Dois helicópteros entregues no estacionamento ao lado do Beira-Rio, em Porto Alegre, vão mudar a distribuição das aeronaves da Brigada Militar pelo Rio Grande do Sul. A entrega ocorreu em 22 de outubro: chegaram um Esquilo H125, da Airbus, e um Koala AW119Kx, da italiana Leonardo, comprados com investimento superior a R$ 70 milhões. Não são apenas duas aeronaves a mais para sobrevoar ocorrências. A chegada delas abre espaço para deslocar outros helicópteros da capital para o interior e o litoral, e responde a uma dificuldade que ficou exposta quando as enchentes de 2024 isolaram comunidades inteiras.
O Esquilo, identificado como Guapo 26, foi preparado para missões de policiamento e apoio rápido. O Koala, Guapo 30, transporta até oito pessoas, incluindo os dois pilotos, e dispõe de equipamentos que ajudam a localizar vítimas e retirá-las de lugares de acesso difícil. Há um detalhe decisivo: a incorporação foi anunciada agora, mas a corporação informou que os helicópteros começariam a prestar serviços depois da cerimônia. A entrega não significa que todas as bases já estejam operando com a nova configuração.
Por que os helicópteros chegaram juntos à Brigada Militar
O governador Eduardo Leite apresentou as aeronaves no dia 22, em um ato realizado na Zona Sul de Porto Alegre. Os recursos saíram de duas fontes: o Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs) e o Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL), ligado ao Ministério Público gaúcho. É uma compra que combina duas necessidades do Estado: a rotina de segurança pública e a possibilidade de uma resposta aérea em situações de calamidade.
Durante as grandes cheias de maio de 2024, o helicóptero deixou de ser uma imagem distante do policiamento aéreo. Em bairros alagados e localidades com acessos interrompidos, tornou-se uma maneira de alcançar pessoas que não podiam ser retiradas pela estrada. O governador reconheceu, no anúncio de outubro, que o Estado precisou contar com aeronaves das Forças Armadas e de outras unidades da Federação naquele desastre. Entre o pedido de ajuda e a chegada desses reforços, porém, a demanda por resgates já era enorme.
Isso explica por que o investimento de R$ 70 milhões não deve ser reduzido a uma compra de patrulha. A Brigada Militar também participa de busca de desaparecidos, salvamento, transporte emergencial e ações de Defesa Civil. Os diferentes tipos de missão exigem equipamentos e tripulações preparados. Um helicóptero pode chegar a uma região isolada, mas a possibilidade de efetuar um resgate depende de condições meteorológicas, autonomia, peso, treinamento e dos dispositivos instalados a bordo. Essas variáveis ajudam a entender a escolha de dois modelos com características complementares.
Guapo 26: o Helicóptero Esquilo que aproxima a equipe policial do lugar da ocorrência
O H125 Esquilo B3E recebido pela corporação tem matrícula PP-BAV e indicativo Guapo 26. A Brigada Militar o classifica como helicóptero leve e multimissão. Na prática, isso significa que ele pode levar equipes a pontos distantes, fazer reconhecimento antes de uma intervenção, acompanhar ocorrências graves e oferecer aos policiais em solo uma visão que seria impossível obter entre prédios, vegetação ou estradas.

O modelo também pode apoiar buscas e operações em catástrofes, conforme sua configuração. O aspecto menos evidente da tecnologia aérea não está na velocidade isolada, mas na informação que ela entrega. Uma equipe que observa um terreno de cima pode identificar acessos, áreas inundadas ou o deslocamento de veículos e orientar os agentes que precisam agir no chão.
O Esquilo não substitui o trabalho de policiais, bombeiros ou equipes de saúde em terra. Ele permite que esses profissionais recebam apoio e cheguem onde a situação exige. No caso de uma ocorrência prolongada, a presença de um helicóptero em uma base regional também evita que toda resposta tenha de começar necessariamente na capital gaúcha. É uma mudança de logística, mais do que de aparência da frota.
Guapo 30: câmera térmica, guincho e espaço para retirar pessoas
O segundo helicóptero, o AW119Kx Koala, tem matrícula PP-BDA e indicativo Guapo 30. Seu interior comporta até oito ocupantes: dois pilotos e seis passageiros, respeitados os limites operacionais de cada voo. O modelo foi apresentado com guincho de resgate, gancho para cargas externas, farol de busca, kit para rapel e sistema de imageamento Flir Star Safire 380-HD. Não se trata de um equipamento único: cada recurso atende a um problema diferente.

