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Nascido escravizado, ele sequestrou um navio a vapor confederado às 3 da manhã com a família a bordo, entregou a embarcação à Marinha dos Estados Unidos e virou deputado federal — e o cruzador batizado com seu nome acaba de deixar o Japão rumo ao último porto antes da desativação, depois de 37 anos de serviço

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 08/10/2026 às 11:50
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Nascido escravizado, ele sequestrou um navio a vapor confederado às 3 da manhã com a família a bordo, entregou a embarcação à Marinha dos Estados Unidos e virou deputado federal — e o cruzador batizado com seu nome acaba de deixar o Japão rumo ao último porto antes da desativação, depois de 37 anos de serviço
À esquerda, o cruzador USS Robert Smalls (CG-62), anteriormente denominado USS Chancellorsville, que deixou Yokosuka, no Japão, em outubro de 2026, com destino a San Diego, antes da desativação prevista para 2027. À direita, Robert Smalls, personagem histórico norte-americano que dá nome ao navio. (Fotos: U.S. Navy/Mass Communication Specialist 2nd Class Jon Dasbach e Divulgação.)

O navio que leva o nome de Robert Smalls deixou o Japão em outubro de 2026 rumo a San Diego, encerrando onze anos de presença no Pacífico Ocidental, e entra na fila de desativação da classe Ticonderoga prevista para o ano fiscal de 2027

Em 13 de maio de 1862, por volta das três da manhã, um homem de 23 anos vestiu o chapéu de palha do capitão, assumiu o leme de um vapor confederado atracado em Charleston e simplesmente saiu do porto.

Robert Smalls era escravizado. Trabalhava como piloto no CSS Planter, um transporte armado da Confederação. Conhecia os sinais de apito usados para passar pelas baterias costeiras — e conhecia a silhueta do capitão bem o suficiente para imitá-la no escuro. Levou a bordo a esposa, os filhos e outros companheiros escravizados. Passou por cada forte confederado sem ser desafiado e entregou o navio, com a carga de armamento a bordo, ao bloqueio naval da União.

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Era simultaneamente uma fuga, um ato de guerra e uma entrega de inteligência.

De piloto fugitivo a deputado federal

A história não parou na fuga, e é por isso que ela sobreviveu.

Smalls virou piloto da Marinha da União, depois capitão. Ao fim da guerra, entrou na política da Carolina do Sul — o mesmo estado de onde havia fugido como propriedade de outra pessoa — e chegou à Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. Comprou, anos depois, a casa em que sua mãe havia sido escravizada.

É o tipo de arco que nenhum roteirista ousaria escrever por medo de parecer forçado.

Por que um cruzador de guerra passou a se chamar Robert Smalls

O navio que hoje leva esse nome não nasceu com ele. O CG-62 foi comissionado em 1989 como USS Chancellorsville — nome de uma batalha vencida pelos confederados. Em 2023, dentro do processo de revisão de homenagens militares a figuras e feitos da Confederação, o cruzador foi rebatizado de USS Robert Smalls.

A troca inverteu o significado da chapa de bronze da proa: de uma vitória escravista para o homem que roubou um navio escravista.

O que de fato aconteceu em outubro de 2026

Aqui é preciso corrigir uma confusão que circulou.

Conforme registrou o USNI News ao noticiar o encerramento do ano fiscal de 2026, a Marinha dos Estados Unidos desativou três navios naquela virada: o navio-doca USS Germantown (LSD-42) e os cruzadores USS Lake Erie (CG-70) e USS Shiloh (CG-67).

O USS Robert Smalls não estava entre eles. O que o cruzador fez foi deixar a base de Yokosuka, no Japão, onde estava desde 2015, e mudar o porto-sede para San Diego — uma última transferência antes da desativação, prevista para o ano fiscal de 2027.

Ainda segundo o USNI News, com a saída de Lake Erie e Shiloh restam cinco cruzadores Ticonderoga em serviço: Robert Smalls, Princeton, Gettysburg, Chosin e Cape St. George. Os quatro primeiros saem no ano fiscal de 2027; o Cape St. George, em 2028.

Comissionado em novembro de 1989, o CG-62 completa, portanto, 37 anos de serviço — e deve ser desativado perto dos 38.

O nome sobrevive ao casco

Quando o cruzador for desativado, o nome Robert Smalls volta à disponibilidade da Marinha americana e, pela prática usual, tende a ser reatribuído a uma unidade futura.

É o detalhe que fecha a história com alguma ironia: o homem que tomou um navio em 1862 continuará, muito provavelmente, tendo um navio com seu nome depois que este sair da água.

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