista a Rosenstein foi a citação final do famoso discurso de Jackson, intitulado The Federal Prosecutor (o Procurador Federal), proferido no dia 1º de abril de 1940, no Great Hall do Departamento de Justiça, às 10.00 h da manhã, em Washington. Para surpresa do jornalista, Rosenstein não só identificou rapidamente o autor como também deu detalhes bibliográficos sobre o texto, com o qual demonstrou profunda familiaridade. O texto, destinado a profissionais da área de Direito, é por demais instrutivo e fala sobre a conduta moral que deverá cercar a imagem de um profissional dessa estirpe.

No dia 04 de maio, outra matéria fez referência à entrevista de Rosenstein. Na matéria, a autora, a jornalista Rachel Maddow, estabeleceu uma importante correlação entre o Procurador Rosenstein e o retrato de Robert Johnson. Rosenstein tem, em seu escritório, uma enorme foto do Procurador, que nomeou como seu herói pessoal e a quem segue como modelo.

[1] Entrevista ao Procurador Rod Rosenstein, feita pelo professor de Direito, Ronald Collins, no dia 01 /05/2018 (pela Rede de Televisão C-SPAN)

https://www.c-span.org/video/?444870-1/justice-department-extorted-articles-impeachment-rosenstein

De – Ida Maia // Em Revista Sociedade Militar

Mais texto desse autor: https://www.sociedademilitar.com.br/wp/category/ida-maia