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A Embraer e a Saab assinaram o acordo que abre caminho para montar mais 20 caças Gripen em Gavião Peixoto, e essas aeronaves não vão para a Força Aérea Brasileira, vão atender à demanda mundial pelo caça sueco

O acordo assinado em 21 de julho de 2026 prevê a montagem de 20 caças Gripen adicionais em Gavião Peixoto, complementando a linha final da Saab em Linköping.

Jefferson Silva
Jefferson Silva
Publicado 31/07/2026 às 20:09h
A Embraer e a Saab assinaram o acordo que abre caminho para montar mais 20 caças Gripen em Gavião Peixoto, e essas aeronaves não vão para a Força Aérea Brasileira, vão atender à demanda mundial pelo caça sueco

A fábrica do interior paulista deixa de ser apenas a linha que atende o contrato nacional e passa a funcionar como segunda saída de produção da Saab, ao lado da matriz em Linköping.

A Embraer e a Saab assinaram em 21 de julho de 2026 um acordo preliminar que estabelece a estrutura para a montagem de 20 caças Gripen adicionais no complexo industrial de Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, segundo comunicado publicado pela Saab.

O ponto que muda a natureza da operação está no destino dessas aeronaves. Elas não integram o contrato da Força Aérea Brasileira. Conforme a empresa, a linha brasileira passa a funcionar como complemento da linha de montagem final de Linköping, na Suécia, para atender à demanda global pelo caça.

O documento assinado é um Heads of Agreement, ou seja, um acordo de intenções que fixa o desenho do negócio. As duas empresas pretendem concluir o contrato definitivo ainda em 2026, segundo o comunicado.

A diferença entre montar para si e montar para o mundo

Até aqui, a fábrica de Gavião Peixoto existia dentro da lógica do contrato brasileiro. A compensação industrial negociada com a Saab previa transferência de tecnologia e montagem local de parte das aeronaves destinadas à própria Força Aérea Brasileira.

Esse tipo de arranjo é comum em compra de defesa e tem prazo de validade. Quando o contrato nacional termina, a linha montada para atendê-lo perde função, e o país fica com galpão, ferramental e pessoal treinado sem produto para fabricar.

Passar a montar aeronave destinada a outros clientes muda esse desfecho. A instalação deixa de ser apêndice de um contrato e vira parte permanente da cadeia produtiva do fabricante.

O que as duas empresas declararam

Micael Johansson, presidente e CEO da Saab, afirmou que a parceria entre as duas empresas reforça o compromisso de longo prazo da companhia com a América Latina, segundo o comunicado da própria Saab.

Bosco da Costa Junior, presidente e CEO da Embraer Defesa e Segurança, declarou que a ampliação da parceria reflete a confiança mútua construída ao longo dos últimos dez anos e reforça o papel estratégico da Embraer, conforme o mesmo documento.

O intervalo de dez anos citado não é retórico. A relação começou com a seleção do Gripen pelo Brasil em 2014 e atravessou desenvolvimento, ensaios em voo, transferência de tecnologia e formação de pessoal antes de chegar a este ponto.

A linha brasileira já provou que entrega

O acordo não parte do zero. O primeiro Gripen E montado no Brasil foi apresentado em 25 de março de 2026, marco que só se atinge depois de a linha passar por qualificação completa do fabricante.

A capacidade instalada também já foi testada por encomenda estrangeira. A Colômbia contratou 17 aeronaves Gripen E e F em novembro de 2025, em negócio de 3,1 bilhões de euros, e a fábrica paulista entrou no fornecimento desse contrato, com entregas previstas entre 2026 e 2032.

Foi esse histórico que colocou a Embraer no radar da disputa por caças no mercado internacional, condição que uma montadora sob licença raramente alcança.

Por que a Saab precisa de uma segunda linha

A razão do lado sueco é capacidade. Linköping tem limite físico de produção, e o volume de interesse pelo Gripen cresceu num período em que orçamentos de defesa subiram na Europa, na Ásia e na América do Sul.

Ter uma segunda linha resolve dois problemas de uma vez. Aumenta o número de aeronaves entregues por ano e cria flexibilidade para atender cliente que exige produção fora da Suécia por razões políticas ou industriais.

O movimento já vinha sendo sinalizado. O volume de aeronaves em contratos, avaliações e negociações levou a Saab a estudar a expansão da capacidade produtiva, e o Brasil apareceu como o lugar mais preparado para receber essa expansão.

O que isso significa para a indústria brasileira

Montagem final não é a etapa mais rica de um programa aeronáutico, e é preciso dizer isso com clareza. O maior valor está no projeto, no sistema de missão, no radar e no motor, e nada disso passa a ser feito no Brasil por causa deste acordo.

O que o país ganha é continuidade. Linha de montagem em operação contínua sustenta engenheiro de produção, técnico de estrutura, cadeia de fornecedores locais e sistema de qualidade certificado, ativos que se perdem rapidamente quando a produção para.

Há também um ganho menos visível, que é o de padrão. Montar caça de combate sob a certificação do fabricante original obriga a fábrica a operar com rastreabilidade de peça, controle de processo e documentação no nível exigido por um cliente militar estrangeiro. Esse tipo de disciplina industrial não se compra pronta, se adquire fazendo, e depois se aplica a qualquer outro programa da casa.

Esse é o ponto que costuma escapar do debate. A discussão sobre indústria de defesa acaba concentrada no valor do contrato, quando o ativo real é a existência de uma linha que não fecha entre um pedido e outro. Não por acaso, as exportações brasileiras de defesa vêm crescendo em ritmo de dois dígitos.

O contraste com o contrato nacional é grande

Enquanto a linha brasileira se prepara para montar aeronave de exportação, o programa nacional avança devagar. Das 36 aeronaves contratadas pela Força Aérea Brasileira, 10 haviam sido entregues até julho de 2026.

A própria Força já indicou ao Congresso que o número contratado é insuficiente para a missão de defesa aérea do território, e defendeu quase dobrar a aquisição.

O descompasso é evidente. A fábrica instalada no país tem capacidade para produzir mais do que o Estado brasileiro contratou, e essa capacidade ociosa só se sustenta porque existe cliente fora.

O que ainda falta acontecer

O acordo assinado é preliminar, e isso importa. Ele fixa o desenho do negócio, mas não constitui obrigação de produção, e o número de 20 aeronaves depende do contrato definitivo previsto para 2026.

Também não foram divulgados valor, cronograma de entrega ou quais clientes receberão as aeronaves montadas no Brasil. Esses pontos costumam ser definidos apenas na fase contratual.

O que já está fixado é a função da fábrica. A partir deste desenho, Gavião Peixoto passa a ser tratada pela Saab como parte da capacidade global de entrega do Gripen, e não como instalação criada para atender um único cliente.

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Jefferson Silva

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Atuo na Sociedade Militar trazendo análises e conteúdos relacionados a Geopolítica, Tecnologia militar, Industria de Defesa e Inteligência Artificial.