A desmilitarização das Polícias Militares voltou ao centro do debate depois que o presidente Lula (PT), no debate da TV Globo de 23 de outubro, disse que o governo iria “acabar com a polícia e deixar o território livre”. A frase foi tratada por muit agente como ato falho, mas reacendeu nas redes uma discussão antiga, agora com um ingrediente que contraria o senso comum: muitos praças que defendem o fim do modelo militar se apresentam como conservadores.
Lula, debate da TV Globo e a nota do Clube dos Oficiais da PM
Na mesma resposta, Lula afirmou que, aprovada a PEC da Segurança Pública, criaria um Ministério da Segurança Pública para fortalecer a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal e combater milícias e narcotráfico. Segundo checagem publicada no dia seguinte, a frase isolada não corresponde a nenhuma proposta formal de extinguir polícias.
A oposição explorou o trecho, e o Clube dos Oficiais da Polícia e Bombeiros Militares da Paraíba divulgou nota de repúdio. Nas redes frequentadas por policiais, porém, a discussão tomou outro rumo: em vez de defender o modelo atual, boa parte dos comentários pede a desmilitarização.

Praças da PM do Ceará, do Maranhão e do Rio de Janeiro defendem a mudança
Em uma publicação nas redes sociais acessada pela reportagem da Revista Sociedade Militar, voltada a concurseiros e policiais, sargentos da PM do Ceará, postagem do professor B.Oliveira, que ministra em cursos preparatórios para concursos militares, um sargento da reserva da PMMA e policiais do Rio de Janeiro e de São Paulo se declararam favoráveis para que policiais se afastem do militarismo. Um deles escreveu ser “militar, de direita e a favor”. Uma tenente disse que não muda nada para a oficialidade e outro policial disse detestar o PT e, ainda assim, apoiar a proposta.

Os argumentos se repetem: regulamentos usados para punir barba e bigode, distância entre oficiais e praças e a percepção de que o regime concentra poder na cúpula. Do lado contrário, policiais lembram que ninguém é obrigado a entrar na PM, que a hierarquia sustenta operações de alto risco e que propostas associadas ao governo petista merecem desconfiança. Um dos comentários com mais curtidas menciona que policiais como PF e PRF seriam “mais desenvolvidas que qualquer PM”.

Pesquisa da FGV e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública ouviu 21 mil policiais
O sentimento não é novo. Em 2014, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a FGV e a Senasp ouviram 21.101 policiais militares, civis, federais, rodoviários federais, bombeiros e peritos de todos os estados. No Distrito Federal por exemplo, 85% apoiaram desvincular as polícias do Exército, os policiais militares do DF também acreditam – 93% – que os regulamentos disciplinares devem ser adequado à CF1988.
73% dos policiais ouvidos em todo o país acreditam totlamente ou em parte que retirar a subordinação às Forças Armadas é necessário, acabando com as inspetorias de Polícias Militares. 63% concordam totalmente ou em parte com o fim da justiça militar para as polícias militares.

