Antes de seu nome se tornar inseparável da independência do Vietnã e de uma das guerras mais marcantes do século XX, Ho Chi Minh atravessava oceanos como trabalhador de navios, distante dos palácios presidenciais, dos campos de batalha e do movimento revolucionário que mais tarde ajudaria a comandar.
Em 5 de junho de 1911, aos 21 anos, Nguyễn Tất Thành, nome usado pelo futuro líder vietnamita naquele período, deixou Saigon a bordo do navio francês Amiral Latouche-Tréville. A viagem marcaria o início de aproximadamente três décadas no exterior, durante as quais passou por diferentes países e trabalhou em ocupações simples enquanto buscava compreender o mundo dominado pelas potências coloniais.
Entre os episódios mais curiosos dessa trajetória está uma possível passagem pelo Rio de Janeiro em 1912, quando o jovem vietnamita ainda estava longe de ser conhecido como Ho Chi Minh.
A história é reconhecida oficialmente pelo governo vietnamita, mas possui uma particularidade importante: pesquisadores ainda não encontraram documentação capaz de comprovar todos os detalhes da estadia no Brasil.
A misteriosa passagem pelo Rio de Janeiro
A versão difundida durante décadas sustenta que Nguyễn Tất Thành trabalhava como ajudante de cozinha em um navio mercante e teria desembarcado no Rio depois de adoecer.
Relatos posteriores afirmam que permaneceu algum tempo na cidade, inclusive em Santa Teresa, enquanto se recuperava. Algumas versões acrescentaram que teria trabalhado como garçom ou em restaurantes cariocas.
Esse último detalhe, entretanto, é especialmente difícil de comprovar.
Um estudo acadêmico publicado em 2025 na revista Angelus Novus, da Universidade de São Paulo, analisou justamente a construção dessa memória. Os pesquisadores localizaram a origem de grande parte das histórias brasileiras em relatos orais registrados décadas depois e concluíram que uma visita de Ho Chi Minh ao Rio é historicamente possível, mas as datas e a duração da suposta estadia ainda não podem ser confirmadas documentalmente.
A própria pesquisa aponta que biografias oficiais detalhadas de Ho Chi Minh não registram essa passagem brasileira. Por outro lado, autoridades vietnamitas adotam o episódio como parte da história das relações entre os dois países.
Em novembro de 2024, o primeiro-ministro vietnamita Phạm Minh Chính participou no Rio da inauguração de uma placa em homenagem a Ho Chi Minh, justamente em referência à passagem atribuída ao revolucionário pela cidade em 1912. A agência estatal Vietnam News Agency também relata que ele teria desembarcado para receber tratamento médico.
A história brasileira permanece, portanto, em uma situação incomum: reconhecida diplomaticamente pelo Vietnã, plausível historicamente, mas ainda cercada por lacunas documentais.
De trabalhador de navio a revolucionário
O que está muito mais bem documentado começa um ano antes.
Nguyễn Tất Thành deixou a então Indochina Francesa em 1911 trabalhando e viajando pelo exterior. Ao longo dos anos seguintes, esteve na Europa e nas Américas e entrou em contato com movimentos políticos e trabalhistas.
Em 1919, já utilizando o nome Nguyễn Ái Quốc, apresentou reivindicações por direitos dos vietnamitas durante o período da Conferência de Paz de Paris.
Sua trajetória política aproximou-se posteriormente do comunismo e dos movimentos anticoloniais.
Em 1930, participou do processo que levou à criação do Partido Comunista do Vietnã. Depois de aproximadamente 30 anos no exterior, retornou ao país em 1941 e assumiu papel central na organização do movimento que lutaria pela independência vietnamita.
Foi nesse contexto que surgiu o Viet Minh, coalizão nacionalista liderada pelos comunistas para combater a ocupação estrangeira.
O Vietnã enfrenta a França
Com a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial, o equilíbrio de poder na Indochina se desfez.
Em 2 de setembro de 1945, Ho Chi Minh proclamou em Hanói a independência da República Democrática do Vietnã.
A França, porém, tentou restabelecer seu domínio colonial.
O confronto resultante transformou-se na Primeira Guerra da Indochina e colocou o Viet Minh diante de forças francesas muito superiores em equipamentos, aviação e capacidade logística.
