Forças Armadas & Narcotrafico — Há solução para a crise na Venezuela?

Forças Armadas & Narcotrafico — Há solução para a crise na Venezuela?

 

¨Dizem que o Governo, depois de proibir ao cidadão comum usar armas, vai proibir ao Exército possuir armas de uso exclusivo dos traficantes¨ (Millôr Fernandes)

Há quem diga que no Brasil houve ditadura militar, há quem diga que ela está ativa hoje eleita pelo voto voluntário dos brasileiros. Há quem diga que houve excessos, que houve abusos, mas não há quem diga que houve aliança com bandidos, narcotraficantes e terroristas.

Clausewitz, no século XIX, propunha que um governo se sustenta por meio de uma tríade: Governo, Povo e Forças Armadas. As Forças Armadas de qualquer país servem para defender o solo pátrio e a população de ataques de nações estrangeiras e modernamente dos avanços do terrorismo internacional e do crime transnacional.

Já o crime organizado floresce onde o Governo está desorganizado. Sustentam o crime: dinheiro vindo de estatais, do crime, do narcotráfico e o poder armado emprestado para a imposição do terror contra a população.

O poder executivo da Venezuela da era de Maduro domina os demais Poderes. Apesar de no Parlamento, a maioria ser de oposição, as decisões são amplamente contestadas e eliminadas pelas decisões da cúpula do judiciário que é dominada por pessoas da confiança pessoal do Ditador Maduro. Ainda, existe uma Assembleia Constituinte, integrada por governistas, que vigora com poderes ¨absolutos¨ desde 2017, que anulam por completo o pouco poder que restara ao Parlamento.

Vamos falar um pouco sobre Governo. A espinha dorsal de qualquer ditadura é a obediência das Forças Armadas ao seu Ditador. Armas, homens, distribuição em todo o território nacional, controle de barreiras, comunicações, portos, aeroportos, alfândega e fronteiras. Podem mobilizar-se para atender a catástrofes, distribuir alimentos e cercar, indefinidamente, áreas extensas. Definitivamente há tarefas que são civis, mas só militares podem executá-las em tempos de crise.

Ainda sobre o governo venezuelano, desde o início do século XXI, a mídia internacional apresenta indícios de envolvimento de altos funcionários e militares dos governos de Chávez e Maduro com o narcotráfico:

– Néstor Reverol, antigo comandante da Guarda Nacional e Secretário Antidrogas, foi denunciado à corte norte americana em 2016, por receber propina de narcotraficantes. (fonte: El País)

– Mais de 100 militares foram afastados por envolvimento com o narcotráfico, desde 2017, o que é insuficiente segundo Mike Pompeo, Secretário de Estado dos EUA. (fonte: Agência EFE)

– Há indícios de envolvimento do Cartel de Los Soles com funcionários dos regimes venezuelano e cubano, sendo um dos principais acusados o ex vice presidente Tareck El Aissami que teve USD$ 500 milhões bloqueados de suas contas, em 2018. (fonte: infobae)

– Hugo Carvajal, ex chefe de inteligência, denunciado por ligações com o narcotráfico à corte norte americana, acusa Maduro de ligações com o Hezbollah e o terrorismo internacional, 2019. (fonte: Estadão)

A inteligência é a fonte de todas as informações para as Forças Armadas de qualquer país. Segundo o ex chefe da inteligência venezuelana, que foi preso em Aruba em 2014 por narcotráfico e escapou da extradição para os EUA, afirma que ¨os chavistas incumbidos de combater o narcotráfico são aqueles mesmos responsáveis pelo tráfico drogas¨.

Para completar o quadro, estima-se que mais de 60 das 576 empresas civis e estatais venezuelanas sejam comandadas por oficiais generais das Forças Armadas, entre elas empresas de mineração de ouro, de controle de atividades portuárias, a PDVSA, a Petrobras venezuelana, responsável por mais de 95% da entrada de USD$ americanos no país e o programa ¨Suprimento Soberano da Grande Missão¨, responsável pela produção e pela distribuição de alimentos em todo a toda a população da Venezuela, cuja administração conta com mais de 500 oficiais.

As pessoas mais beneficiados pelos sistema, com vantagens e remunerações extras são os comandantes da Marinha, da Aviação, da Guarda nacional, do Comando Estratégico Operacional, o Ministro da Defesa e cerca de outros 2000 generais promovidos por Maduro nos últimos 6 anos.

Unindo os pontos, enxergamos a dimensão das ligações entre o narcotráfico, o dinheiro estatal, o controle de alimentos e as Forças Armadas que mantém Maduro. Portanto, a sustentabilidade do governo de Maduro se dá pela estrita observância à teoria de Clausewitz. O Governo é dominado pelo poder Executivo que sufoca o Legislativo por meio do controle estrito da Assembleia Constituinte e da manipulação do Judiciário.

Maduro mantém o controle da população regulando sua comida, mantém o governo por meio do abastecimento infinito de USD$ americanos vindos do narcotráfico, da mineração de ouro e exploração do petróleo, e por fim, mantém o controle das Forças Armadas ao posicionar seus altos oficiais na administração das atividades econômicas que sustentam o governo e no controle armado da população e dos trabalhos dos poderes legislativo e judiciário.

As relações entre as Forças Armadas venezuelanas e o narcotráfico transcendem a lógica, eles estão intrinsecamente ligadas pela estrutura criada pela ditadura Chavista, desde o Século XX. A solução da crise da Venezuela passa pelo cisalhamento da tríade de Clausewitz e esse corte destruirá a cabeça das Forças Armadas para que ela renasça com o seu espírito mais nobre, o de defender o solo, a pátria e a população de uma nação.

Revista Sociedade Militar

Texto de Clynson Oliveira – PhD, Army Col, mastered Politics and Strategy Army Command and Staff College.