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O último voo do Catalina da FAB aconteceu em 1982 encerrando quase quatro décadas de missões: avião anfíbio ligou a Amazônia e combateu submarinos na guerra

Em 12 de junho de 1982, o Catalina FAB 6525 fez o voo de despedida nos Afonsos. O avião anfíbio encerrou quase 40 anos de missões que ligaram rios amazônicos ao litoral em guerra

Bassani
Por Bassani 31/10/2026 às 20:56
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O último voo do Catalina da FAB aconteceu em 1982 encerrando quase quatro décadas de missões: avião anfíbio ligou a Amazônia e combateu submarinos na guerra
Em 12 de junho de 1982, o Catalina FAB 6525 fez o voo de despedida nos Afonsos. O avião anfíbio encerrou quase 40 anos de missões que ligaram rios amazônicos ao litoral em guerra

No dia 12 de junho de 1982, uma aeronave que havia ajudado a ligar comunidades isoladas da Amazônia ao restante do Brasil levantou voo pela última vez com as marcas da Força Aérea Brasileira. Era o Catalina FAB 6525, protagonista da cerimônia de despedida realizada na Base Aérea dos Afonsos, no Rio de Janeiro. O encerramento de sua atividade representou mais do que a aposentadoria de um modelo antigo: marcou o fim de quase quatro décadas de operações de aviões anfíbios que haviam servido tanto à guerra no Atlântico quanto ao Correio Aéreo Nacional.

O Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica (INCAER) registra esse último voo em suas efemérides oficiais. A data também foi escolhida por coincidir com o aniversário do Correio Aéreo Nacional. Àquela altura, o Catalina já pertencia a uma época diferente da aviação militar. Mesmo assim, suas características explicam por que ele se tornou tão importante em lugares onde a pista de pouso podia ser um rio.

Registro histórico da cerimônia de transferência de aviões Catalina para a FAB em dezembro de 1944
Registro da entrega de quinze aviões Catalina à FAB em dezembro de 1944. Fotografia histórica de contexto, não da despedida do FAB 6525 em 1982. Crédito: Acervo Arquivo Nacional, Fundo Agência Nacional. Licença: Domínio público. Página de origem e direitos.

Do combate a submarinos alemães às rotas sobre a selva

A Força Aérea Brasileira começou a operar aviões da família Catalina em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial. O modelo havia sido desenvolvido nos Estados Unidos e, em suas diferentes versões, também recebeu produção canadense. Sua configuração era singular: dois grandes motores sobre a asa, um casco preparado para pouso na água e, nas versões anfíbias, rodas que permitiam utilizar pistas terrestres.

Na guerra, a capacidade de permanecer horas no ar e patrulhar grandes áreas oceânicas era especialmente valiosa. As rotas marítimas brasileiras estavam ameaçadas por submarinos alemães, responsáveis por ataques contra embarcações no Atlântico Sul. Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 31 de julho de 1943, quando um Catalina brasileiro chamado Arará participou da ação que afundou o submarino U-199 perto do Rio de Janeiro, conforme documentação examinada pelo Iphan.

Mas a função dos Catalinas não terminou com o conflito. A aviação brasileira passou a empregar essas aeronaves em missões de transporte e apoio a localidades remotas. No interior amazônico, onde rios fazem parte da rede de comunicação e muitas áreas não dispunham de aeródromos apropriados, a possibilidade de operar na água era uma solução prática.

Submarino alemão U-199 sob ataque de aeronave Catalina brasileira em 31 de julho de 1943
Submarino U-199 durante ação aérea brasileira em julho de 1943. O registro ilustra as missões de guerra dos Catalinas, não o voo de despedida de 1982. Crédito: Força Aérea Brasileira / DPHDM e INCAER. Licença: CC BY-SA 4.0. Página de origem e direitos.

Para muitas cidades amazônicas, o rio fazia o papel de aeroporto

O Catalina ficou conhecido por realizar missões do Correio Aéreo Nacional, transportando pessoas e materiais em regiões difíceis de alcançar por terra. O Museu Aeroespacial, no Rio de Janeiro, destaca o serviço prestado à população amazônica ao longo desse período. Não é preciso imaginar aeroportos modernos em cada parada para entender a vantagem: um avião anfíbio podia utilizar uma superfície aquática adequada, desde que as condições de segurança permitissem.

