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Os 25.445 brasileiros que embarcaram para a Itália receberam uniformes de lã do Exército americano, treinaram com armas que nunca tinham visto e só souberam para onde iam depois que o navio já estava no meio do Atlântico

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 08/10/2026 às 12:25
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Os 25.445 brasileiros que embarcaram para a Itália receberam uniformes de lã do Exército americano, treinaram com armas que nunca tinham visto e só souberam para onde iam depois que o navio já estava no meio do Atlântico
Em 6 de outubro de 1944, os 2º e 3º escalões da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que compunham o grosso da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, chegaram a Nápoles, na Itália. Na mesma data, o 1º Grupo de Aviação de Caça desembarcou no Porto de Livorno e foi integrado às forças aéreas aliadas no Teatro de Operações do Mediterrâneo, durante a Segunda Guerra Mundial. Fonte: Arquivo Nacional.

Em 6 de outubro de 1944 desembarcou na Itália o grosso da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, com o 1º e o 11º Regimentos de Infantaria, completando um deslocamento que começou meses antes sob sigilo absoluto e exigiu reequipar um exército inteiro do zero

A data que o Brasil costuma lembrar é 16 de julho de 1944, quando o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira pisou em Nápoles. Mas a FEB não chegou de uma vez. Chegou em levas — e a maior delas desembarcou em 6 de outubro de 1944.

Segundo a linha do tempo mantida pelo Museu Virtual da FEB, do Exército Brasileiro, foi nessa data que alcançou a Itália o grosso da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, transportado no 2º e no 3º escalões e integrado pelo 1º e pelo 11º Regimentos de Infantaria.

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Só a partir daí a FEB passou a ser, de fato, uma divisão. Antes disso era um destacamento.

Um país tropical montando um exército para o inverno europeu

O total enviado à Itália chegou a 25.445 brasileiros — 1.624 oficiais, 23.693 praças e 129 outros militares e civis, conforme o registro consolidado pelo Exército.

Esse número exige um exercício de imaginação logística que raramente é feito.

O Brasil não tinha equipamento de inverno. Não tinha fardamento de lã em escala. Não tinha barraca para neve, nem bota adequada, nem o armamento padrão usado pelos aliados no teatro italiano. O material orgânico das unidades brasileiras era, em grande parte, de origem e padrão diferentes dos empregados pelo V Exército americano, ao qual a FEB seria subordinada.

A solução foi reequipar a tropa com material norte-americano. O que significa que milhares de soldados tiveram de aprender, em questão de semanas, a operar armas e equipamentos que nunca tinham visto antes, com manuais em outra língua.

O sigilo que deixou a tropa no escuro

O deslocamento foi cercado de sigilo. Por razões de segurança — havia submarinos alemães ativos no Atlântico, e navios brasileiros já tinham sido afundados — o destino não era divulgado à tropa antes do embarque.

É um detalhe que costuma aparecer nos depoimentos de veteranos com uma mistura de humor e amargura: o soldado descobria para onde ia depois que não havia mais como descer do navio.

A travessia era feita em transportes americanos, com milhares de homens em alojamentos coletivos, enjoo generalizado e o risco real de ataque submarino. Para boa parte daqueles homens, era também a primeira vez que viam o mar.

Por que o episódio importa além da efeméride

Há uma leitura que se perde quando a FEB é contada apenas como epopeia.

A pergunta mais dura não é se os brasileiros lutaram bem — lutaram, e o registro de combate em Collecchio, Camaiore, Monte Prano e no Vale do Serchio está documentado. A pergunta é por que um país com as dimensões do Brasil levou tanto tempo para colocar uma divisão incompleta em campo, e o que isso revelava sobre a estrutura militar nacional da época.

Créditos: Imagem ilustrativa criada por IA – uso editorial.

O desembarque de outubro de 1944 é a resposta parcial. Levou de julho a outubro para completar o efetivo principal de uma única divisão. O esforço consumiu o que havia de mobilizável, e ainda assim a FEB chegou menor do que o planejamento original previa.

O que ainda está sendo escrito sobre 1944

A pesquisa histórica sobre a FEB continua ativa, e parte substancial da documentação — fichas individuais, relatórios de unidade, correspondência — segue sendo digitalizada e disponibilizada aos poucos pelos acervos oficiais, incluindo o próprio Museu Virtual da FEB.

A cada lote liberado, aparecem nomes que não constavam das listas consolidadas. Oitenta e dois anos depois do desembarque, a conta ainda não fechou.

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