Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

O Brasil celebra o Dia do Aviador em 23 de outubro porque foi nesse dia, diante de uma multidão em Paris, que Santos Dumont tirou do chão um aparelho de 300 quilos que voou 60 metros a 3 metros de altura, e os irmãos Wright passaram o resto da vida contestando o recorde

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 08/10/2026 às 14:28
Compartilhar
O Brasil celebra o Dia do Aviador em 23 de outubro porque foi nesse dia, diante de uma multidão em Paris, que Santos Dumont tirou do chão um aparelho de 300 quilos que voou 60 metros a 3 metros de altura, e os irmãos Wright passaram o resto da vida contestando o recorde
Em 23 de outubro de 1906, o 14-Bis voou 60 metros a cerca de três metros de altura no Campo de Bagatelle, em Paris. Imagem: Reprodução

A data que organiza o calendário da Força Aérea Brasileira nasceu de um voo curto num campo nos arredores de Paris, homologado por uma entidade civil diante de testemunhas, e a disputa sobre quem voou primeiro depende menos de patriotismo do que da definição do que conta como voo

Sessenta metros. É menos que a distância entre duas placas de rua.

Foi isso que o 14-Bis percorreu no Campo de Bagatelle, em Paris, em 23 de outubro de 1906, a cerca de três metros do chão. Pelos padrões de hoje, um salto. Pelos padrões daquele dia, a primeira vez que um aparelho mais pesado que o ar decolou, voou e pousou diante de uma comissão oficial e de uma multidão, sem auxílio externo para sair do solo.

Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora

Entrar no grupo agora

É dessa demonstração que nasce a data celebrada no Brasil como Dia do Aviador, registrada entre as efemérides da aviação brasileira mantidas pelo INCAER, o Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica.

A máquina: um aparelho que voava de trás para frente

O 14-Bis era estranho até para os padrões de 1906.

Tinha configuração canard, com a superfície de controle na frente e não atrás, o que fazia a aeronave parecer voar de ré. A estrutura era de bambu e tecido, montada em células em forma de caixa, derivada dos trabalhos de Lawrence Hargrave com pipas. O motor era um Antoinette. O piloto voava de pé, numa cesta de vime, acionando os controles com o corpo.

O conjunto pesava algumas centenas de quilos e tinha, pelos critérios aerodinâmicos modernos, eficiência péssima. Voava porque Santos Dumont insistiu que voasse.

Onde mora a disputa com os Wright

A controvérsia é mais antiga que a aviação comercial e costuma ser mal explicada dos dois lados.

Os irmãos Wright voaram em Kitty Hawk em dezembro de 1903, três anos antes. O que se discute não é se eles voaram, mas sob quais condições.

Os argumentos a favor de Santos Dumont como primeiro voo reconhecido são de procedimento. O 14-Bis decolou por meios próprios, com rodas, a partir de terreno plano, diante de uma comissão do Aeroclube da França que homologou a marca, e com público e imprensa presentes. Os primeiros voos dos Wright empregaram trilho de lançamento e, nos anos seguintes, catapulta de peso e torre, além de terem ocorrido com pouquíssimas testemunhas e sem homologação por entidade esportiva.

Os argumentos a favor dos Wright são de capacidade. A máquina deles já realizava voos controlados, com curvas e permanência no ar muito superiores, antes de 1906. Ou seja, voava melhor. Só não voava publicamente.

A costura honesta é esta. A pergunta sobre quem voou primeiro não tem resposta única porque nunca houve um critério único. Se o critério é desempenho e controle, os Wright. Se o critério é decolagem autônoma com homologação pública, Santos Dumont. A discussão virou briga nacional justamente porque cada lado adotou o critério que o favorecia e passou um século fingindo que era o único.

Por que a Força Aérea escolheu essa data

A adoção de 23 de outubro como Dia do Aviador amarra o calendário da Aeronáutica a um feito civil, e não militar. É um detalhe que diz algo sobre como a aviação brasileira construiu sua própria identidade.

Santos Dumont nunca foi militar. Era um inventor financiado por fortuna familiar, obcecado por dirigíveis antes de se interessar por aparelhos mais pesados que o ar, e tornou-se posteriormente um crítico amargo do uso bélico da aviação, tema que o perseguiu até o fim da vida.

A instituição que mais celebra sua data é, portanto, exatamente aquela cuja existência ele lamentou.

O que ainda se discute

O acervo documental sobre o 14-Bis, com fotografias, atas de homologação e relatos de imprensa de 1906, é farto e, em boa parte, de domínio público. É o que explica por que o episódio continua rendendo pesquisa nova. O INCAER mantém o registro das efemérides e a bibliografia de referência.

A próxima data chega em 23 de outubro, com as cerimônias habituais da Força Aérea Brasileira. A disputa com os Wright, essa, não vai se resolver. E provavelmente não deve.

guest
0 Comentários