Os projetos de aquisição e modernização de frotas de caças, desenvolvimento de submarinos e de aquisição de caças das Forças Armadas, todos considerados estratégicos para a defesa nacional, receberam críticas do deputado federal de São Paulo, Ricardo Salles.
Em entrevista ao jornal Neofeed publicada no último dia 4 de agosto, o ex-ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro (2019-2022) opinou que as Forças Armadas deveriam ter mais foco no trabalho de proteção da faixa de fronteira e que, se tivesse no papel de decidir sobre a questão orçamentária, não liberaria recursos para algumas outras finalidades.
“Se for pra pegar o orçamento que a gente precisa para bloquear contrabando de drogas e armas da fronteira e gastar esse orçamento naquilo que vocês [Forças Armadas] querem, que é submarino, míssil e caça, também não quero. Porque esse é o problema. O drive de mentalidade das Forças Armadas está voltado para isso. Projetos megalomaníacos que demoram 30 anos pra ficar de pé e nunca ficam”.
Pouco antes da fala, Salles afirmou que “essa turma tem uma fixação total com a questão orçamentária”, se referindo aos militares das Forças Armadas.
Foi nesta mesma entrevista que o deputado federal comentou que as Forças Armadas têm “tarefas quase infantis”, citando “plantar árvores e cuidar de dente de crianças na Amazônia”.
“Eu não topo botar dinheiro pra isso. Nem tampouco nesses projetos que não terminam, de submarino nuclear e não sei das quantas, há 40 anos tomando dinheiro aqui em Iperó no interior de São Paulo”.
Iperó abriga o Centro Industrial Nuclear de Aramar (CINA), onde a Marinha do Brasil desenvolve e testa a planta de propulsão e o reator do 1º Submarino Convencionalmente Armado com Propulsão Nuclear (SNPN) do Brasil, Álvaro Alberto.
Desde que assumiu a defesa, no início do governo Lula, o ministro da Defesa José Múcio Monteiro tem defendido a ampliação de investimentos na área militar como forma de proteger o país em um mundo que parece voltar à era em que impera a vontade do mais forte. Entre os principais pleitos de Múcio estão investimentos de 2% do PIB (Produto Interno Bruto) na defesa ou ao menos previsibilidade orçamentária para as Forças Armadas.
“Eu sempre digo que o mundo todo se armou. Não existe mais ninguém desarmado. De certa forma, isso ajuda a que se tenham precauções”, disse o ministro em março numa entrevista à imprensa sobre a escalada de tensões no Oriente Médio.
Confira o momento da entrevista em que Salles fala sobre as Forças Armadas:
Programas e projetos estratégicos das Forças Armadas
Os 3 projetos citados por Ricardo Salles compõem o portfólio de projetos estratégicos de defesa 2020-2031. São os casos do:
- Programa Nuclear da Marinha (PMN)
- Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB)
- Programa Estratégico Astros
- Programa F-39
Programa Nuclear da Marinha
O PMN foi criado em 1979 com o propósito de dominar o ciclo de produção do combustível nuclear e projetos de reatores nucleares para fins pacíficos, em especial para aplicação em propulsão naval.
O propósito do programa é obter uma planta nuclear embarcada do Submarino Convencionalmente Armado com Propulsão Nuclear (SCPN) Álvaro Alberto, cuja previsão de entrega foi ajustada de 2029 para 2038 devido à falta de recursos.
Programa de Desenvolvimento de Submarinos
Já o PROSUB foi criado para aumentar a capacidade operacional da Marinha do Brasil de atender à sua destinação constitucional, inclusive frente ao aumento da fronteira marítima do país em 360 mil quilômetros quadrados.
Ele abarca tanto a construção do 1º SCPN brasileiro, quanto a construção de 7 submarinos convencionais de propulsão diesel-elétrica, 8 Fragatas Tamandaré e navios-patrulha costeiros e oceânicos para apoiar atividades como inspeção naval e fiscalização de águas interiores.
Sobre os submarinos, especificamente, até agora a Marinha do Brasil construiu e lançou ao mar quatro submarinos convencionais (Riachuelo, Humaitá, Tonelero e Almirante Karam), apesar do último ainda não estar em operação.
O avanço lento do programa fez o Brasil ser alvo de dúvidas internacionais recentemente. Em junho, um analista do IISS, um dos principais centros de estudos em defesa estratégica do mundo, colocou em xeque a capacidade do país de sustentar o ritmo de modernização devido aos constantes atrasos.
“O escopo e os custos dos contratos navais ainda levantam dúvidas sobre se os planos se concretizarão – tanto para o Brasil quanto para outras marinhas latino-americanas, já que a região sofre com pressões de financiamento e restrições de recursos que afetam o desenvolvimento de capacidades e as escolhas de construção naval nacional”.
Programa Astros
O Programa Astros, por sua vez, se encontra dentro do plano do Exército de se tornar uma Força moderna, dotada de meios adequados, profissionais preparados e capacidades militares que resguardem os interesses territoriais do Brasil, como a inviolabilidade, neutralização de forças hostis e projeção de poder.
A ideia do Astros, que inclui também o desenvolvimento de foguetes, é finalmente dotar o Exército brasileiro de um sistema de apoio de fogo de longo alcance e elevada precisão. Hoje o país só tem mísseis de baixo e médio alcance.
Programa F-39 Gripen
O F-39 é outro dos programas estratégicos das Forças Armadas, mais ligado à FAB (Força Aérea Brasileira). Derivado do Projeto FX, da década de 90, tem o objetivo é prover a FAB de caças multiemprego modernos e manter a soberania do espaço aéreo nacional, incluindo tarefas de controle, interdição, inteligência, vigilância, reconhecimento e proteção.
Assim como o PROSUB e o PMN, o F-39 é um dos programas que mais sofre atrasos no cronograma, em razão da falta de recursos para a defesa.
Em abril deste ano, a FAB afirmou que 70% dos créditos do acordo de compensação com a Saab relacionados ao Gripen já foram reconhecidos e validados.
Na prática, isso indica que a maior parte das contrapartidas prometidas pela Suécia já foi entregue, o que inclui formação de profissionais, transferência de tecnologia, criação de 3.000 empregos e desenvolvimento de produtos.
Entretanto, em termos reais de entrega de aeronaves, o mesmo percentual não se verifica. O contrato firmado em 2014 prevê 36 caças F-39 Gripen, sendo 15 produzidos no Brasil. Atualmente, 10 aeronaves estão em operação em Brasília e o 1º Gripe produzido no país foi apresentado em março.
* Com informações do Livro Branco de Defesa Nacional