Nenhum dos torpedos lançados pelo submarino acertou o alvo, e a explicação está num componente que ninguém fotografou: o sistema de controle de tiro, cuja falha transformou a patrulha mais ousada da Argentina em um exercício de sobrevivência
Em dezembro de 1981, o capitão de fragata Fernando Azcueta assumiu o comando do ARA San Luis. Quatro meses depois, aquele submarino seria a única coisa que separava a Royal Navy de uma navegação tranquila no Atlântico Sul.
O San Luis era um Type 209 de fabricação alemã, lançado nos estaleiros Tandanor em 1973. Em 1982 estava longe de qualquer condição ideal. O relato reunido pelo Poder Naval sobre a história secreta da embarcação descreve um dos motores diesel falhando de forma constante, o sistema de refrigeração comprometido e o casco e os propulsores tomados por moluscos — incrustação que aumenta o ruído irradiado, exatamente o que um submarino não pode se dar ao luxo de produzir quando está sendo caçado.
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Ele foi mesmo assim.
Trinta e nove dias contra a melhor guerra antissubmarino do mundo
A Marinha Real Britânica era, e segue sendo, referência mundial em guerra antissubmarino. Tinha helicópteros, fragatas especializadas, sonares rebocados e submarinos nucleares na área. Contra tudo isso, a Argentina colocou um submarino convencional com defeito.
O San Luis operou na área de patrulha conhecida como MARÍA, nas proximidades da entrada norte do Estreito de San Carlos — o ponto por onde a força de desembarque britânica teria de passar. Permaneceu em patrulha por 39 dias e retornou a Puerto Belgrano em 19 de maio de 1982.
Trinta e nove dias é muito tempo. Para quem não convive com submarinos, o número parece apenas longo; para quem convive, é o tipo de permanência que destrói tripulação. Ar viciado, temperatura alta, alarme constante, sono picado, e a certeza de que qualquer ruído desnecessário pode ser o último.
Os torpedos que saíram e não chegaram
O San Luis atacou. Esse é o ponto que costuma surpreender quem conhece a guerra apenas pelo afundamento do cruzador General Belgrano e pelos ataques com míssil Exocet.
Os disparos foram feitos, segundo o material compilado por Infobae em reportagem sobre a guerra submarina nas Malvinas, contra alvos britânicos identificados pelo sonar. Nenhum resultou em afundamento.
A causa apontada de forma consistente pelos relatos de tripulantes não foi erro de comando nem falta de coragem: foi o sistema de controle de tiro, responsável por calcular a solução do problema e guiar o torpedo até o alvo. Com esse componente degradado, o torpedo vira um objeto caro atirado na direção aproximada de alguma coisa.
Aqui cabe uma leitura que a narrativa heroica costuma pular. O San Luis não falhou por ser argentino nem venceu por ser corajoso. Ele mostrou, com precisão quase didática, que um submarino moderno é um sistema de armas, não um casco — e que basta um subsistema eletrônico fora de operação para que todo o resto, treinamento incluído, não se converta em resultado.
Por que os britânicos gastaram tanto atrás dele
A consequência prática da presença do San Luis não foi o que ele afundou. Foi o que ele obrigou o adversário a fazer.
Suspeitas de contato submarino forçaram a força-tarefa britânica a mudanças de rota, ataques preventivos contra contatos não confirmados e consumo de armamento antissubmarino em quantidade desproporcional ao resultado. Uma única unidade avariada manteve uma frota inteira em estado de alerta por mais de um mês.
O San Luis voltou sem ser atingido. É o detalhe que fecha o arco: nenhum dos lados conseguiu o que queria, e ambos pagaram caro por isso.
O que a história do San Luis ainda cobra
Quarenta e poucos anos depois, a Argentina não tem força submarina operacional. A perda do ARA San Juan em 2017, com 44 tripulantes, encerrou de forma trágica um ciclo que o San Luis havia aberto com uma patrulha improvável.
O que permanece sem resposta pública detalhada é o registro técnico completo dos ataques — quantos torpedos, contra quais unidades, com qual solução de tiro. Boa parte dessa documentação segue restrita, e os relatos disponíveis vêm majoritariamente da memória dos tripulantes, recolhida décadas depois.