Militares e as batalhas que ninguém vê. Sinalização Náutica

Militares e as grandes batalhas que ninguém vê. Sinalização Náutica

No Brasil há atividades desempenhadas pelos militares da Marinha, Exército e Aeronáutica que – ainda que sejam de extrema importância para o país – são completamente desconhecidas da maior parte dos brasileiros. Esse artigo da Revista Sociedade Militar, da série “Militares e as Batalhas que ninguém vê”, trata das atividades de sinalização náutica, realizadas em toda a costa brasileira por militares da Marinha do Brasil. A Sinalização Náutica é atividade de grande complexidade e indispensável para que mercadorias entrem e saiam de nosso país. (Republicação / 13 de dezembro)

O estuário do Rio Amazonas certamente é um dos locais de navegação mais complicados do Brasil. O Amazonas lança no mar uma quantidade de água estimada em até 300 mil metros cúbicos por segundo, volume cerca de 150 vezes maior do que gera o rio Nilo, seu concorrente mais próximo. A quantidade descomunal de água que chega ao mar dificulta muito a condução das embarcações e as variações bruscas de profundidade oferecem riscos invisíveis para os enormes cargueiros.

As grandes empresas de transporte pressionam para que seja permitido que navios de maior calado atravessem o canal da Barra Norte. Mas, quem navega pelo local com um grande navio sabe que a coisa é muito mais complexa do que parece. O estuário do AMAZONAS via de regra gera momentos tensos para quem conduz uma grande embarcação. Um erro mínimo pode causar um acidente de proporções catastróficas. 

Sendo o exato lugar onde a força colossal do mais volumoso rio do planeta se choca com o poderoso oceano Atlântico, as águas agitadas e ondas irregulares vez por outra viram embarcações de pequeno porte. Não é incomum que lanchas da Marinha do Brasil encontrem náufragos agarrados a pedaços de madeira ou ao que restou de pequenos barcos que viraram.

Fainas (missões / tarefas) executadas*

Nesse ambiente inóspito, em pleno sábado, 24 de dezembro, enquanto a maior parte das famílias estão reunidas em suas casas, se preparando para a ceia de natal, um pequeno grupo de 5 militares espera um momento de relativa tranquilidade e desembarca da grande e segura lancha da Marinha do Brasil usando um bote de alumínio. As ondas invariavelmente molham tudo e todos, o militar que maneja o motor de popa tem que ser hábil para que o bote, muito carregado, não seja apanhado de lado por uma onda. Chegando na praia – sem distinção de posto ou graduação – os militares se revezam para carregar as pesadas baterias até o farol Taiá. Os pés afundam na lama pegajosa que vez por outra chega até os joelhos, fazendo com que os 200 metros de caminhada até o farol sejam sentidos como se fossem mais de um quilômetro.

A tarefa é árdua, mas a missão tem que ser cumprida. Alguns navegantes informaram por rádio sobre dois importantes sinais náuticos inoperantes, um deles é o farol Taiá, para onde a equipe se dirige no momento. O sinal é composto por uma estrutura de ferro com cerca de 10 metros de altura com uma pequena, mas poderosa, lanterna em seu topo. As baterias são indispensáveis para que a lâmpada permaneça acesa e “piscando” no intervalo de tempo exato, o que faz com que o sinal possa ser reconhecido pelas embarcações gigantescas que dependem da sinalização náutica para entrar no Rio Amazonas pelo canal principal, distante cerca de 20 quilômetros.

Ao chegar no sinal os militares se deparam com um grande problema, que poderia causar o fracasso da missão, um ninho enorme de cabas construído na escada de acesso. Caba, caba-açú ou marimbondo-cavalo são nomes regionais dos perigosos marimbondos-caçadores, conhecidos pelo altíssimo índice de dor de suas picadas.

Para os militares há duas opções, subir bem devagar no sinal e tentar trocar as baterias ou atear fogo no ninho. Dois militares entre os mais experientes tomam a frente e sobem. É preciso autocontrole para não se desesperar caso os insetos comecem a picar. Picadas de caba causam mortes por toda a Amazônia, a dor está entre os níveis mais altos. Mas, no momento o perigo maior está na reação caso os insetos decidam atacar um dos militares que trabalham no alto da torre. O pânico a 10 metros de altura pode significar a morte, principalmente quando se está a mais de 100 quilômetros do hospital mais próximo. 

Tudo correu bem, o sargento conseguiu chegar até o topo sem ser picado enquanto um militar trocou a bateria numa plataforma um pouco mais abaixo. Constatou-se um defeito na lanterna e a mesma foi substituída. A faina toda durou cerca de 25 minutos. A equipe recolheu o material e voltou para a lancha maior. Só um militar foi picado, na orelha, e as conversas no retorno eram em tom de chacota sobre a picada ter sido justamente no cabo que ficou mais afastado – com medo dos marimbondos – e sobre a velocidade que a embarcação conseguiria alcançar se pegassem a mare enchendo, empurrando a lancha em direção à Macapá. Esperavam chegar em casa ainda no dia 25 a tempo de almoçar com a família. Porém, no caminho de volta ainda restabeleceriam a boia Carolina, o outro sinal náutico a reparar na missão.