Essa capacidade não significava que qualquer trecho de rio servisse para um pouso. Correnteza, obstáculos, profundidade, vento, visibilidade e extensão livre eram fatores decisivos. Ainda assim, a flexibilidade ampliava as opções de acesso a comunidades muito distantes das principais cidades. Em um país com dimensões continentais, o alcance de uma aeronave e a possibilidade de pousar sem uma pista convencional podiam reduzir deslocamentos de dias.

Uma ficha do Museu Aeroespacial referente ao Catalina C-10A preservado pela instituição informa envergadura de 31,72 metros, comprimento de 19,52 metros e alcance de cerca de 4.030 quilômetros para aquela configuração. São números que ajudam a visualizar o porte da aeronave. Não devem, porém, ser confundidos com o registro de um voo específico do FAB 6525, cuja despedida aconteceu em 1982.

O FAB 6525 se tornou o rosto da despedida da frota

A história do último voo tem um detalhe importante: a FAB usou o Catalina FAB 6525 em cerimônias de despedida realizadas em diferentes lugares do país. O opúsculo histórico do INCAER sobre a aeronave menciona Florianópolis, Salvador, Natal e localidades da Região Amazônica entre os locais que acompanharam a retirada dos aparelhos. O encerramento oficial aconteceu depois, em 12 de junho, na Base Aérea dos Afonsos.

O INCAER atribui a retirada de serviço a uma combinação de obsolescência e dificuldades de suprimento. A expressão é simples, mas concentra dois problemas para qualquer frota militar antiga. Peças e manutenção tornam-se progressivamente mais difíceis de obter, enquanto a necessidade de manter a aeronave disponível exige um esforço técnico que pode superar suas vantagens operacionais.

Isso não retira o valor dos serviços prestados. Uma aeronave pode ter sido essencial durante décadas e, ainda assim, chegar a um ponto em que sua continuidade deixe de ser viável. O último voo do 6525 assinalou essa passagem: o Brasil despedia-se de um equipamento que havia sido instrumento de defesa costeira e, em seguida, de integração regional.

O avião que encerrou a operação não é o mesmo preservado no Rio

Depois da desativação, parte dos Catalinas brasileiros foi vendida em leilão público. Segundo a pesquisa histórica do INCAER, o FAB 6525 foi adquirido para destino nos Estados Unidos, com matrícula civil N4934H. Esse percurso é diferente da história do FAB 6527, que permaneceu associado ao Museu Aeroespacial e se tornou peça de preservação da memória aeronáutica brasileira.

A diferença entre os dois números é importante porque imagens atuais do museu mostram frequentemente o 6527. Ele tem a mesma família de aeronaves do último Catalina operacional, mas não é o avião que realizou a despedida oficial em 12 de junho de 1982. Apresentar uma fotografia do 6527 como se fosse registro do último voo do 6525 distorceria o episódio.

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O 6527, por sua vez, ganhou uma segunda vida como patrimônio histórico. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional participou do processo de proteção de aeronaves Catalina preservadas, e o Museu Aeroespacial apresentou o exemplar restaurado em 2025. A restauração envolveu trabalho de conservação para manter suas características físicas, décadas depois da retirada de serviço.

A importância do Catalina não se mede só pelo seu tempo em voo

Documentação do Iphan informa que a FAB operou 33 aeronaves Catalina entre 1943 e 1982. Nesse intervalo, o Brasil passou da ameaça de guerra submarina às grandes tarefas de integração e atendimento aéreo em áreas distantes. A mesma família de aeronaves atravessou, assim, dois momentos muito diferentes da história brasileira: a defesa do litoral em guerra e as rotas de integração na Amazônia.

O Catalina também recorda uma etapa específica da relação entre tecnologia e geografia. Ele não substituía estradas nem uma rede de aeroportos; oferecia uma alternativa quando essas infraestruturas eram insuficientes. O conhecimento necessário para operar sobre rios e áreas remotas envolvia tripulações, pessoal de manutenção e planejamento logístico, não apenas as características da máquina.

O Museu Aeroespacial continua permitindo que o público conheça essa história por meio de um exemplar preservado. O último voo operacional do Catalina na FAB, entretanto, permanece vinculado ao 6525 e ao dia 12 de junho de 1982, na Base Aérea dos Afonsos. São esses dois registros, a despedida e a preservação de outro avião da mesma família, que ajudam a explicar como uma aeronave aposentada pode continuar presente na memória da aviação brasileira.

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