O Brasil está sendo pressionado por ameaças que avançam simultaneamente pelas fronteiras, pelos grandes centros urbanos e pelo ambiente digital. Durante uma apresentação no quartel-general do Exército, em Brasília, o general Carlos Eduardo Barbosa da Costa, comandante do Centro de Inteligência do Exército (CIE), apresentou dados que dimensionam o alcance dessas ações.
O levantamento reúne organizações criminosas, grupos armados estrangeiros, redes internacionais de narcotráfico e atores envolvidos em operações cibernéticas. O número mais alarmante apareceu perto do fim da exposição: em 2025, o CIE contabilizou mais de 754 bilhões de tentativas de intrusão em sistemas digitais no Brasil.
No campo do narcotráfico, a inteligência militar estima que pelo menos 250 toneladas de cocaína deixem o território brasileiro todos os anos. O fluxo geraria uma receita bruta próxima de R$ 50 bilhões.
A apresentação, de cerca de 20 minutos, foi acompanhada pelo jornalista Marcelo Godoy, do Estadão, e revelou como a inteligência do Exército organiza sua leitura das ameaças atuais. O cenário não se resume ao Comando Vermelho e ao Primeiro Comando da Capital. Envolve grupos estrangeiros, dissidentes das antigas Farc, mineração ilegal, extorsão, ataques contra infraestruturas e operações voltadas à obtenção de dados sensíveis.
Inteligência do Exército identifica organizações com capacidade financeira e controle territorial
O general Carlos Eduardo dividiu as ameaças não estatais em três grandes blocos: bandos organizados, organizações criminosas e estruturas envolvidas em ações cibernéticas. Parte desses grupos já exerce, segundo a avaliação apresentada pelo CIE, um “controle territorial limitado”, capaz de desafiar o poder público e gerar instabilidade.
A expressão é importante. O Exército não afirma que essas organizações substituíram o Estado de forma ampla, mas reconhece que há regiões nas quais grupos criminosos conseguem impor regras, restringir a circulação de pessoas e explorar atividades ilegais com poder armado e capacidade financeira elevada.
Segundo o comandante do CIE, as organizações criminosas operam com lucros muito acima da média e mantêm cadeias de atuação que não encontram limites claros. O dinheiro obtido com drogas, armas, mineração ilegal e extorsão é reinvestido na ampliação das próprias redes criminosas.
Não é apenas uma questão policial. Quando grupos estrangeiros passam a explorar recursos, extorquir brasileiros e circular armados dentro do território nacional, o problema toca diretamente a soberania, mesmo que a resposta principal continue sob responsabilidade das forças de segurança pública.
O próprio general fez essa distinção. Para ele, algumas dessas organizações ameaçam parte da Defesa Nacional, mas isso não significa que as Forças Armadas devam assumir o protagonismo permanente no combate ao crime organizado.
A cautela evita o que o comandante classificou como uma “armadilha da securitização”: transformar problemas complexos de segurança pública em questões exclusivamente militares.
Brasil está no centro da rota que liga os maiores produtores de cocaína aos mercados internacionais
A posição geográfica do Brasil ajuda a explicar por que o país ocupa lugar central na logística internacional da droga. O território brasileiro faz fronteira com Colômbia, Peru e Bolívia, apontados como os três maiores produtores de cocaína do mundo, além do Paraguai, principal produtor regional de maconha.
Grande parte da droga destinada à Europa, à África, à Ásia e à Oceania encontra no Brasil uma rota de passagem. O tamanho da fronteira terrestre, a extensão dos rios amazônicos, a costa atlântica e a estrutura de portos e aeroportos transformam o país em um entreposto estratégico.
“Estamos exatamente dentro do fluxo da cadeia logística”, afirmou o comandante do CIE durante a apresentação.
O Primeiro Comando da Capital domina a chamada Rota Caipira e, segundo a inteligência militar, mantém contato com cinco grupos criminosos no Peru e na Bolívia. A facção também teria ligação com o Tren de Aragua, organização venezuelana com presença identificada em Roraima.
O Comando Vermelho, por sua vez, manteria relações com um cartel peruano e com dois Grupos Armados Organizados Residuais, conhecidos pela sigla GAOR. Essas estruturas são formadas por dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc.
A articulação utiliza principalmente a Rota do Solimões, uma das principais vias de entrada e distribuição de cocaína pela Amazônia. A partir dali, as cargas seguem para grandes centros consumidores, portos e pontos de exportação.
