Medo da extinção! Esquerda busca abraçar os militares. Mas quais, base ou topo ?

Medo da extinção! Esquerda busca abraçar os militares. Base ou topo da pirâmide? É o grande dilema.

Assustados com o discurso da ala chamada “olavista”, que conta com nomes de peso como o de Carlos Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Ernesto Araújo, que tem como proposta principal a erradicação de quaisquer vestígios da esquerda nas instituições públicas brasileiras, os autoproclamados progressistas tentam se tornar simpáticos aos olhos dos militares, pacificadores por natureza, e gradativamente buscam – usando a grande mídia e atores políticos – trazer os militares mais influentes no governo para perto de si.

Em artigo publicado nesse domingo a Folha disse: “O núcleo militar conta com respaldo de boa parte da classe política, assustada com o bate-cabeça e a falta de ação concreta dos ideológicos. Além disso, os sucessivos ataques de bolsonaristas aos políticos do centrão no Congresso faz com que eles pendam para o lado dos militares.

Durante a semana que passou chamam a atenção alguns textos

Site 247: “Só Lula pode libertar os militares da prisão chamada Bolsonaro – Os militares brasileiros nunca foram tão humilhados, em toda a sua história, como no governo de Jair Bolsonaro, que, aparentemente, tem como único projeto o fortalecimento das milícias …” e

Site 247: “Celso Amorim: Militares Controlam Os Excessos De Bolsonaro –  Ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores, Celso Amorim defende a permanência dos militares no governo Bolsonaro a fim de que controlem os “excessos” do presidente …”

Uma reportagem elogiando método de ensino de língua estrangeira em Colégio Militar foi veiculada na manhã dessa segunda-feira na rede Globo de Televisão! No programa da Fátima Bernardes! Todos sabem que a Globo não faz nada de graça, muito menos falar bem de colégios militares. 

Isso tudo pode ser interpretado como uma franca tentativa combinada de aproximação com a ala militar do governo Bolsonaro, bem menos intensa na guerra cultural do que a ala ideológica. O que os militares mais querem é apaziguar os ânimos e como diz o general Villas Bôas: “… SUBSTITUINDO UMA IDEOLOGIA PELA OUTRA NÃO CONTRIBUI PARA A ELABORAÇÃO DE UMA BASE DE PENSAMENTO…” (VILLAS BÔAS). 

Lideranças de esquerda se aproveitam – obviamente – do evidente antagonismo entre Olavo de Carvalho e a cúpula das Forças Armadas.

Mas não é só a grande mídia que tem se movido contra os posicionamentos de Olavo de Carvalho, à tropa do “deixa disso”  também se agregam nomes famosos, como o cantor Lobão.

Dilema – base x topo

Quem viveu ou estudou os anos que antecederam a contrarrevolução de 1964 sabe que o “namoro” entre a esquerda e os militares de baixa patente foi exatamente o que se considera como o estopim dos acontecimentos. 

Muita gente divaga em teorias conspiratórias falando sobre Anselmo ser da CIA ou que a marujada já era da esquerda quando iniciou seus pleitos por direitos. Estão errados, os militares da Marinha buscavam direitos simples como se casar, andar a paisana e estudar, mas o alto comando da força naval se negou a sequer discutir o assunto, punindo-os, sancionando-os duramente. 

Se hoje é difícil que um oficial general se debruce sobre um pleito de graduados imagine então como seria isso anos anos 60. Em pouco tempo os jovens injustiçados dentro da própria força foram cooptados pelo discurso sedutor da esquerda. Apoiados pelo Almirante Cândido Aragão – militar que ingressou como soldado e chegou a almirante – e que apoiava Jango, os militares intensificaram suas manifestações, daí o caldo entornou de vez e deu no que deu. Muitos jovens promissores, mal orientados, decepcionados com a força e com as injustiças contra graduados, acabaram iludidos pela utopia esquerdóide de um “mundo melhor”. 

Indiretamente o professor Olavo de Carvalho – com o qual nunca tive contato, ressalto – toca nesse ponto quando há cerca de uma semana compartilhou em suas redes sociais um artigo da Revista Sociedade Militar. Este versa sobre uma crise interna e silenciosa que ocorre dentro dos quartéis e entre graduados na reserva. Nesse momento os militares de baixa patente buscam a todo custo um contato com o presidente da república. Eles fazem o que podem, abaixo assinados, cartas e até tirinhas/charges, tudo com o intuito de denunciar o que consideram como traições e auto-favorecimentos embutidos no projeto de lei chamado de reestruturação das carreiras.