O levantamento também mostrou que 93,6% dos PMs defendiam modernizar regimentos e códigos disciplinares. Entre os entrevistados, 58,3% disseram que a hierarquia provoca desrespeito e injustiças, e 59,6% relataram já ter sido humilhados ou desrespeitados por superiores. Na divulgação, a então secretária nacional de Segurança Pública, Regina Miki, observou que base e cúpula enxergam a desmilitarização de formas distintas.
Bolsonaro sancionou o fim da prisão disciplinar, e o STF derrubou a lei
Um episódio recente embaralha bastante o rótulo ideológico. Em dezembro de 2019, o então presidente Jair Bolsonaro sancionou sem vetos a Lei 13.967/2019, que extinguia a prisão disciplinar nas PMs e nos corpos de bombeiros militares.
O governador da Bahia, Rui Costa (PT), foi ao STF contra a norma, alegando que a rigidez da hierarquia justifica a medida, ou seja, se posicionou a favor da aplicação de princípios militares na coorporação.
Em maio de 2022, o plenário do STF declarou a lei inconstitucional por unanimidade, no julgamento da ADI 6595, entendendo, entre outros pontos, que o tema é de iniciativa dos governadores. A prisão disciplinar, uma das principais queixas dos militares graduados, voltou a depender das leis de cada estado.
PEC 51/2013, de Lindbergh Farias, e a Lei Orgânica sancionada no governo Lula
No Congresso, a proposta mais ampla foi a PEC 51/2013, do senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que desvinculava as polícias do Exército e previa carreira única, ciclo completo e ouvidorias. Foi arquivada ao fim da legislatura, em dezembro de 2018. Antes dela, a PEC 430/2009, de Celso Russomanno, e a PEC 102/2011, de Blairo Maggi, tratavam da unificação das polícias.
Em direção oposta, a Lei 14.751/2023, Lei Orgânica Nacional das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros Militares, sancionada no governo Lula, reafirmou essas corporações como instituições militares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina militares e comandadas por oficial do último posto. A PEC 18/2025, da Segurança Pública, não desmilitariza as PMs, mas abre caminho para polícias municipais.
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Robert Peel, Scotland Yard e o modelo civil de Inglaterra e Estados Unidos
O argumento mais citado pelos policiais conservadores é histórico. A polícia moderna nasceu em Londres, em 1829, com a Polícia Metropolitana criada por Robert Peel, então secretário do Interior, deputado tory e futuro primeiro-ministro. O primeiro dos chamados princípios de Peel define a prevenção do crime como alternativa à repressão pela força militar.
Nos Estados Unidos, o policiamento é feito majoritariamente por departamentos municipais, de condados e estaduais, de natureza civil, e a lei Posse Comitatus, de 1878, restringe o emprego das Forças Armadas em tarefas policiais. Para os defensores da mudança, a comparação mostra que hierarquia e disciplina não dependem de estatuto militar.
O contraponto também tem base internacional. França, Itália, Espanha e Chile mantêm forças policiais de natureza militar, como a Gendarmerie, os Carabinieri, a Guardia Civil e os Carabineros, que convivem com polícias civis nesses países.
O argumento da greve, que é vetada pelo STF até para policiais civis
Parte dos comentários contra a desmilitarização menciona greves e sindicatos logo após uma eventual desmilitarização. Entretanto, a jurisprudência brasileira indica outro cenário.
Em 2017, no ARE 654432, com repercussão geral, o STF fixou que a greve é vedada aos policiais civis e a todos os servidores que atuem diretamente na segurança pública. Uma polícia ostensiva civil continuaria sem direito de fazer greve.
O assunto permanece mais atual do que nunca e vez por outra retorna às manchetes, principalmente em períodos de forte polarização política ou movimentações por melhorias das condições de trabalho dos policiais militares.
Não venhamos propostas da esquerda para segurança pública a gente já fica com pé atrás. Realmente grande parte da esquerda é leniente com o crime, mas eu entendo que essa discussão se a polícia militar ou não é secundária. O mais importante é a integração das polícias (PF, PM, P civil etc) no combate ao crime. E neste ponto, concordo com a PEC do governo.
Errata: onde se lê: Não venhamos, leia- se “convenhamos”.
A ONU já havia orientado os países que mantém polícias militares a desmoralizar e unificar com as polícias civis já faz algum tempo, tem projeto pronto só falta ser aprovado ..
Amigo ,vc disse DESMORALIZAR ? Mais ainda do q já está DESMORALIZADA ?
A ONU já havia se manifestado com uma nota orientado os países membros que ainda mantinham Policias Militares a prepararem os processos de desmilitarização e unificação com as polícias civis, policial e preparado para segurança pública , soldado e preparado para segurança da nação.
A hierarquia e a disciplina são a base das FA, mas quando exercida de forma errada vira assédio, para se vivenciar a hierarquia e a disciplina não precisa ser militar, precisa ser cidadão conhecedor e cumpridor de seus direitos e deveres.
Orlando li com muita atenção os seus comentários. Entendi algo ….precisa de ser cidadão conhecedor e cumpridor dos seus direitos e deveres….importante o seu comentário..
Será que estao pensando em milicializar a seguranca, acabando com a Policia Militar.
Armando eu não acabaria com. P M mas sim acabaria com a corrupção que está na PM .é vergonhoso ter uma farda em cima dos ombros e se corromper po 10 reais. Diga q que estou errado
Sou SGT da PM de SP e sempre lutei pela desmilitarização, pois somos tratados como nada, quando tem aumento de funcionários públicos o governo estadual diz que somos militares e quando tem aumento do exército diz que não estamos nas regras das forças armadas ou sela não somos militares mas para punição boba com um ano de condenação somos militares.
Nunes aí você tem razão.. precisa de uma associação militar uma vez que nas forças militares não se pode ter sindicato.. Mas temos que respeitar a farda que temos nos ombros .
Parabéns, Nunes, falou a pura verdade. A desmilitarização é de suma importância. Nós Estados Unidos, um Sargento ‘ civil ‘- é muito valorizado.
Se não for corrupto como no Brasil..sou B Militar aposentado. de portugal. Conheço usa. Canadá não faça comparações. As autoridades brasileiras não sabem ter uma farda em cima.
Agora que sou a favor de um modelo como na Europa ou EUA onde existe uma única polícia. A uniformizada atua em operações ostensivas e a civil em investigações. Modelo mais eficaz.