Dias depois de o Ministério Público Federal acionar Exército, Marinha, Força Aérea Brasileira e Polícia Federal diante de denúncias sobre homens armados de origem estrangeira no noroeste do Amazonas, novos relatos de lideranças indígenas ampliaram a dimensão do alerta na fronteira com a Colômbia.
Moradores falam agora em um contingente de cerca de 2 mil homens armados circulando pelo lado brasileiro, famílias teriam deixado comunidades em busca de locais mais seguros e integrantes do grupo teriam ordenado o desligamento de equipamentos de comunicação, incluindo terminais da Starlink.
O número de 2 mil homens, porém, não foi confirmado pelas autoridades brasileiras e não deve ser tratado como efetivo oficialmente identificado.
A estimativa foi apresentada por lideranças locais ouvidas pelo UOL após as primeiras denúncias encaminhadas pela Coordenadoria das Organizações Indígenas do Tiquié, Uaupés e Afluentes, ligada à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).
Também continua sem confirmação oficial a organização à qual os homens pertenceriam.
Embora moradores os descrevam como guerrilheiros vindos da Colômbia, as autoridades ainda investigam quem são, quantos realmente estão em território brasileiro e se possuem ligação com dissidências das Farc, ELN ou outras estruturas criminosas.
Relatos falam em cerca de 2 mil homens no lado brasileiro
O primeiro alerta formal das organizações indígenas foi enviado às autoridades em 17 de agosto.
O documento relatava circulação de pessoas armadas nas proximidades de comunidades e roçados, intimidações e ameaças contra moradores que dependem da agricultura de subsistência.
Posteriormente, uma liderança da região afirmou ao UOL que os avistamentos começaram a se tornar frequentes por volta de 15 de agosto.
Segundo essa fonte, não se trataria de um pequeno grupo isolado.
A estimativa apresentada foi de aproximadamente 2 mil homens do lado brasileiro da fronteira.
Indígenas teriam abandonado duas comunidades
Os novos relatos também apontam consequências diretas para as famílias indígenas.
Entre as localidades citadas aparecem Rio Castanho, Cachoeira Comprida, Cunurí, São Filipe e Morro de Beija-Flor, todas na região de São Gabriel da Cachoeira.
Moradores de São Filipe e Morro de Beija-Flor teriam deixado suas comunidades, deslocando-se principalmente em direção a Pari Cachoeira.
A preocupação não está limitada à presença dos homens armados.
Segundo as denúncias, moradores que tentaram chegar às roças teriam sido abordados, ameaçados com armas de fogo e impedidos de circular normalmente.
A situação atinge diretamente a alimentação das famílias.
Nas comunidades da região, plantações de mandioca e outros cultivos fazem parte da subsistência cotidiana. Restringir o acesso aos roçados significa, portanto, interferir não apenas na circulação das pessoas, mas também na obtenção de alimentos.
O MPF já havia incluído relatos de invasões de roças, ameaças e restrições ao trabalho agrícola entre os fatos que justificaram a abertura da investigação.
Grupo teria mandado desligar até a Starlink
Outro elemento revelado posteriormente diz respeito às comunicações.
Uma liderança ouvida pelo UOL afirmou que os homens armados teriam chegado a determinados pontos e ordenado aos moradores que desligassem seus equipamentos de comunicação, incluindo terminais da Starlink, serviço de internet por satélite utilizado em áreas remotas da Amazônia.
Segundo o relato, a consequência foi a perda de contato com algumas localidades.
A fonte afirmou que as comunidades estavam sem informações de determinados pontos da região após a interrupção das comunicações.
Em uma área marcada por grandes distâncias, cobertura precária de telecomunicações e deslocamentos predominantemente fluviais, a internet por satélite pode ser uma das poucas formas de comunicação rápida com centros urbanos e autoridades.
Também foram relatados desaparecimentos de embarcações desde o início dos avistamentos frequentes.
Liderança teria sido levada e retornado cinco dias depois
O caso de uma liderança indígena de Cunurí, no Baixo Uaupés, já aparecia entre os episódios mais graves encaminhados às autoridades.
