Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

Confronto entre Argentina e Inglaterra na Copa revive o “fantasma das Malvinas” diante de cicatrizes da guerra; veja posição atual dos dois governos sobre a disputa histórica

Arquipélogo no Atlântico Sul é alvo de disputas históricas entre Argentina e Inglaterra e foi palco de combate sangrento entre os dois países em 1982; desde então, rivalidade foi a campo e encarnou tensões geopolíticas nas Copas do Mundo

Confronto entre Argentina e Inglaterra na Copa revive o “fantasma das Malvinas” diante de cicatrizes da guerra; veja posição atual dos dois governos sobre a disputa histórica
Tropas britânicas chegam às Malvinas durante o confronto em 1982. Foto: Fox Photos/Getty Images

As seleções da Argentina e da Inglaterra vão se reencontrar em um confronto de Copa do Mundo vinte e quatro anos após o último embate em um mundial, desta vez valendo uma das duas vagas na grande final da Copa dos Estados Unidos, Canadá e México, em um embate carregado de simbologia histórica e esportiva, com questões que permanecem em aberto 40 anos após um dos momentos mais tensos da era moderna na América do Sul.

A bola vai rolar no Estádio de Atlanta (Mercedes-Benz Stadium), nos EUA, pela semifinal do torneio às 16h da quarta-feira, dia 15 de julho, colocando novamente em campo uma das maiores rivalidades do futebol. Mais do que um encontro entre duas campeãs mundiais e duas grandes potências do futebol, o confronto entre os dois países no mundial representa, no campo geopolítico, um histórico de rivalidades e tensões que vão muito além das quatro linhas.

As Ilhas Malvinas (chamadas de Falkland Islands pelo Reino Unido) continuam sendo um dos litígios territoriais mais sensíveis do Atlântico Sul quatro décadas após os combates. Em 1982, britânicos e latinos travaram um sangrento conflito pelo domínio do território. O embate que ficou conhecido como Guerra das Malvinas começou quando a junta militar argentina, liderada pelo general Leopoldo Galtieri, sob pressões políticas e econômicas do regime, decidiu ocupar o território que era reivindicado pelo país desde o século XIX.

O embate é muito mais antigo do que a guerra travada com recursos modernos no século XX. Depois de tomar posse das ilhas na década de 1820, a Argentina, já independente da Espanha, viu suas autoridades expulsas do arquipélago pelos britânicos em 1833. Quase 150 anos depois, os argentinos lançaram a Operação Rosário com o objetivo de retomar o controle do território.

Na madrugada de 2 de abril de 1982, tropas argentinas desembarcaram nas Malvinas e rapidamente tomaram a capital, Port Stanley (Puerto Argentino, para os argentinos). A pequena guarnição britânica que representava os interesses dos europeus no território foi derrotada após breve resistência, e o governador britânico foi rendido. No dia seguinte, forças argentinas também ocuparam a ilha Geórgia do Sul.

Receba nosso Boletim Militar diretamente no seu e-mail

Seja o mais bem informado da sala em menos de 3 minutos de leitura

A resposta da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher seria implacável e compatível com o poderio militar de uma das maiores potências da época. O Reino Unido organizou uma grande força-tarefa naval composta por porta-aviões, destróieres, fragatas, submarinos nucleares, navios de desembarque e dezenas de embarcações de apoio. Em poucas semanas, cerca de 28 mil militares estavam a caminho do Atlântico Sul, incluindo forças navais, fuzileiros e exército.

Guerra e baixas no mar

Um dos episódios mais sangrentos da guerra aconteceria no embate naval. Em 2 de maio de 1982, o submarino nuclear britânico HMS Conqueror afundou o cruzador argentino ARA General Belgrano com o uso de torpedos Mark 8. O ataque matou 323 marinheiros argentinos, quase metade das baixas totais do país no conflito, e levou praticamente toda a frota de superfície da Argentina a permanecer nos portos pelo restante da guerra.

Apesar das pesadas baixas no Atlântico, as forças argentinas responderam. Um caça Super Étendard lançou um míssil contra o destróier inglês HMS Sheffield, que afundou dias depois. Foi a primeira vez que um navio de guerra moderno foi destruído por um míssil antinavio em combate, chamando a atenção das marinhas do mundo para essa nova ameaça.

A ofensiva aérea se tornaria um trunfo do governo de Leopoldo Galtieri diante da grande quantidade de embarcações deslocadas pelos britânicos, o que acabou se revelando uma vulnerabilidade das tropas de Thatcher. Voando no limite da autonomia e enfrentando modernos sistemas de defesa britânicos, os pilotos argentinos conseguiram afundar ou danificar diversos navios, comprometendo parte da mobilidade e a capacidade de fogo das tropas britânicas.

