Para além da crise institucional, que resultou na maior taxa de desconfiança da sociedade em relação aos militares dos últimos 30 anos, o Exército brasileiro tem duas outras crises no radar. Uma delas é a ameaça de eventos climáticos extremos, causada por um dos El Niños mais fortes dos últimos anos.
Esse aquecimento anormal das águas do pacífico tem potencial para causar eventos como tornados, ciclones, vendavais e excesso de chuva em áreas do Sul e parte do Sudeste, enquanto contribui para períodos de muita seca, queimadas e estiagem no Norte, Nordeste e Centro-Oeste brasileiro.
No Sul, notadamente a região brasileira com maior risco, a 3ª Brigada de Cavalaria Mecanizada do Exército se disponibilizou a ajudar a Prefeitura Municipal de Bagé (RS) a planejar uma ação conjunta de desassoreamento e limpeza de arroios do município neste mês de agosto. Arroios são pequenos cursos de água, como riachos e córregos.
Segundo o Executivo Municipal, a iniciativa pretende minimizar os impactos de eventos climáticos e reduzir os riscos de alagamentos em determinadas áreas.
Na prática, o Exército visitou 7 pontos prioritários às margens de 2 arroios. Nas próximas semanas, esses locais receberão serviços de limpeza e desassoreamento, para:
- Melhorar o escoamento das águas
- Evitar obstrução dos cursos d’água
- Reduzir o risco de transbordamentos e alagamentos durante períodos de chuvas intensas
O diretor-geral do Departamento de Água, Arroios e Esgoto de Bagé, Max Meinke, declarou que a parceria com o Exército reforça a capacidade operacional do município e amplia a atuação das equipes envolvidas na execução dos trabalhos.
Enquanto ajuda a limpar córregos, Exército sofre críticas por atividades que exerce
No entanto, muitas das funções que o Exército desempenha hoje e que aparentam ser desconectadas do cerne da defesa nacional têm sido alvo de críticas, ainda mais em um momento de escalada militar e da configuração de uma espécie de nova corrida armamentista global.
As principais críticas costumam se voltar às atividades de engenharia, como pavimentação de estradas e responsabilidade por obras abandonadas.
Outra constante discussão é o suposto não envolvimento do Exército no combate direto às facções do país, o que também pode demonstrar um aparente desconhecimento da sociedade sobre a diferença do papel das Forças Armadas e das forças de segurança pública estaduais, como as Polícias Militares e Civis.
Em entrevista à CNN no dia 16 de junho, o Comandante do Exército, General Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, tratou de negar que a Força resiste em atuar contra o crime organizado no Brasil.
“[O combate ao crime organizado] tem um lugar muito importante na nossa ideia de ameaça. Às vezes, as pessoas acham que a gente resiste em algum momento a atuar”, argumentou.
Na oportunidade, Paiva esclareceu que operações de apoio à segurança pública relacionadas à logística e inteligência e controle não precisam de ordem do poder político. Entretanto, o mesmo não ocorre com operações ostensivas, que envolvem militares armados e mobilização de viaturas blindadas, como nas chamadas GLOs (Operações de Garantia da Lei e da Ordem).
“O problema é que isso [GLO] é sob demanda do poder político, por uma iniciativa de um dos Poderes e por aprovação do Comandante Supremo [presidente da República] em qualquer circunstância. Mas nós estamos prontos para atuar. Não há problema de atuar”.
Para deputado, Exército tem “tarefas quase infantis”
Uma forte crítica ao Exército também foi feita em 4 de agosto durante entrevista do deputado federal de São Paulo, Ricardo Salles, ao jornal NeoFeed. À publicação, o ex-ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro disse que as Forças Armadas têm algumas “tarefas quase infantis”.
Salles criticou os projetos de aquisição de submarinos, caças e mísseis da defesa e sugeriu que Exército, Marinha e FAB (Força Aérea Brasileira) deveriam focar em “um papel de fronteira” com efetivo combate a garimpeiros ilegais, madeireiros ilegais e promotores de queimadas criminosas na Amazônia, por exemplo.
“Combater significa pegar seu fuzil, cercar o cara, e se ele atirar em você você atira nele. É pra isso que a gente quer Forças Armadas. Para plantar árvores e cuidar de dente de criança eu não quero Forças Armadas. Eu não topo botar dinheiro pra isso”.
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Os militares das FAs estão sempre ajudando o povo do RS. Em contrapartida, os governantes do Estado tentam apagar o passado e retiram os nomes dos generais de ruas e prédios públicos.