Forças Armadas

“A MARINHA condenou meu filho a morte. Igual a um tribunal do tráfico”, diz mãe do Cabo LUCAS, morto na Base Naval do Rio de Janeiro enquanto estava sob custodia.

“A MARINHA condenou meu filho a morte.. igual a um tribunal do tráfico… em pleno século XXI acontecer isso dentro da Marinha… não é coisa isolada, eles abafam… Eu entreguei meu filho eles me devolveram duas caixas de roupa… ”, diz a mãe do Cabo LUCAS, morto na Base Naval do Rio de Janeiro enquanto estava sob custodia.

O militar Lucas Gonçalves da Silva faleceu em 22 de agosto de 2019, enquanto estava sob custódia da Marinha do Brasil, cumprindo prisão disciplinar. Lucas, com apenas 24 anos de idade, tinha um quadro depressivo comprovado, com tentativa anterior de suicídio. Ele tomava um coquetel enorme de remédios, alguns com tarja preta. Na bula de um dos medicamentos consta a TENTATIVA DE SUICÍDIO como possível efeito colateral. 

Pressa em punir

Observando a bula de um dos remédios consumidos pelo militar pode-se ver facilmente que entre os efeitos colaterais possíveis, além de TENTATIVA DE SUICÍDIO, estão estados físicos e mentais completamente incompatíveis com a manutenção de um paciente dentro do ambiente militar, onde se encontram armas, viaturas pesadas em movimento, cercas eletrificadas etc.

Entre os efeitos colaterais do CLONAZEPAM cita-se: “… despersonalização, amnésia, alucinações, histeria, alterações do apetite sexual, insônia, psicose, disforia, instabilidade emocional, desinibição orgânica, lamentações, diminuição da concentração, inquietação, estado confusional e desorientação, excitabilidade, irritabilidade, agressividade, agitação, nervosismo, ansiedade e distúrbios do sono, sonolência, dor de cabeça, cansaço, depressão, vertigem, irritabilidade, insônia, dificuldade para coordenar movimento ou caminhar, perda de equilíbrio, náuseas, e dificuldades de concentração.

Pelo que a mãe do cabo Lucas declarou, depreende-se que o comando da Base Naval do Rio de Janeiro acredita que é coerente impor a um militar com problemas psiquiátricos e usando remédios controlados com fortes efeitos colaterais o mesmo regime de trabalho que se impõe aos outros em situação normal. Segundo a mãe, chegavam a sobrecarregar o jovem, deixando-o trabalhar sem auxiliares em tarefas onde estes eram necessários.

… eles viam como o que não queria fazer nada… eles tratavam ele como se ele estivesse fingindo uma situação…”, disse.

Em um dos documentos exibidos pela mãe (documento 1, abaixo)– datado de cerca de um mês antes do falecimento – a própria MARINHA do BRASIL questionava se um militar com aquele quadro da saúde poderia ser punido disciplinarmente.

Chama também muita a atenção o fato de ver-se claramente na BULA do remédio CLONAZEPAM, exibido pela mãe como um dos consumidos pelo Cabo, o efeito colateral TENTATIVA DE SUICÍDIO. Não poderia também deixar-se de mencionar que a BASE NAVAL do Rio de Janeiro é comandada por um Capitão de Mar e Guerra e que abriga em seu interior o Comando em Chefe da Esquadra, chefiado pelo Vice-almirante José Augusto Vieira da Cunha de Menezes.

Ao invés de demonstrar interesse pela melhora na saúde do militar os documentos evidenciam certa ansiedade dos superiores em impor punições disciplinares ao CABO LUCAS. 

Documento 1, demonstrando tentativa anterior de suicídio

A mãe disse que:  “…  prenderam o meu filho… o comandante virou pro meu esposo e disse que ele estava na prisão simples… mas quando pegamos o celular dizia que ele estava em prisão rigorosa… nunca fomos notificados que meu filho estava preso… mataram o meu filho… Eles passam para a família.. ‘a gente aqui se torna pais deles’ então eu me sentia segura…

Documento 2, demonstrando que não era prisão simples e sim rigorosa.

A opinião da maior parte dos militares ouvidos pela Revista Sociedade Militar indica grande indignação. A maioria acredita que um militar com quadro medico tão grave jamais poderia ser punido disciplinarmente e que na verdade uma punição poderia agravar seu estado.

Familiares e amigos aguardam a explicação da Marinha do Brasil, que após mais de 15 dias ainda não apresentou sua versão à família. O próprio atestado de óbito ainda não aponta a causa da morte.

Leia:  A chibata moral e as inglórias lutas dos graduados nos últimos anos

Revista Sociedade Militar

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