Foram três aquisições em três anos, com o percentual subindo a cada rodada. Nenhum dos valores foi divulgado.
Uma empresa estatal dos Emirados Árabes Unidos comprou três empresas brasileiras de defesa em três anos, e foi subindo a participação a cada rodada: metade da primeira, pouco mais da metade da segunda e a totalidade da terceira.
Nenhum dos três valores foi divulgado. O que se sabe são os percentuais, as datas e o que cada uma dessas empresas fabrica para as Forças Armadas brasileiras.
As três compras, uma por ano
A primeira foi em 2023, quando o grupo Edge ficou com 50% da SIATT, de São José dos Campos, que desenvolve mísseis em parceria com a Marinha.
A segunda veio em 2024, com 51% da Condor Tecnologias Não Letais, fabricante de gás lacrimogêneo, spray de pimenta, granadas de efeito moral e munição de impacto controlado, com produtos usados em 85 países.
A terceira fechou neste ano e é a mais completa. O grupo comprou 100% da Akaer, empresa de engenharia aeroespacial que trabalhou no caça Gripen brasileiro, no cargueiro KC-390 e no Super Tucano.
O que essas empresas entregam às Forças
A SIATT é sócia da Marinha no míssil antinavio nacional, o MANSUP, arma com alcance na casa dos 70 quilômetros feita para atingir navio de superfície a partir de outro navio.
O programa não é experimental. A Marinha projeta até 96 mísseis por ano, volume que transforma o MANSUP de protótipo em item de estoque operacional.
A Akaer entra por outro caminho, o da engenharia. Ela não fabrica a plataforma inteira: projeta estrutura, integra sistema e resolve o detalhe de cálculo que faz uma aeronave existir, e é por isso que aparece em programas tão diferentes entre si.
O que a lei exige de uma empresa estratégica
Existe um selo que dá acesso a benefício tributário e a compra preferencial do Estado: o de Empresa Estratégica de Defesa, criado pela Lei 12.598, de 2012. Ele não é automático nem vitalício.
Para obtê-lo, a empresa precisa se credenciar no Ministério da Defesa, ter sede no país, comprovar conhecimento científico ou tecnológico próprio e assegurar o controle acionário nas mãos de brasileiros, admitida participação estrangeira no capital.
A palavra controle é a que decide tudo. Participação estrangeira é permitida; controle estrangeiro, não, e é exatamente aí que uma compra de 100% levanta a pergunta que ninguém respondeu em público.
Quem tentou barrar a venda
A operação da Akaer não passou sem reação. Entidades do setor enviaram ofício ao presidente da República pedindo a suspensão da venda, citando risco à soberania tecnológica.
O argumento apresentado é específico e vale registrar: a empresa participa de projetos considerados estratégicos, e transferir o controle deles para capital estrangeiro muda quem decide sobre a tecnologia desenvolvida com dinheiro público brasileiro.
Não há notícia de que a venda tenha sido suspensa. O que existe é o ofício, a compra concluída e o silêncio sobre o enquadramento da empresa no regime de defesa depois da troca de dono.
A fábrica que veio depois da compra
Do outro lado do argumento está o dinheiro que entrou. A SIATT inaugurou em Caçapava, no interior paulista, uma unidade de 6.200 metros quadrados construídos, destinada a etapas da produção de mísseis e foguetes guiados.
A própria empresa liga a expansão à entrada do grupo árabe em 2023. Sem o aporte, a linha de montagem provavelmente não sairia no prazo em que saiu.
E a companhia segue somando sócios internacionais. A SIATT e a francesa Safran avançam para produção conjunta no país, o que coloca capital de dois continentes dentro da mesma fabricante de mísseis.
O que o grupo quer além das fábricas
A presença dos Emirados no Brasil deixou de ser só compra de participação societária. O grupo avança na criação de um centro de excelência em defesa cibernética junto ao Exército.
Com a Marinha, a relação se amplia em projetos de monitoramento, vigilância e reconhecimento, que são justamente as áreas em que dado coletado tem valor estratégico duradouro.
O movimento acontece enquanto o país tenta nacionalizar o resto da cadeia. O blindado Guaicurus começou a ser produzido em Minas Gerais, com contrato de 420 veículos por R$ 1,4 bilhão e proteção contra minas.
Por que participação e controle não são a mesma coisa
Cinquenta por cento, cinquenta e um por cento e cem por cento parecem números vizinhos e produzem efeitos jurídicos completamente diferentes. Metade não dá controle; metade mais uma ação dá; a totalidade dispensa qualquer discussão.
É por isso que tratar as três operações como um bloco só distorce o quadro. Na SIATT há sociedade; na Condor há controle; na Akaer há propriedade integral.
O que muda na prática é quem aprova a venda de uma tecnologia a um terceiro país, quem decide onde a produção fica e quem responde se o Brasil e o comprador estrangeiro discordarem sobre um cliente.
O míssil nacional e o dono estrangeiro
A contradição desta história cabe numa frase. O míssil que a Marinha chama de antinavio nacional é desenvolvido por uma empresa cujo controle está dividido meio a meio com uma estatal de outro país.
Isso não torna o produto menos brasileiro no papel: o projeto nasceu aqui, a fábrica fica aqui e o cliente é a Marinha. Muda quem senta do outro lado da mesa no dia em que se discutir vender aquele míssil a um terceiro país.
As três compras foram fechadas sem que um único valor viesse a público, e ninguém informou se as empresas seguem credenciadas como estratégicas depois da troca de dono. É essa resposta que decide se o selo criado em 2012 ainda vale alguma coisa.
Isso que dá elegermos um presidente fraco e medíocre, ele seria o único que podia impedir isso, mas é um incapaz.
Deveria ser CRIADO O MINISTÉRIO DA CIÊNCIA ,TECNOLOGIA E INOVAÇÃO voltando_se aos minerais críticos e empresas estratégicas proibindo a venda a grupos estrangeiros de empresas nacionais e ,produtos brutos ou semi acabados mas, estimulando o conhecimento brasileiro de empresas junto a Universidades para estimular a indústria de defesa…
Estamos perdendo soberania pelas mãos de gente gananciosa que não se importa com o futuro do Brasil e,pela falta de interferência política em assuntos que se referem a nossa autonomia estratégia para fugir de mãos estrangeiras.Será que isso ainda existe competência para gerenciamento?