A Força Aérea Brasileira alertou o Ministério da Defesa de que o bloqueio de aproximadamente R$ 1,45 bilhão no Orçamento de 2026 pode comprometer o abastecimento da frota e não garante a operação das aeronaves até dezembro.
A avaliação consta em documento obtido pelo Metrópoles, segundo o qual a restrição alcançou combustíveis de aviação, manutenção, fornecimento de material aeronáutico, infraestrutura militar e projetos estratégicos da Aeronáutica.
Aeronaves podem voar menos
O alerta não significa que todos os aviões da FAB ficarão imediatamente parados ou que o combustível já tenha acabado.
A própria Força informou, entretanto, que o dinheiro disponível após o bloqueio não permite o adestramento completo de todas as tripulações operacionais e pode ser insuficiente para sustentar o planejamento aéreo até o fim de 2026.
Na aviação militar, o treinamento não envolve somente pilotos.
Mecânicos, operadores de sistemas, tripulantes, controladores e equipes de apoio precisam cumprir atividades periódicas para preservar qualificações e manter a segurança das operações.
A diminuição das horas de voo pode reduzir exercícios de combate, treinamentos de transporte, reabastecimento aéreo, lançamento de cargas, evacuação aeromédica e preparação para missões de longa duração.
Com menos recursos, a FAB passou a concentrar sua capacidade em atividades consideradas essenciais.
Entre as prioridades apresentadas estão missões de defesa aérea, busca e salvamento, instrução aérea e transporte de órgãos destinados a transplantes.
Gripen perdeu R$ 800 milhões
Dos R$ 1,45 bilhão atingidos, aproximadamente R$ 1,015 bilhão estavam vinculados ao Novo PAC, enquanto outros R$ 435,7 milhões pertenciam a despesas discricionárias da Aeronáutica, conforme os números divulgados pelo Metrópoles.
O maior impacto individual recaiu sobre o Projeto F-X2, responsável pelo desenvolvimento e pela aquisição dos caças F-39 Gripen.
O programa teve R$ 800 milhões bloqueados no Orçamento de 2026.
O contrato original prevê 36 aeronaves, sendo 28 unidades monoposto F-39E e oito caças bipostos F-39F, além de simuladores, sistemas de planejamento, apoio logístico e transferência de tecnologia.
O Gripen alcançou um novo estágio operacional no início de 2026, quando passou a integrar oficialmente o sistema de Alerta de Defesa Aérea.
Essa missão mantém aeronaves e equipes preparadas para decolar rapidamente diante de voos suspeitos ou ameaças ao espaço aéreo brasileiro.
A FAB também empregou seis caças F-39E no exercício multinacional Salitre 2026, no Chile, primeira operação internacional do modelo desde sua incorporação à aviação de caça brasileira.
Força considera lote inicial insuficiente
O bloqueio ocorreu enquanto a Aeronáutica busca ampliar o número de caças disponíveis.
Em resposta encaminhada ao Congresso, a FAB informou que considera insuficiente o lote inicial de 36 Gripen e calcula que uma frota de 66 aeronaves seria mais adequada às necessidades da Defesa Nacional.
Por essa razão, o Comando da Aeronáutica declarou que existe a intenção de adquirir lotes adicionais do F-39.
Segundo o Metrópoles, dez aeronaves haviam sido entregues à FAB até julho de 2026, enquanto as demais unidades do primeiro contrato devem ser incorporadas gradualmente.
A Força também pretende utilizar novos Gripen para substituir os caças A-1 AMX, que se aproximam do fim de sua vida operacional.
A Aeronáutica afirmou que não considera, neste momento, comprar um modelo intermediário para preencher o espaço entre a retirada do AMX e a chegada de mais F-39.
KC-390 também foi atingido
O programa do KC-390 Millennium sofreu bloqueio de aproximadamente R$ 215,8 milhões.
Desenvolvido pela Embraer a partir de requisitos da FAB, o cargueiro atua no transporte de militares e equipamentos, lançamento de paraquedistas e cargas, evacuação aeromédica, combate a incêndios e reabastecimento em voo.
A combinação entre KC-390 e Gripen ampliou o alcance da aviação de caça brasileira.
Com um único reabastecimento aéreo, o F-39 pode alcançar regiões fronteiriças localizadas a aproximadamente 3 mil quilômetros de sua base em Anápolis, segundo a FAB.
O bloqueio simultâneo dos dois programas alcança aeronaves que devem operar de forma integrada em missões de defesa e deslocamentos de longa distância.
Além das parcelas associadas aos projetos, a FAB relatou redução nas verbas destinadas ao suprimento de peças e à manutenção de material aeronáutico.
Sem inspeções, componentes e reparos realizados no momento correto, uma aeronave pode ficar temporariamente indisponível mesmo quando existe combustível para operá-la.
Reposição teria prioridades definidas
O bloqueio orçamentário não corresponde necessariamente a uma retirada definitiva do dinheiro.
Dependendo do comportamento das contas públicas, o governo pode recompor total ou parcialmente os valores durante o exercício.
A FAB informou que, caso os recursos sejam liberados, pretende priorizar o Projeto Gripen, a manutenção do material aeronáutico, a compra de combustível de aviação e as obras de infraestrutura militar.
O governo e o Congresso também discutem mecanismos para recuperar investimentos da Defesa atingidos pelas restrições orçamentárias, incluindo a possibilidade de retirar determinadas despesas dos limites fiscais.
Enquanto a recomposição não ocorre, a Aeronáutica precisa ajustar treinamentos, contratos e horas de voo ao dinheiro efetivamente disponível, preservando primeiro as missões que não podem ser interrompidas.