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A guerra fisiológica da FIFA contra a Argentina

A guerra fisiológica da FIFA contra a Argentina
Argentina e FIFA imagem ilustrativa

A SeleçãoArgentina chegou à final da Copa do Mundode 2026 com um acentuado desgaste fisiológico. A aguerrida equipe de Messi & Cia. foi à final após ter jogado duas prorrogações: contra Cabo Verde e Suíça; e também com um dia a menos de descanso, pois jogou a semifinal contra a Inglaterra na quarta-feira, enquanto a Espanha enfrentou a França na terça-feira. Essa desvantagem fisiológica da Seleção Argentina ficou evidente na final.

Durante a segunda fase da Copa do Mundo, o tempo de recuperação antes da partida seguinte talvez não tenha sido o necessário e suficiente. Por isso, é fundamental essas equipes implementarem estratégias de recuperação e controlar a carga de trabalho dos jogadores.

Uma equipe pode apresentar bom desempenho sem usar algumas dessas estratégias, mas apenas quando uma única partida é disputada, com bastante tempo de descanso anterior.

Essas estratégias de recuperação fisiológica são essenciais porque partidas consecutivas reduzem significativamente o tempo de recuperação. E são ainda mais importantes quando uma das equipes jogou uma prorrogação; e a adversária, não.

E é exatamente essa a situação que a Seleção Argentina enfrentou frente à Espanha, no domingo da final da Copa.

A Copa do Mundo de 1994 foi a última vez em que todas as seleções semifinalistas jogaram no mesmo dia. Em todas as edições da Copa do Mundo que ocorreram depois,uma das semifinalistas teve um dia a mais para se recuperar antes da final, pois as semifinais foram disputadas em dias diferentes.

Desde a Copa do Mundo 1994 até à de 2026, foram disputadas oito edições do torneio. Nas oito que foram disputadas, cinco seleções que tiveram um dia a mais de descanso antes da final, acabaram conquistando o título.

Apenas duas seleções quebraram essa tendência: a França. em 1998; e o Brasil. em 2002, pois ganharam a final com um dia menos de descanso. Obviamente, seria necessário examinar dados adicionais no calendário de outrascompetições para determinar se existe alguma relação entre ter um dia a mais de descanso e o sucesso.

No entanto, do ponto de vista do paradigma da Fisiologia do Exercício, um dia a mais de descanso antes da final, após uma sequência exaustiva de partidas consecutivas aolongo da competição, é um dado significativo. Esse dia a mais de descanso no final da jornada, logo antes da final, pode fazer a diferença.

A Seleção Argentina foi vítima do que chamo FUCO — Fatigue unresolved carry over (Fadiga residual não-resolvida),que descreve a dificuldade e os desafios de uma equipe em se recuperar plenamente, após muitas partidas consecutivas.

Vale lembrar que a Seleção Argentina esteve em uma situação muito difícil contra a Seleção Suíça, minutos antes de o atacante Embolo ter sido expulso, infantilmente.

Já naquela partida, a Argentina jádemonstravaestar “baleada”, sob os efeitos do FUCO. Só após a expulsão de Embolo, a Argentina passou a dominar, pois então jogava com um elemento a mais. A sorte estava do seu lado.

É difícil ignorar o fato de que todas as seleções  entraram nessa Copa após terminarem exaustivas temporadas em seus campeonatos nacionais e continentais, além de terem que enfrentar, nos Estados Unidos, temperaturas elevadas, às quais não lhes seria fácil se adaptar.

A segunda fase da Copa oferece excelente oportunidade para aplicar conhecimentos da Fisiologia e melhorar a recuperação dos jogadores. Se uma equipe não quiser sucumbir aoFUCO, é fundamental o apoio da Ciência.

Nas últimas décadas, a Fisiologia do Exercício registrou significativos avanços. Esportes como o Ciclismoe o Atletismo foram pioneiros na incorporação de modernos métodos de recuperação. Além deles, muitas unidades de forças militares especiais adotaram essas técnicas, aprimorando o desempenho físico e eficácia dos integrantes. Muitas adotaram uma abordagem inovadora e vanguardista, experimentando uma ampla gama de técnicas em vários domínios da Fisiologia para atingir o máximo desempenho. Elas adaptaram suas estratégias para atender às necessidades fisiológicas específicas de cada elemento, demonstrando notável flexibilidade. Tive a oportunidade de observar essas práticas de perto e posso atestar esse espírito inovador.

Seguindo essa tendência, muitas equipes estão agora agregando abordagens semelhantes, com alguns países se destacando mais do que outros. Instituições escandinavas de pesquisa,de renome internacional, estabeleceram um alto padrão desde os primórdios da Fisiologia do Exercício.

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Ao contrário da crença popular, muitas vezes os jogadores precisam de um tempo significativo para se recuperar entre as partidas. Após uma contenda especialmente exigente, o sistema musculoesquelético dos jogadores pode sofrer consideráveis alterações.

Alguns aspectos da recuperação levam até semanas para serem totalmente restaurados. Essas estratégias são cruciais quando o intervalo entre as partidas deixa pouco tempo para recuperação.

 Na final da Copa do Mundo 2026, a Seleção Argentina sofreu as dificuldades da FUCO e, mesmo com a sua conhecida garra,não foi capaz de superar o desafio, em decorrência da exaustão acumulada ao longo da competição.