Campanha britânica e derrota argentina

Apesar dos esforços argentinos, os caças britânicos Sea Harrier, operando a partir dos porta-aviões HMS Hermes e HMS Invincible, conquistaram superioridade aérea graças ao domínio tecnológico. Os números destacam que os aviadores britânicos abateram 20 aeronaves argentinas sem sofrer nenhuma baixa. Após garantir o controle do mar e dos céus, as tropas de Londres desembarcaram na Baía de San Carlos para iniciar a campanha terrestre e retomar o controle do território das ilhas em 21 de maio de 1982.

As forças do Reino Unido, compostas principalmente por fuzileiros navais e paraquedistas, conseguiram superar a maioria das posições defensivas argentinas em várias batalhas travadas pelo território.

Em 14 de junho de 1982, cercadas e sem condições de continuar resistindo, as tropas argentinas na capital Port Stanley se renderam. O conflito chegava ao fim, legando à Argentina uma derrota histórica com a perda de 649 militares. Do lado britânico, foram contabilizadas 255 baixas entre soldados.

Cemitério argentino nas ilhas Malvinas segue no processo para identificar mortos no combate com os ingleses mais de 40 anos depois. Foto: Getty Images

Muitos dos mortos demoraram décadas para serem identificados. Em 2025, uma iniciativa liderada por ex-combatentes avançou no objetivo de identificar a identidade de soldados antes descritos como “conhecidos apenas por Deus”, no cemitério de Darwin, que reúne sepulturas de mortos no combate.

O que dizem Argentina e Inglaterra hoje

Mais de quatro décadas depois da Guerra das Malvinas, o tema parece estar longe de ter um desfecho, com posicionamentos de diferentes governos que se sucederam e, recentemente, pressão de organismos internacionais para que Argentina e Reino Unido encontrem uma solução pacífica para a disputa.

Eleito em 2023, o presidente da Argentina, Javier Milei, reconhecido por suas posições nacionalistas e ultraliberais, tem uma posição considerada por muitas vezes contraditória em relação à retomada do arquipélago que hoje é território britânico.

Em várias ocasiões, o presidente argentino declarou ser favorável a um movimento de reinvindicação do território das Malvinas — assim como fizeram governos anteriores, como os de Cristina Kirchner e Maurício Macri, de diferentes espectros ideológicos.

Por outro lado, Milei declarou repetidas vezes sua admiração por Margaret Thatcher, a “Dama de Ferro” que comandou o Reino Unido por 11 anos entre 1979 a 1990 e enviou as tropas que massacraram jovens argentinos durante o conflito de 1982.

Thatcher ficou conhecida em seus governos por reformas neoliberais, privatizações e corte de gastos estatais — caminho parecido com as escolhas do presidente argentino durante o seu mandato, o que ajuda a explicar a proximidade ideológica entre Milei e a figura histórica britânica.

Recentemente, conforme noticiou a CNN, o governo de Milei reiterou sua disposição de retomar as negociações bilaterais com o Reino Unido a respeito da disputa de soberania sobre as Ilhas Malvinas.

A República Argentina expressa mais uma vez sua disposição de retomar as negociações bilaterais com o Reino Unido que permitam encontrar uma solução pacífica e definitiva para a disputa de soberania e pôr fim à situação colonial peculiar em que se encontram“, declarou o Ministro das Relações Exteriores argentino, Pablo Quirno, em uma publicação nas redes sociais em abril.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) é uma das incentivadoras da retomada de diálogos pacíficos entre os dois países acerca da soberania das Malvinas.

Domínio britânico é “inegociável”

Já do lado britânico, o posicionamento tem sido duro em relação ao tema. O Reino Unido considera a soberania das Ilhas Malvinas inegociável e defende o direito à autodeterminação da população local. Os britânicos rejeitam qualquer exigência de transferência de controle para a Argentina.

Após as declarações do ministro argentino em abril sugerindo a retomada de diálogos sobre o domínio do arquipélago, um porta-voz do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse que a posição do país sore as Malvinas é antiga e permanece inalterada.

A soberania pertence ao Reino Unido e o direito das ilhas à autodeterminação é primordial. Essa tem sido nossa posição consistente e continuará sendo“, afirmou o porta-voz, conforme noticiado pela CNN.

A posição defendida pelos britânicos é baseada em fatores como a autodeterminação dos habitantes. Em 2013, foi realizado um referendo popular no arquipélago, onde 99,8% dos habitantes das Ilhas Malvinas (conhecidas como Falklands no Reino Unido) votaram a favor de permanecer como um Território Ultramarino britânico.

