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Expectativas e percepções turvas sobre a PENÍNSULA COREANA

EXPECTATIVAS E PERCEPÇÕES TURVAS SOBRE A PENÍNSULA COREANA

Ida Maia

  O tão esperado encontro entre o Presidente Trump e o líder Kim Jon Un sobre a desnuclearização da Coreia do Norte resultou em nada, uma vez que “não há nada na declaração conjunta diferente das declarações feitas anteriormente entre os EUA e a Coreia do Norte”, diz Thomas Countryman, ex-funcionário do Departamento de Estado para controle de armas e não proliferação[1] que, concluindo, ressaltou: “A única coisa que os EUA abandonaram até agora é a dignidade e legitimidade que concedeu ao Sr. Kim com esta reunião.” Em outro artigo ainda mais completo publicado na Revista Foreign Affairs, de maio/junho de 2018[2] sobre a análise da conjuntura, os analistas ressaltararam que (embora o artigo tenha sido escrito antes do encontro), obviamente, a questão encontra-se atrelada a perspectivas diferentes entre os dois países que incluem, pricipalmente, problemas de percepção de como cada país vê o outro e falsas concepções que atingem a formulação das políticas entre os adversários. Nos casos de Washington e Pyongyang, “os problemas são especialmente mais profundos, podendo levar a consequências e erros muito graves”. Embora as estratégias norte-americanss sejam basicamente construídas “sob ameaças e persuasão”, desconhece-se como a Coréia do Norte interpreta as iniciativas norte-americanas.

Analistas, em geral, consideram o jogo diplomático uma competição bilateral “semelhante a um jogo de xadrez, em que os competidores têm acesso ao inteiro tabuleiro e conhecem todos os possíveis movimentos do adversário. Se a estratégia norte- americana tiver alguma chance de sucesso ou, pelo menos, evitar que uma catástrofe aconteça, isso será graças a uma interpretação precisa de como o regime de Kim pensa, o que valoriza e como julga suas opções. Washington terá que entender não só os objetivos, mas também como a Coréia do Norte entende os objetivos norte-americanos e se são verossímeis. Se falhar, perigos podem facilmente provocar uma série de consequências que poderão levar ao pior conflito desde a II Guerra Mundial. A questão da desnuclearização da Coreia do Norte, de acordo com o artigo, paira como um resultado pouco provável, uma vez que o programa nuclear norte-coreano “nunca ativamente consegiu  a reunificação da península corena sob o democrático controle da Coreia do Sul”. Além disso, a capacidade nuclear da Coreia do Norte encontra-se em fase de conclusão, efetivada pelo Intercapacity Ballist Missile (ICBM)[3] .

Eles são mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs)  com o alcance superior a 5.500 km. “Os ICBMs criam um problema porque permitem que um país saia de um contexto regional e avance para um possível impacto global”. “Independentemente da origem de um conflito, um país pode envolver o mundo inteiro simplesmente ameaçando espalhar a guerra com um ICBM”.  Como se pode observar, a falácia do Presidente Trump é, no mínimo, um contrasenso, pois, como persuadir Kim Jon Un a desistir de um programa nuclear praticamente concluído? De acordo com a análise da Foreign Affairs[4], a atraente proposta norte-americaana de fazer com que a Coreia do Norte desista de seu programa nuclear pelo “seu congelamento” não mais é desejável.

Ao invés dessa questão, pergunta-se, agora: Como os Estados Unidos vão conviver com uma Coreia do Norte nuclearizada? (p.105). Caso os Estados Unidos tenham, como parece mais evidente, de conviver com uma Coreia do Norte nuclearizada, terão um prestígo político semelhante ao Paquistão. Porém, mais importante será se essa posição ajudará o desejo da Coreia do Norte a unificar a inteira península sob o controle de Pyongyang subestimando a segurança norte-americana, garantida a Coreia do Sul e ao Japão. A questão mais difícil de responder é se o regime de Kim manterá, em quaisquer circunstâncias, a continuidade do intento. Caso isso aconteça, a opção deixada aos Estados Unidos negociarem será, a abdicação norte-americana do tratado com a Coreia do Sul e retirar todas as suas tropas da península. Nesse caso, o desejo e as necessidades dos atores involvidos são especialmente relevantes. Apesar do acordo com os Estados Unidos, a Coreia do Sul será a primeira a ser atingida em caso de um confito nuclear.