Perto da Ponta Negra

Ao mesmo tempo, ainda na bacia amazônica, a cerca de 300 quilômetros dali, outro grupo de militares desembarca do bote em um velho navio naufragado com apenas parte do casco a vista. A chaminé foi pintada de verde e branco, se transformando em um farolete que hoje leva o nome da embarcação – Yacumama. Os militares, sargentos e cabos, técnicos de sinalização náutica, se equilibram com extremo cuidado sobre o que resta da embarcação, que hoje é uma estrutura frágil, corroída por décadas de contato com a água do rio Pará, braço Sul do Amazonas.

Pra piorar a coisa, a tarefa no Yacumama tem que ser realizada rapidamente, aproveitando-se o pico da vazante, momento em que é possível caminhar sobre o que resta da estrutura original.

O sacrifício vale o risco. O sinal náutico com cerca de 10 metros de altura é muito importante, tanto para sinalizar o perigo isolado causado pela embarcação semi submersa, que tem mais de 30 metros de comprimento, quanto para auxiliar na navegação dos cargueiros que passam pelo canal mais distante. A área é conhecida pela grande quantidade de piratas e por isso algumas ações táticas e técnicas são necessárias. Obviamente – por questões de segurança – não serão mencionadas nesse texto.

O farol estava apagado e verificou-se que o painel solar que alimenta o equipamento estava completamente coberto por dejetos de pássaros. Um alívio, dessa vez foi simples. Bastou um limpeza para que tudo voltasse a funcionar. Retornaram para a lancha e em poucas horas estariam em casa, na cidade de Belém do Pará.

Os dois relatos acima, reais, são transcrições adaptadas de missões ocorridas há algum tempo. E são apenas exemplos de inúmeros momentos vividos por militares que trabalham na atividade de Sinalização Náutica no Brasil. Quando questionados sobre o assunto dizem, como é de se esperar: “Fazemos apenas a nossa obrigação.”

Eficácia da SINALIZAÇÃO NÁUTICA

Além das tarefas já conhecidas de patrulhamento, polícia naval, operações junto da polícia federal, operações de resgate etc., a Marinha têm entre suas incumbências a manutenção da sinalização náutica dentro de índices de eficácia estabelecidos internacionalmente. Graças à dedicação dos militares das áreas de hidrografia, navegação e sinalização náutica, que diuturnamente monitoram e estudam os mínimos detalhes a costa das regiões onde desempenham suas funções, são raríssimos os casos de acidentes marítimos de grande porte em nosso país. Ninguém deseja que um cargueiro repleto de combustível encalhe e se quebre ao meio na foz do Rio Amazonas, causando destruição no frágil ecossistema amazônico.

Além de proporcionar mais segurança para a navegação, há vários outros benefícios trazidos por uma sinalização náutica eficaz. Entre eles estão o barateamento dos custos de transporte das mercadorias que entram e saem de nosso país e o incentivo à implementação de cruzeiros marítimos / turísticos com destino a nossa costa.

É tarefa árdua manter sob controle os sinais náuticos em uma costa gigantesca como a nossa. Há sinais em lugares extremamente longínquos e inóspitos. Como exemplo cita-se o Farol Orange, na foz do Oiapoque. Para se chegar lá por mar, além de centenas de milhas náuticas, é preciso vencer uma barreira de areia e lama quase intransponível, com lama que ultrapassa a linha da cintura, inviabilizando o transporte de qualquer equipamento. 

Militares da Marinha e Exército Brasileiro operando na foz do Oiapoque. Ao fundo o farol ORANGE – 2002 / Imagem Robson

A Marinha do Brasil atualmente mantém mais de 1000 sinais náuticos sob sua responsabilidade direta e outros milhares sob sua supervisão e os índices de eficácia estão sempre dentro dos padrões estabelecidos. A sinalização náutica pode ser considerada além de ofício extremamente necessário, um verdadeira arte. A atividade mantém tradições e história que atravessam gerações. No Brasil muitos sinais náuticos são considerados monumentos históricos e ponto de atração para turistas de todo o planeta.

Todo navegador sabe que em certos locais e em certas condições meteorológicas a certeza da segurança só é alcançada quando se avista a luz do farol a piscar no horizonte.

Os faróis nunca podem se apagar**

Revista Sociedade Militar

*Na marinha a palavra FAINA significa trabalho árduo que envolve várias pessoas. / **Frase de Gustaf Dálen – Nobel de física. / Imagem de lançamento de equipamento de fundeio encontrada em: https://www.marinha.mil.br/nomar-online/16062015/3.html?page=43