A “mão de Deus”

Se na geopolítica mundial a relação entre Argentina e Inglaterra tem sido carregada de instabilidades e marcada por uma guerra que vitimou centenas de jovens em ambos os lados, no futebol moderno, essa rivalidade é um fantasma que paira sobre as quatro linhas sempre que as duas seleções se encontram.

Desde 1982, as duas equipes protagonizaram alguns dos encontros mais conturbados da história das Copas do Mundo, transferindo ao gramado a carga de emoções herdada das linhas de frente de um sangrento embate no Atlântico.

A histórica “Mão de Deus” de Diego Maradona, que ajudou a eliminar os ingleses em embate na Copa de 1986

Apenas quatro anos após o fim da Guerra das Malvinas e com muitas das cicatrizes do conflito ainda abertas para as famílias dos combatentes — principalmente para os argentinos derrotados o destino colocou Argentina e Inglaterra frente a frente em campo pelas quartas de final do maior torneio futebolístico do planeta, em uma batalha esportiva que ganharia contornos épicos diante de tantas tensões extracampo e marcaria a história dos mundiais.

A Inglaterra, campeã do mundo em 1966, e a Argentina, que conquistou a sua primeira taça do mundial em 1978, decidiriam vaga nas semifinais da Copa do Mundo do México, no icônico Estádio Azteca, na Cidade do México.

A seleção argentina tinha como destaque ninguém menos do que Diego Maradona, símbolo nacional e da retomada do futebol argentino nos anos 1980. Do lado inglês, o atacante Gary Lineker, que terminaria o torneio como o artilheiro isolado com seis gols marcados.

A Argentina garantiu a vaga vencendo por 2 a 1, mas não sem polêmica: no primeiro gol do time alviceleste, a bola desviou na mão de Maradona ao subir para disputar com a zaga inglesa, sem que o juiz invalidasse o tento. O episódio entraria para o rol da mitologia das Copas do Mundo e da própria lenda de “Dieguito”.

Questionado após a partida sobre o gol, Maradona disse: “um pouco com a cabeça, e um pouco com a mão de Deus”. A rivalidade entre Argentina e Inglaterra em campo poucos anos depois de um sangrento combate que custou a vida de centenas de jovens acabou marcada pela mística de um dos maiores jogadores da história e pela vitória com “ajudinha” da arbitragem.

A Argentina ainda bateria a Bélgica por 2 a 0 na semifinal, e conquistaria o seu segundo título da Copa do Mundo em final contra a Alemanha, vencendo por 3 a 2. Maradona não marcou, mas Brown, Valdano e Burruchaga fizeram história com os gols argentinos e garantiram a taça para os “hermanos”.

Em 1998, na Copa da França, foi a vez das duas seleções se enfrentarem pelas oitavas de final. Os nervos novamente se mostrariam à flor da pele. Logo no início do segundo tempo, o meia inglês David Beckham, estrela da equipe, foi expulso por revidar uma entrada dura de Diego Simeone. Após empate por 2 a 2, a Argentina acabaria passando nos pênaltis, e sendo eliminada pela Holanda.

Em 2002, na Copa do Japão e Coreia do Sul, o último encontro entre Argentina e Inglaterra em mundiais. As duas equipes caíram no mesmo grupo da primeira fase. No confronto direto, Beckcham fez o gol da vitória inglesa, de pênalti. A Argentina acabou não se classificando para a fase final. Já a Inglaterra chegou às quartas, onde cairia diante do Brasil de Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, que conquistou o pentacampeonato.

A nova batalha: Messi versus Kane

No dia 15 de julho de 2026, Argentina e Inglaterra voltam a se encontrar em um confronto eliminatório de Copa do Mundo, em um cenário que, ao menos em campo, remete à “batalha” travada no México em 1986: a Argentina liderada por seu maior gênio desde Maradona, Lionel Messi, que levou a alviceleste ao histórico tricampeonato mundial em 2022; do lado inglês, repousa nos pés do craque Harry Kane a esperança de que o país europeu levante a taça 60 anos após seu único título.

Fatores históricos, políticos, culturais e esportivos que se acumularam ao longo de décadas tornam cada encontro entre as duas seleções carregado de simbolismo. Pela semifinal da Copa dos EUA, Canadá e México, Argentina e Inglaterra escreverão mais um capítulo de uma rivalidade que vai muito além das quatro linhas, enquanto, nos bastidores, a disputa pelo arquipélogo das Malvinas parece igualmente longe de ter um desfecho.

guest
0 Comentários
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Fernando Bianchi

Fernando Bianchi

Jornalista com mais de 10 anos de experiência na área da comunicação, redação e reportagem. Atuou como repórter em veículos impressos e multimídia, além de projetos na comunicação corporativa, pública e assessoria de imprensa. Escreve sobre geopolítica, defesa e novas tecnologias.