As Comissões Técnicas devem promover estratégias de controle para evitar que os jogadores atinjam um estado de esgotamento físico. Os responsáveis precisam adotar uma dupla estratégia: controlar meticulosamente a carga de exercício entre as partidas e adotar adequados protocolos de recuperação.

O conhecimento dessa dinâmica dupla — controle da carga e estratégias de suplementação — não é comum no futebol. Mesmo em países com acesso a esse conhecimento, não é incomum que um treinador dêemmenos importância à implementação dessas estratégias.

É surpreendente o que algumas Comissões Técnicas fazem com seus jogadores nas 48 horas que antecedem a uma partida. Essa questão persiste há décadas, com histórico de absurdas cargas de treinamento, utilizadas antes de jogos importantes, tendo muitas ocorrido nas Copas do Mundo da década de 1980.

O lendário treinador argentino Carlos Salvador Billardo foi um grande observador dessas tendências acima mencionadas. Ele percebeu o que, até hoje, muitos continuam ignorando.

Billardo, um visionário, que tinha formação em Medicina, era detalhista e prestava minuciosa atenção ao controle das cargas de treinamento entre as partidas da seleção campeã na Copa do México, em 1986.

Conversando com alguns jogadores da Seleção de 1986, fiquei surpreso ao perceber que Bilardo havia adotado esses princípios científicos muito antes de seus contemporâneos. Ele era inovador e adotava modernos conceitos científicos.

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Tanto a Espanhaquanto a Argentina conquistaram vitórias impressionantes contra seus adversários nas semifinais, com ambas as partidas sendo decididas no tempo regulamentar, evitando a prorrogação.

Essas duas seleções possuem uma dinâmica de equipe coesa, que joga em perfeita harmonia. O individualismo, o estrelismo e vedetismo que assola outras seleções estão ausentes dessa duas. Elas são, de fato, as duas melhores do Mundo.

Com uma impressionante mescla de talento individual e forte coesão tática, a Espanha representou um desafio considerável para a Argentina.

Apesar da desvantagem fisiológica que descrevemos acima, a Seleção Argentina, em outras situações, se recusou a perder, mostrando sua indiscutível resiliência. Seus jogadores têm a determinação de nunca se renderem; seu espírito indomável e coesão foram mais do que evidentes até mesmo na final.

Foram equipes unidas, cujos integrantes estiveram sempre em sintonia uns com os outros e lutaram por uma causa que transcende quaisquer interesses e aspirações individuais. Ao longo da competição,demonstraram um aguerrido espirito coletivo, carregando as esperanças de seus compatriotas, em um inegável vínculo com a História e a Cultura das suas Nações.O desejo e a gana de vitórias vão além de meras estatísticas.

A Seleção Argentina possui sólidos elementos estratégicos e táticos que, no entanto, não foram suficientes para garantir mais um título mundial.

O calendário das semifinais concedeu vantagem à Espanha

Da mesma forma, na Copa do Mundo de 2014, a Argentina chegou à final contra a Alemanha com um dia a menos de descanso. Além disso, teve que disputar uma prorrogação na semifinal. Esses dois fatores provavelmente contribuíram para a derrota naquela final. Em uma reviravolta do destino, em 2022, foi a Argentina que contou com um dia a mais de descanso antes da final contra a França e conquistou seu terceiro título.

A FIFA deveria voltar ao formato das Copas anteriores, em que os dois semifinalistas disputam suas partidas no mesmo dia. O fato de não terem feito isso indica claramente que suas prioridades estão desalinhadas, e que o conceito de fair play se tornou nada mais do que um slogan vazio.

Sobre o Autor

Ricardo Guerra é Fisiologista do Exercício e tem Mestrado em Fisiologia Esportiva, pela Liverpool John Moores University. Trabalhou com vários clubes de futebol no Oriente Médio e Europa, incluindo as seleções do Egito e do Catar. Em 2015, foi Fisiologista do Exercício do Olympique de Marseille, época em que o time chegou à final da Copa da França contra o PSG.

Ricardo detém a mais importante licença de treinador da FA — Associação de Futebol da Inglaterra e também da UEFA — União das Associações Europeias de Futebol.

Viajou pelo Mundo, coletando dados e quantificando a capacidade fisiológica de jogadores de diversos continentes. Seus artigos foram publicados em mais de cinco idiomas em várias organizações de notícias.

Atualmente, o fisiologista está radicado nos Estados Unidos, é candidato a PhD em Fisiologia do Exercício, está escrevendo um livro sobre o futebol brasileiro. Recentemente, o autor prestou consultoria para núcleos da Policia Italiana. Ele também é formado pela academia de polícia do estado da Florida nos EUA.

Ricardo aprimorou sua experiência nas técnicas de treinamento da modalidade strongman trabalhando em estreita colaboração com alguns dos principais competidores do mundo. Sendo um entusiasta dessa forma de treinamento, ele adaptou esses métodos para atender às necessidades fisiológicas de vários esportes.
Ele pode ser contatado pelo e-mail rvcgf@hushmail.com

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Editoria & colaboradores

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Artigos da editoria principal e textos recebidos de especialistas e profissionais ligados às Forças Armadas, Forças Auxiliares, segurança pública etc.