Forças Armadas

Entrevista. O que pensa a tropa sobre BOLSONARO e as “crises de relacionamento” com o PARLAMENTO.

A Revista Sociedade Militar, publicação que trata de assuntos militares e segurança pública e fornece conteúdo exclusivo para cerca de 1 milhão de leitores mensalmente, ouviu alguns militares de diversos postos e graduações sobre a crise atravessada pelo governo atual. Em artigo anterior foi publicada a opinião de um oficial general. Nesse artigo publicamos a visão de  Marcio Rodrigues, Suboficial da FAB, militar da reserva, historiador e professor, com bastante status diante de toda a tropa. Graduados das FA representam mais que 80% de todo o efetivo, sem o seu apoio o presidente Jair Bolsonaro sem dúvidas não seria hoje o que é. Conhecer o pensamento da tropa acerca do quotidiano do país é extremamente relevante para a tomada de decisões por parte do governo e cúpula das Forças Armadas.

Questão colocada 

Há entre governo e parlamento uma crise de relacionamento. Apesar de ter sido um deputado federal por décadas o presidente Bolsonaro tem evidente problema com o que se chama de presidencialismo de coalizão. A quem diga que mais do que dificuldades legislativas, relacionadas à liberação de recursos ou a acordos entre sua base e a oposição, o problema principal estaria em não ter controle sobre as próprias línguas e que a qualquer momento uma declaração “torta” pode ser o estopim para um processo de impeachment.

Revista Sociedade Militar – O erro está no modus operandi do governo, de fato o parlamento é que está mal acostumado ou um pouco de cada coisa?

Marcio Rodrigues – Creio que há um pouco de cada um. Considerando que o PR, como sempre foi membro do baixo clero, nunca esteve afeto a negociações. Veja que não falo negociatas, mas sim negociações. Temos regime de governo presidencialista em, como ja dito, com uma constituição parlamentarista e isso atrapalha um pouco o executivo visto que praticamente tudo o que quer tem que ser autorizado pelo congresso. Isso gera o problema de sempre ser necessário se render aos desejos dos parlamentares. Em contrapartida, como o executivo tem a caneta do orçamento, os parlamentares tendem a votar em prol do governo para terem suas emendas atendidas. No meio disso está a discussão sobre a LOA.

Quanto a língua, muitas crises do governo, se não a maioria, seriam evitadas se o PR e principalmente seus filhos analisassem suas falas antes de realizá-las. Um exemplo: está havendo a CPI das Fake News, houve uma fala de um depoente que supostamente desmentiu a acusação feita por um dos principais jornais do país, mostrando que o presidente seria inocente. Ao invés de ser explorado esse ponto, toda a impressa focou em uma fala jocosa do PR. Ou seja, ele perdeu a oportunidade de desmentir uma fake News e sair mais forte por uma frase mal dita.

Revista Sociedade Militar – Bolsonaro tem escalado vários militares para cargos chave do governo, inclusive alguns encarregados de articulação política. O senhor acredita que isso melhora ou piora a governabilidade já que em tese militares seriam pouco habituados a circular no ambiente político?

Marcio Rodrigues – Acho que piora. Mesmo entendendo que os cargos de oficiais generais sejam políticos, é uma política interna as FFAA. Os militares não são formados para negociar, mas para fazer acontecer. Isso gera atritos entre o executivo e o legislativo, pois este não tem obrigação de atender e nem “obedecer” um oficial do Planalto. Já houve atritos e outros haverão. A maioria da população não tem conhecimento disso, mas tem ocorrido. Mesmo entendendo assim também tenho que aceitar e concordar que essa escolha é exclusiva do presidente e ele deve ter seus motivos pessoais e institucionais para este ato. O que tenho que discordar de alguns é a ilusão de que militares são infalíveis e incorruptíveis, e que civis estão mais sujeitos ao erro e a corrupção. Isso é uma falácia e de certa forma um perigo administrativo.

Em contrapartida temos militares que por suas qualificações profissionais estão surpreendendo. Um exemplo é o Min. Tarcísio, do Ministério da Infraestrutura, que está realizando um trabalho primoroso.*

Revista Sociedade Militar – Ainda quanto aos cargos cedidos para militares. Temos visto oficiais generais antigos expressando preocupação com o grande número de oficiais ao lado do presidente. De fato, muitos ex-membros do ALTO COMANDO do Exército hoje estão no governo, incluindo o ex-comandante militar do Sul, o ex-comandante militar do Sudeste e próprio ex-comandante do Exército. O senhor crê que em caso de fracasso desse governo e substituição em 2022 por outro sem ligação com Bolsonaro as forças armadas podem ser um dos principais perdedores?

Marcio Rodrigues – Na hipótese de um fracasso de governo é possível respingar nas FA. Temos que entender que as forças armadas são um componente de Estado e não de Governo. Creio que um militar que vá para um alto cargo no governo deveria imediatamente ir para a reserva remunerada, mas não é o que está ocorrendo. Isso gera uma mesclagem entre uma instituição supragovernamental com um governo de turno.

Revista Sociedade Militar – Gostaria de deixar algum comentário sobre essa última questão entre o governo Bolsonaro e o parlamento, que inclusive levou seus apoiadores a convocar manifestações para o próximo dia 15?

Marcio Rodrigues – Dentro de uma democracia todos tem direito a manifestação, sobre qualquer assunto. Nesta queda de braço vejo que o Congresso também tem grande responsabilidade. Infelizmente muito se coloca de peso nas costas do PR. Mas, o presidente do congresso, como presidente de um dos poderes da República, tem também que ser responsabilizado por ações que tem tomado, inclusive Medida Provisória que beneficiaria a população deixou de ser pautada por discordância política. Não vemos esta responsabilização.

A imprensa também tem que ser cobrada, pois há muita das notícias mentirosas sendo veiculadas, denigrem o governo e depois que há o desmentido não há sequer um pedido de escusas.

Em uma democracia todos têm direitos, mas temos visto que apenas o executivo tem deveres.

Revista Sociedade Militar

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