O farol pode iluminar um ponto de interesse quando as condições permitem. O guincho é relevante em locais onde não existe área segura para pouso e uma pessoa precisa ser içada por uma equipe treinada. O gancho permite transportar determinadas cargas externamente, dentro da capacidade autorizada. O sistema de imagens térmicas, por sua vez, percebe diferenças de temperatura e pode ajudar a localizar pessoas ou outros pontos de interesse com visibilidade limitada, mas não torna o voo imune à chuva intensa, à neblina ou às restrições de segurança aeronáutica.
Na rotina do Estado, essas possibilidades atravessam situações muito distintas. Uma vítima presa em área de mata, um salvamento aquático, o transporte de órgãos para transplante ou uma operação policial exigem procedimentos próprios. O Comando de Aviação da Brigada Militar cita essas missões entre os empregos possíveis da frota. A presença dos dispositivos amplia as opções, mas cada operação continuará dependendo do preparo das equipes, da segurança do local e da disponibilidade efetiva de pessoal e aeronaves.
O anúncio de outubro não trouxe um relatório de missões já realizadas pelos novos helicópteros. A informação importante é outra: a entrega coloca dois equipamentos identificados e com funções definidas à disposição da reorganização do serviço aéreo gaúcho.
Caxias do Sul, Capão da Canoa e Santa Maria entram na nova distribuição
Com a incorporação do Esquilo e do Koala, a própria Brigada Militar informou que sua frota aérea passa a reunir sete aeronaves: cinco helicópteros e dois aviões. A intenção é atender melhor Porto Alegre, Caxias do Sul, Capão da Canoa e Santa Maria, além das atividades do Centro de Formação Aeropolicial. A diferença entre sete aeronaves e sete helicópteros é importante: o total anunciado inclui dois aviões, que cumprem funções distintas das aeronaves de asas rotativas.
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A redistribuição é particularmente relevante para o litoral e para a Serra. Segundo a cobertura do Correio do Povo, as unidades recém-entregues permaneceriam na capital, permitindo o remanejamento de outras aeronaves para Caxias do Sul e Capão da Canoa. A corporação também citou o objetivo de instalar estrutura independente em Santa Maria. Isso não significa que todos esses movimentos já estivessem concluídos em 22 de outubro.
Em cidades separadas por longas distâncias, ter uma aeronave mais próxima pode pesar em uma busca ou remoção urgente. Mas o ganho não pode ser traduzido honestamente em um tempo fixo de atendimento: distância, clima, disponibilidade e autorização de voo variam. O benefício concreto anunciado é a possibilidade de ampliar a cobertura territorial e reduzir a dependência de aeronaves concentradas em um único ponto.
A lembrança das enchentes de 2024 ajuda a medir o significado da compra
A história recente mostra o que está em jogo fora da rotina policial. Após as enchentes de 2024, os Bombeiros gaúchos registraram 42.133 salvamentos de pessoas e 4.587 de animais, feitos por equipes terrestres, embarcações e aeronaves. Foram operações de grande escala, envolvendo reforços de vários estados e das Forças Armadas. Os números daquele desastre não são uma projeção do que os novos helicópteros conseguirão fazer, mas demonstram por que o planejamento de aviação para emergências interessa a toda a população.
O comando da Brigada Militar também relacionou os novos helicópteros a missões de apoio policial, incêndios, emergências médicas e grandes catástrofes. Cada categoria impõe requisitos próprios de segurança. O farol e a câmera térmica do Koala podem ser úteis em buscas; um guincho, quando montado e empregado por profissionais habilitados, permite outra forma de resgate; e o Esquilo pode fornecer mobilidade e reconhecimento. O desafio será transformar essas possibilidades técnicas em escalas, manutenção, treinamento e prontidão ao longo do ano.
Por isso, a compra de outubro ainda tem um capítulo prático pela frente. A Brigada Militar informou que os helicópteros começariam a atender a população nos dias seguintes à entrega, enquanto a redistribuição das bases seria executada conforme o planejamento do Comando de Aviação. A próxima notícia relevante não será outra cerimônia: será saber onde as aeronaves estarão efetivamente disponíveis e como serão empregadas quando surgir a próxima ocorrência que não puder esperar por uma estrada livre.