Bolsonaro, a afinidade com os graduados, Marinha e FAB

Quem conhece a vida do atual presidente da república sabe que durante muito tempo foi visto como uma espécie de ovelha negra da AMAN, só não foi expulso das forças armadas porque tinha o apoio da média oficialidade e justamente dos graduados das Forças Armadas. Artigos da época, pouco mencionados atualmente, contam que o alto comando se tremia de medo de uma insurreição no Exército caso Bolsonaro fosse expulso.

A afinidade de Bolsonaro com as camadas base das forças armadas definitivamente não acabou. Duas ações ocorridas na semana passada evidenciam isso. A primeira diz respeito ao fim da hegemonia da oficialidade no que diz respeito ao acesso e porte de armas de fogo. 

A pressão dos graduados para edição da norma foi imensa, havia ainda muitas restrições, quem sabe advindas do medo histórico que os “estrelados” têm dos graduados quanto ao acesso a armas de fogo. 

A coisa é percebida muito menos no Exército do que na Força Aérea e Marinha. E tudo indica que não é mera coincidência, a história nos conta que nessas duas forças os graduados sempre foram mais politizados. Na Marinha do Brasil alguns sargentos tiveram que ingressar na justiça para ser reconhecido seu direito ao porte de armas.

A segunda ação de Bolsonaro em favor dos graduados veio na forma de uma portaria da defesa determinando que generais não podem mais usar militares na profissão de sargento-taifeiro como seus empregados domésticos particulares. Essa polêmica se arrasta há décadas e o fato de que a ordem tenha ocorrido somente na gestão Bolsonaro é bastante significativo.

Na opinião de alguns graduados da “velha guarda” coletadas em discussões nas redes sociais, o fato de mais de 75% dos sargentos do exército ter a oportunidade de ser promovidos ao oficialato contra menos de 5% com a mesma oportunidade nas outras forças também indicaria que o alto comando das forças armadas até hoje tem ressalvas contra militares da Marinha e Aeronáutica.

Reuniões com políticos 

Militares continuam circulando pelo congresso nacional com o intuito de chamar a atenção pra os erros no Pl 1645, chama também a atenção o fato de que representantes de algumas associações de sargentos, chegaram a se reunir com políticos de esquerda, como Gleisi Hoffmann, Érica Kokay e Paulo Pimenta. Tudo indica que esses militares e até mesmo os políticos não tenham sequer noção das implicações histórico-políticas desse fato.

Obviamente nesse momento a intelligentsia esquerdista avalia como devem atuar no trato com os militares. As camadas base são mais numerosas, no passado eram mais próximas da esquerda. Por outro lado, as camadas topo apesar de congregar um menor número de militares, são mais influentes e poderosas.

É quase impossível que ninguém tenham percebido a insatisfação dos graduados e que nesse momento uma declaração como “PT se posiciona contra reestruturação que favorece generais e penaliza sargentos”, cairia como uma bomba no colo do governo.

De bem diferente em relação ao anos 60 é o fato de que hoje os militares das camadas médias das forças armadas têm perfil completamente diverso do que tinham no passado, o que os torna bem mais resistentes ao “assédio”. Antes sequer o ensino fundamental e médio os alcançava, hoje mais da metade têm cursos superiores, mestrado e doutorado, e  – o que talvez seja a maior dificuldade para que sejam cooptados – têm majoritariamente um perfil conservador / de direita.

Alguns – mais observadores – ousam dizer que os graduados e oficiais de níveis médios são bem mais conservadores e à direita que grande parte da alta oficialidade, que – por ter cargos políticos – tem um perfil camaleônico, que se adapta aos gostos e caminhos indicados por cada novo governante que se assenta na cadeira maior do executivo federal.

Obviamente há exceções, como o próprio general Heleno, que enquanto na ativa, não amoleceu ante as ameaças e pressões da esquerda enquanto Lula era o presidente. O general Girão Monteiro é outro digno de ser mencionado e que certamente, caso houvesse se dobrado ao posicionamento dos progressistas, alcançaria o último posto da carreira. 

Obviamente, como é comum no Brasil, esse texto será por muitos entendido como posicionamento a favor de u ou outro grupo algum grupo. No Brasil e cada vez mais difícil que uma análise seja encarada como simples análise.

Robson Augustto.

O autor é Sociólogo, jornalista e Militar da Reserva

Revista Sociedade Militar