Na região conhecida como Cabeça do Cachorro, no noroeste do Amazonas, três grupos colombianos ligados ao Comando Vermelho não estariam restritos ao narcotráfico. A inteligência do Exército aponta envolvimento com mineração ilegal e extorsões realizadas dentro do território brasileiro.
Essa é uma das áreas mais sensíveis da fronteira norte. Pelotões Especiais de Fronteira e brigadas de Infantaria de Selva operam em um ambiente marcado por rios extensos, comunidades isoladas, baixa presença de serviços públicos e grande dificuldade logística.
Mercado interno movimenta até 200 toneladas de cocaína e 8 mil toneladas de maconha por ano
Os cálculos apresentados pelo Centro de Inteligência do Exército indicam que o mercado brasileiro consome anualmente cerca de 8 mil toneladas de maconha e skunk. O volume de cocaína destinado ao consumo interno varia entre 170 e 200 toneladas por ano.
Essa movimentação produziria uma receita bruta de aproximadamente R$ 30 bilhões.
O valor cresce quando entram na conta as cargas que apenas atravessam o território nacional. A estimativa mínima do CIE aponta que 250 toneladas de cocaína saem do Brasil a cada ano, gerando uma receita próxima de R$ 50 bilhões.
Os números ajudam a entender por que o narcotráfico transnacional aparece entre as principais preocupações da inteligência militar. Com esse volume de recursos, grupos criminosos conseguem adquirir armamentos, corromper agentes, ampliar redes logísticas e disputar territórios estratégicos.
O problema também ultrapassa as fronteiras nacionais. Facções brasileiras deixaram de atuar apenas como compradoras ou distribuidoras de drogas. Em vários casos, passaram a estabelecer relações diretas com produtores, grupos armados estrangeiros e organizações responsáveis pelo transporte internacional.
Esse movimento reduziu intermediários e aumentou a margem de lucro. Também elevou o grau de complexidade das investigações e das operações de repressão.
CIE registrou 754 bilhões de tentativas de intrusão digital em 2025
O ambiente cibernético ocupa uma parte cada vez maior da agenda do Exército. Segundo o general Carlos Eduardo, o CIE registrou mais de 754 bilhões de tentativas de intrusão em sistemas localizados no Brasil ao longo de 2025.
O comandante afirmou que parte dessas ações foi bem-sucedida devido à fragilidade de instituições públicas e privadas.
Nem todos os registros representam ataques sofisticados ou operações conduzidas diretamente por governos estrangeiros. O total reúne varreduras automatizadas, tentativas de exploração de vulnerabilidades, ações criminosas, espionagem e campanhas com motivação ideológica.
Ainda assim, a escala revela a pressão permanente sobre redes brasileiras.
As ameaças são classificadas como híbridas porque podem envolver atores estatais e não estatais. Grupos de hackers aparentemente independentes podem receber financiamento, infraestrutura ou orientação de governos interessados em espionagem, sabotagem ou desinformação.
Esse é um dos pontos mais difíceis da defesa cibernética: identificar quem realmente está por trás de uma operação. Um ataque pode ser executado por criminosos, ativistas digitais, empresas clandestinas ou estruturas apoiadas por Estados, muitas vezes utilizando servidores localizados em diferentes países.
O general também destacou a dimensão cognitiva das ameaças. Campanhas de desinformação, manipulação de narrativas e operações psicológicas podem produzir efeitos políticos e sociais sem a necessidade de destruir fisicamente uma infraestrutura.
Vazamento da Dígitro expôs 3,39 TB de dados ligados a sistemas de inteligência
Durante a mesma exposição, o general Jacy Barbosa Júnior, comandante da Defesa Cibernética, apresentou casos recentes que demonstram o impacto dessas ações.
Em 8 de abril de 2026, um ataque contra a cadeia de suprimentos da Dígitro Tecnologia resultou no vazamento de aproximadamente 3,39 terabytes de dados. O material incluía bancos de dados, códigos-fonte e arquivos internos relacionados a soluções de inteligência e interceptação legal.
A empresa é responsável pelo Sistema Guardião, utilizado por forças policiais brasileiras em interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça.
Segundo o general, nove de cada dez empresas do setor de segurança no Brasil trabalham com sistemas da Dígitro. Os dados extraídos foram disponibilizados para download na plataforma Distributed Denial of Secrets, conhecida como DDoSecrets.
