A data que organiza o calendário da Força Aérea Brasileira nasceu de um voo curto num campo nos arredores de Paris, homologado por uma entidade civil diante de testemunhas, e a disputa sobre quem voou primeiro depende menos de patriotismo do que da definição do que conta como voo
Sessenta metros. É menos que a distância entre duas placas de rua.
Foi isso que o 14-Bis percorreu no Campo de Bagatelle, em Paris, em 23 de outubro de 1906, a cerca de três metros do chão. Pelos padrões de hoje, um salto. Pelos padrões daquele dia, a primeira vez que um aparelho mais pesado que o ar decolou, voou e pousou diante de uma comissão oficial e de uma multidão, sem auxílio externo para sair do solo.
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É dessa demonstração que nasce a data celebrada no Brasil como Dia do Aviador, registrada entre as efemérides da aviação brasileira mantidas pelo INCAER, o Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica.
A máquina: um aparelho que voava de trás para frente
O 14-Bis era estranho até para os padrões de 1906.
Tinha configuração canard, com a superfície de controle na frente e não atrás, o que fazia a aeronave parecer voar de ré. A estrutura era de bambu e tecido, montada em células em forma de caixa, derivada dos trabalhos de Lawrence Hargrave com pipas. O motor era um Antoinette. O piloto voava de pé, numa cesta de vime, acionando os controles com o corpo.
O conjunto pesava algumas centenas de quilos e tinha, pelos critérios aerodinâmicos modernos, eficiência péssima. Voava porque Santos Dumont insistiu que voasse.
Onde mora a disputa com os Wright
A controvérsia é mais antiga que a aviação comercial e costuma ser mal explicada dos dois lados.
Os irmãos Wright voaram em Kitty Hawk em dezembro de 1903, três anos antes. O que se discute não é se eles voaram, mas sob quais condições.
Os argumentos a favor de Santos Dumont como primeiro voo reconhecido são de procedimento. O 14-Bis decolou por meios próprios, com rodas, a partir de terreno plano, diante de uma comissão do Aeroclube da França que homologou a marca, e com público e imprensa presentes. Os primeiros voos dos Wright empregaram trilho de lançamento e, nos anos seguintes, catapulta de peso e torre, além de terem ocorrido com pouquíssimas testemunhas e sem homologação por entidade esportiva.
Os argumentos a favor dos Wright são de capacidade. A máquina deles já realizava voos controlados, com curvas e permanência no ar muito superiores, antes de 1906. Ou seja, voava melhor. Só não voava publicamente.
A costura honesta é esta. A pergunta sobre quem voou primeiro não tem resposta única porque nunca houve um critério único. Se o critério é desempenho e controle, os Wright. Se o critério é decolagem autônoma com homologação pública, Santos Dumont. A discussão virou briga nacional justamente porque cada lado adotou o critério que o favorecia e passou um século fingindo que era o único.
Por que a Força Aérea escolheu essa data
A adoção de 23 de outubro como Dia do Aviador amarra o calendário da Aeronáutica a um feito civil, e não militar. É um detalhe que diz algo sobre como a aviação brasileira construiu sua própria identidade.
Santos Dumont nunca foi militar. Era um inventor financiado por fortuna familiar, obcecado por dirigíveis antes de se interessar por aparelhos mais pesados que o ar, e tornou-se posteriormente um crítico amargo do uso bélico da aviação, tema que o perseguiu até o fim da vida.
A instituição que mais celebra sua data é, portanto, exatamente aquela cuja existência ele lamentou.
O que ainda se discute
O acervo documental sobre o 14-Bis, com fotografias, atas de homologação e relatos de imprensa de 1906, é farto e, em boa parte, de domínio público. É o que explica por que o episódio continua rendendo pesquisa nova. O INCAER mantém o registro das efemérides e a bibliografia de referência.
A próxima data chega em 23 de outubro, com as cerimônias habituais da Força Aérea Brasileira. A disputa com os Wright, essa, não vai se resolver. E provavelmente não deve.