O navio que leva o nome de Robert Smalls deixou o Japão em outubro de 2026 rumo a San Diego, encerrando onze anos de presença no Pacífico Ocidental, e entra na fila de desativação da classe Ticonderoga prevista para o ano fiscal de 2027
Em 13 de maio de 1862, por volta das três da manhã, um homem de 23 anos vestiu o chapéu de palha do capitão, assumiu o leme de um vapor confederado atracado em Charleston e simplesmente saiu do porto.
Robert Smalls era escravizado. Trabalhava como piloto no CSS Planter, um transporte armado da Confederação. Conhecia os sinais de apito usados para passar pelas baterias costeiras — e conhecia a silhueta do capitão bem o suficiente para imitá-la no escuro. Levou a bordo a esposa, os filhos e outros companheiros escravizados. Passou por cada forte confederado sem ser desafiado e entregou o navio, com a carga de armamento a bordo, ao bloqueio naval da União.
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Era simultaneamente uma fuga, um ato de guerra e uma entrega de inteligência.
De piloto fugitivo a deputado federal
A história não parou na fuga, e é por isso que ela sobreviveu.
Smalls virou piloto da Marinha da União, depois capitão. Ao fim da guerra, entrou na política da Carolina do Sul — o mesmo estado de onde havia fugido como propriedade de outra pessoa — e chegou à Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. Comprou, anos depois, a casa em que sua mãe havia sido escravizada.
É o tipo de arco que nenhum roteirista ousaria escrever por medo de parecer forçado.
Por que um cruzador de guerra passou a se chamar Robert Smalls
O navio que hoje leva esse nome não nasceu com ele. O CG-62 foi comissionado em 1989 como USS Chancellorsville — nome de uma batalha vencida pelos confederados. Em 2023, dentro do processo de revisão de homenagens militares a figuras e feitos da Confederação, o cruzador foi rebatizado de USS Robert Smalls.
A troca inverteu o significado da chapa de bronze da proa: de uma vitória escravista para o homem que roubou um navio escravista.
O que de fato aconteceu em outubro de 2026
Aqui é preciso corrigir uma confusão que circulou.
Conforme registrou o USNI News ao noticiar o encerramento do ano fiscal de 2026, a Marinha dos Estados Unidos desativou três navios naquela virada: o navio-doca USS Germantown (LSD-42) e os cruzadores USS Lake Erie (CG-70) e USS Shiloh (CG-67).
O USS Robert Smalls não estava entre eles. O que o cruzador fez foi deixar a base de Yokosuka, no Japão, onde estava desde 2015, e mudar o porto-sede para San Diego — uma última transferência antes da desativação, prevista para o ano fiscal de 2027.
Ainda segundo o USNI News, com a saída de Lake Erie e Shiloh restam cinco cruzadores Ticonderoga em serviço: Robert Smalls, Princeton, Gettysburg, Chosin e Cape St. George. Os quatro primeiros saem no ano fiscal de 2027; o Cape St. George, em 2028.
Comissionado em novembro de 1989, o CG-62 completa, portanto, 37 anos de serviço — e deve ser desativado perto dos 38.
O nome sobrevive ao casco
Quando o cruzador for desativado, o nome Robert Smalls volta à disponibilidade da Marinha americana e, pela prática usual, tende a ser reatribuído a uma unidade futura.
É o detalhe que fecha a história com alguma ironia: o homem que tomou um navio em 1862 continuará, muito provavelmente, tendo um navio com seu nome depois que este sair da água.