Segundo a denúncia, o indígena teria sido levado pelo grupo armado e obrigado a servir como guia até a comunidade Rio Castanho.
Uma informação posterior trouxe mais detalhes sobre o episódio.
De acordo com a apuração do UOL, a liderança teria retornado à comunidade cinco dias depois.
Após voltar, teria dito aos demais moradores que os homens não representariam perigo.
A mudança de postura gerou desconfiança entre indígenas da região, que passaram a considerar a possibilidade de a liderança estar com medo de represálias.
Não há, entretanto, confirmação pública de que tenha sofrido novas ameaças durante os cinco dias.
A existência do episódio envolvendo uma liderança obrigada a servir como guia aparece entre os fatos que motivaram a investigação federal, embora detalhes posteriores ainda dependam de apuração.
MPF acionou Exército, Marinha, FAB e Polícia Federal
A gravidade das primeiras denúncias levou o Ministério Público Federal no Amazonas a abrir um inquérito para investigar a possível incursão e permanência de grupos armados estrangeiros no Alto Tiquié e no Baixo Uaupés.
O MPF encaminhou uma recomendação urgente ao Exército Brasileiro, Marinha do Brasil, Força Aérea Brasileira e Superintendência da Polícia Federal no Amazonas.
Os órgãos foram cobrados a informar providências relacionadas a patrulhamento, fiscalização da fronteira e proteção territorial, com prazo inicial de 48 horas para manifestação.
Parte das informações produzidas dentro do procedimento permanece sob sigilo.
O próprio MPF informou ao UOL que alguns atos não estavam sendo divulgados para evitar prejuízo às investigações e à atuação dos órgãos públicos.
Isso significa que a ausência de informações públicas detalhadas sobre deslocamentos de tropas ou operações específicas não permite concluir que os órgãos deixaram de responder ao Ministério Público.
Exército diz monitorar relatos sobre estrangeiros
O Exército confirmou ter conhecimento da situação.
Em posicionamento enviado ao UOL, a Força afirmou manter atenção especial a informações relacionadas à presença de estrangeiros ou grupos capazes de representar ameaça à população residente na faixa de fronteira.
A vigilância local envolve o 6º Pelotão Especial de Fronteira, em Pari Cachoeira, responsável por realizar ações regulares de reconhecimento e fiscalização na área sob sua responsabilidade.
O Exército também afirmou manter interlocução com outras instituições responsáveis pela segurança e fiscalização da fronteira.
A presença militar na região, porém, enfrenta uma característica conhecida da Amazônia: enormes extensões territoriais e pequenos efetivos distribuídos em pontos isolados.
O próprio Sociedade Militar mostrou anteriormente que os Pelotões Especiais de Fronteira que vigiam essa parte do Alto Rio Negro normalmente operam com efetivos na faixa de 35 a 50 militares, dentro de uma fronteira Brasil-Colômbia que se estende por cerca de 1.644 quilômetros.
Esse contraste ajuda a explicar por que as organizações indígenas não pediram apenas ações pontuais.
Comunidades querem tropas de selva e fiscalização permanente
As organizações locais apresentaram três reivindicações principais diante dos relatos.
Uma delas é o envio imediato de patrulhamento militar e tropas especializadas em selva para o Rio Tiquié e o Baixo Uaupés.
Outra é a criação de um ponto permanente de fiscalização e segurança, destinado a impedir que os homens armados simplesmente mudem de localização depois de uma operação temporária.
A terceira envolve atuação coordenada entre Forças Armadas, Polícia Federal e Ministério Público Federal para investigar violações de fronteira e possíveis crimes contra as comunidades indígenas.
A preocupação das lideranças ocorre justamente enquanto a Colômbia passa por uma mudança em sua política de segurança.
O presidente Abelardo de la Espriella, empossado em 7 de agosto, prometeu uma estratégia mais dura contra organizações armadas e narcotraficantes, depois de criticar as negociações conduzidas durante o governo anterior.
Lideranças indígenas ouvidas pelo UOL levantam a hipótese de que parte dos homens avistados possa estar se deslocando para território brasileiro diante dessa mudança.
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