Ho Chi Minh exercia a liderança política do movimento, enquanto Võ Nguyên Giáp tornou-se sua principal liderança militar.
O momento decisivo ocorreu em 1954.
As forças francesas haviam transformado Dien Bien Phu em uma grande posição fortificada no noroeste vietnamita, esperando obrigar o Viet Minh a travar uma batalha convencional.
O cálculo fracassou.
As tropas comandadas por Giáp cercaram a posição, transportaram artilharia pelas montanhas e progressivamente sufocaram a guarnição francesa.
Em 7 de maio de 1954, Dien Bien Phu caiu. Documentos históricos do Exército dos Estados Unidos classificam o resultado como uma derrota decisiva para a França, que posteriormente negociou o encerramento de sua guerra colonial na região.
Depois da França veio uma potência ainda maior
A vitória não significou a criação imediata de um Vietnã unificado.
A Conferência de Genebra estabeleceu uma linha militar provisória próxima ao paralelo 17, separando as forças instaladas no Norte e no Sul. A declaração final previa eleições gerais para julho de 1956, destinadas à reunificação do país.
Essas eleições nacionais nunca ocorreram.
Ho Chi Minh permaneceu à frente do Vietnã do Norte, enquanto os Estados Unidos passaram a aprofundar progressivamente o apoio ao governo sul-vietnamita.
Na década seguinte, o conflito ganhou proporções gigantescas.
Washington enviou centenas de milhares de militares ao Sudeste Asiático. A força norte-americana no Vietnã ultrapassaria meio milhão de homens no final da década de 1960, acompanhada por enorme emprego de aviões, helicópteros, artilharia e poder naval.
Ho tornou-se o principal símbolo político do Vietnã do Norte, mas isso não significa que comandasse pessoalmente as operações militares.
A condução da guerra envolvia toda a estrutura do Partido dos Trabalhadores, das Forças Armadas norte-vietnamitas e de dirigentes como Võ Nguyên Giáp.
Ainda assim, Ho participou das decisões estratégicas de mais alto nível. O próprio Departamento de Estado dos Estados Unidos registra sua participação, junto a outros dirigentes de Hanói, no planejamento político e estratégico da Ofensiva do Tet de 1968, ataque que, apesar das enormes perdas comunistas no campo de batalha, ajudou a enfraquecer o apoio público norte-americano à continuidade da guerra.
A vitória aconteceu seis anos depois de sua morte
Ho Chi Minh não chegou a ver o final.
Ele morreu em 2 de setembro de 1969, aos 79 anos, enquanto a guerra contra os Estados Unidos permanecia em andamento.
A intervenção militar norte-americana seria gradualmente reduzida, e as últimas unidades de combate dos EUA deixariam o país após os acordos de Paris.
Em março de 1975, o Vietnã do Norte iniciou a ofensiva que finalmente derrubaria o governo sul-vietnamita.
Em 30 de abril de 1975, tanques norte-vietnamitas atravessaram os portões do Palácio Presidencial em Saigon, encerrando efetivamente a guerra.
A cidade seria posteriormente rebatizada como Ho Chi Minh City.
Por isso, dizer que Ho Chi Minh pessoalmente “venceu os Estados Unidos” simplifica uma guerra que continuou por seis anos depois de sua morte.
Seu papel histórico foi outro, embora igualmente decisivo: ele construiu e liderou durante décadas o movimento político que enfrentou primeiro o domínio colonial francês e depois a intervenção norte-americana, enquanto generais, dirigentes, guerrilheiros e milhões de vietnamitas conduziram uma guerra que atravessou gerações.
A imagem que antecedeu tudo isso é muito diferente daquela registrada posteriormente nos livros de história.
Em 1911, aos 21 anos, Nguyễn Tất Thành deixou sua terra trabalhando a bordo de um navio francês.
No ano seguinte, segundo uma história ainda debatida pelos pesquisadores, esse jovem viajante pode ter desembarcado doente no Rio de Janeiro.
Quatro décadas depois, já conhecido mundialmente como Ho Chi Minh, estava à frente do Vietnã que acabara de derrotar a França e começava a entrar no confronto que colocaria uma pequena nação do Sudeste Asiático diante do poder militar dos Estados Unidos.
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