Por isso prefere as soluções políticas às ações militares. Portanto Kim quer saber, nesse momento, até onde irá a proteção norte-americana a Seul. A China, por sua vez, tradicionalmente, sempre prefiriu a estabilidade irritante conferida pela Coreia do Norte próxima a sua fronteira, embora as relações entre as duas potências tenham se deteoriorado ao longo dos anos. Resta, agora, observar como a China valorizará seu cliente, a fim de evitar um conflito nuclear em suas portas. Na verdade, o mundo terá de esperar passivamente pelas soluções que poderão emergir desse jogo político esdrúxulo, cujos competidores “não têm o apoio diplomático” (uma vez que não há embaixadas norte-americanas na Coreia do Norte e vice-versa). Ambos os discursos se projetam em retóricas turvas, de pouca credibilidade e, sobretudo, sob ameaças inflamatórias e beligerantes de ambos os lados. Sem a interveenção diplomática e com esse quadro de instabilidade política, cada investida entre esses dois países soa como uma declaração de guerra.

A “inaceitabilidade” norte-americana da política nuclear norte-coreana não surtiu efeito, por exemplo, para impedir que a Coreia do Norte vendesse à Síria, em 2007, um reator nuclear. A ameaça trumpista de “ferro e fúria” (fire and fury) sobre a Coreia do Norte não deu em nada, enquanto o país prossegue fazendo seus testes nucleares. Quando indagado pelo the Wall Street Journal, sobre os tweets combativos, o Presidente norte-americano respondeu: “You see that a lot with me and then all of a sudden somebody’s my best friend”[5]. Seguramente, pode-se afirmar que a percepção de Pyongyang’s sobre a credibilidade norte-americana determinará o sucesso ou o fracasso da estratégia norte-americana. Não importam as decisões tomadas pela administração de Trump, seja através da diplomacia ou da pressão sobre o uso da força, os lideres norte-coreanos interpretarão as mesmas ações de formas diferentes e não entenderão completamente a perspectiva norte-americana. Portanto, percepções turvas poderão afetar todas as opções políticas, com diferentes riscos em cada caso (p.109).

Texto recebido de colaborador / Ida Maia.          

 [1]“There is nothing in the joint statement that we don’t have in previous statements between the U.S. and North Korea,” says Thomas Countryman, a former top State Department official for arms control and nonproliferation. “The only thing the U.S. has given up so far is the dignity and legitimacy it has granted to Mr. Kim with this meeting. So far, nothing has been accomplished”. “The only thing the U.S. has given up so far is the dignity and legitimacy it has granted to Mr. Kim with this meeting.” Citado do artigo, “The Trump-Kim Summit has already affected some countries” de Paul Skinkman (Senior National Security Writer para USNews.com), no dia 12 de junho de 2018. Veja-se https://www.usnews.com/news/best-countries/articles/2018-06-12/the-trump-kim-summit-has-already-affected-some-countries.

[2] Veja-se o artigo, ‘Perceptions and misperceptions on the Korean Peninsula.’

[3]Missil guiado para o transporte de arma nuclear.  Completa explicação sobre o míssil foi emitida pela Federação Norte-americana de cientistas (Federation of American Scientists) (https://fas.org/nuke/intro/missile/icbm.htm). “Intercontinental Ballistic Missiles (ICBMs) have ranges of greater than 5,500 km. ICBMs create a problem because they enable a country to break out of a regional context and move toward potential global impact. Regardless of the origin of a conflict, a country may involve the entire world simply by threatening to spread the war with an ICBM.”.

[4][4] Vejam-se Robert Jervis and Mira Rapp Hooper no artigo ‘Perception and misperception on the Korea Peninsula’, Foreign Affairs, may/june 2018.

[5] “você vê isso muito comigo e, em seguida, de repente alguém é meu melhor amigo”. Veja-se Reuters-Trump says probably has a god relationship with North Korea’s Kim WSJ. 11 /01/2018.

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