A avaliação apresentada pela Defesa Cibernética é de que a motivação do grupo responsável pelo ataque não seria financeira, mas ideológica. Seus integrantes se apresentariam como sucessores do WikiLeaks.
O episódio mostra como um ataque contra uma empresa privada pode alcançar diversos órgãos públicos ao mesmo tempo. Ao comprometer um fornecedor estratégico, o invasor consegue atingir toda a cadeia de clientes que utiliza seus produtos ou serviços.
Esse tipo de operação ganhou espaço porque muitas instituições protegem seus próprios sistemas, mas não aplicam o mesmo rigor na fiscalização dos fornecedores.
Ataque derrubou serviços do governo federal em junho de 2025
Outro caso mencionado ocorreu em 24 de junho de 2025. Segundo o general Jacy Barbosa Júnior, uma ação de negação de serviço afetou praticamente todo o governo federal.
O ataque atingiu o domínio gov.br e provocou efeitos em sistemas da Polícia Federal, da Agência Brasileira de Inteligência, do Instituto Nacional do Seguro Social e do Conecte SUS.
Ataques de negação de serviço sobrecarregam servidores com um volume artificial de acessos, impedindo que usuários legítimos utilizem as plataformas. Mesmo quando não há roubo de dados, a interrupção pode comprometer serviços públicos essenciais.
Na avaliação da Defesa Cibernética, espionagem, desinformação e ataques contra infraestruturas críticas devem ser tratados como ameaças ao Estado. A distância física deixou de ser uma barreira. Um grupo localizado fora do país pode interromper sistemas, obter informações sigilosas ou comprometer serviços sem atravessar a fronteira.
Essa realidade obriga o Exército a rever métodos de inteligência construídos tradicionalmente em torno de fontes humanas.
Formação de operador cibernético leva cinco anos e custa cerca de R$ 300 mil
O sistema de inteligência do Exército foi estruturado durante décadas com forte dependência de fontes humanas. Desde 2010, porém, a expansão das fontes tecnológicas alterou a rotina do CIE e aumentou a demanda por profissionais altamente especializados.
Segundo a apresentação, a formação de um operador cibernético leva aproximadamente cinco anos e custa em torno de R$ 300 mil.
O investimento envolve capacitação técnica, treinamento contínuo e atualização permanente. A velocidade das mudanças tecnológicas reduz rapidamente a validade de conhecimentos adquiridos, exigindo novos cursos e exercícios.
A tropa continua sendo utilizada como sensor em regiões de fronteira e em áreas operacionais. No ambiente digital, entretanto, o Exército precisa de especialistas capazes de coletar, interpretar e transformar grandes volumes de dados em inteligência útil.
Esse é um desafio comum às Forças Armadas de diversos países. Equipamentos podem ser adquiridos em prazos relativamente curtos. Formar operadores experientes, capazes de reconhecer padrões e reagir a ameaças complexas, exige anos.
Exército acompanha ameaças sem assumir papel exclusivo no combate ao crime
A apresentação dos generais mostra que o Exército acompanha o avanço do narcotráfico e dos ataques cibernéticos como problemas de Defesa Nacional, mas não defende uma militarização automática das respostas.
No caso das facções, a atuação envolve forças policiais, Receita Federal, órgãos de inteligência, Ministério Público, Judiciário e cooperação internacional. As Forças Armadas entram principalmente na proteção das fronteiras, no apoio logístico, no compartilhamento de inteligência e em operações autorizadas pelo poder político.
Na defesa cibernética, a lógica é semelhante. O Exército protege suas redes, participa da defesa de infraestruturas estratégicas e coopera com órgãos civis, mas empresas e instituições públicas continuam responsáveis pela segurança de seus próprios sistemas.
Os dados apresentados pelo CIE indicam que as ameaças estão cada vez mais conectadas. O dinheiro do narcotráfico financia redes internacionais, enquanto o ambiente digital permite espionagem, lavagem de recursos, recrutamento, comunicação clandestina e ataques contra o Estado.
O próximo passo será transformar esse diagnóstico em capacidade operacional. Isso envolve ampliar a formação de especialistas, reforçar sistemas críticos, aperfeiçoar a integração entre inteligência militar e órgãos civis e acompanhar a presença de grupos armados estrangeiros na Amazônia.
A dimensão dos números já está exposta. O desafio agora é impedir que a vulnerabilidade digital e a expansão das rotas criminosas avancem mais rápido do que a capacidade de resposta do Estado brasileiro.