Descoberto no Chile três dias antes, o 2026 RG15 teve a posição medida em duas noites na Serra da Piedade e nunca pôde ser visto a olho nu.
Um asteroide de 16 a 35 metros passou a 94.698 km do centro da Terra às 4h36 de 15 de setembro, horário de Brasília (7h36 UTC). É um quarto da distância média até a Lua. Batizado de 2026 RG15, ele havia sido descoberto três dias antes por um telescópio automático no Chile e não oferecia risco de colisão.
Como vinha pelo céu do Hemisfério Sul, a rocha foi acompanhada também do Brasil. Da Serra da Piedade, em Caeté, na Grande Belo Horizonte, a estação SONEAR Wykrota-CEAMIG mediu a posição dele em duas noites. As medidas entraram nas circulares oficiais do Minor Planet Center, a central da União Astronômica Internacional que calcula as órbitas desses objetos.
Quem vigia o espaço no Brasil procura outra coisa
No país, a vigilância oficial do espaço cabe ao Centro de Operações Espaciais (COPE), da Força Aérea Brasileira. O foco dele são objetos feitos pelo homem, satélites e detritos em órbita, e não asteroides. Em maio, a FAB anunciou um acordo com o INPE para analisar aproximações entre satélites e outros objetos e evitar colisões.
Asteroides pequenos ficam por conta de levantamentos automáticos que varrem o céu toda noite, como o que achou o RG15. Eles mandam as posições ao Minor Planet Center, que calcula as órbitas.
Três dias entre a descoberta e a passagem
O 2026 RG15 apareceu pela primeira vez nas imagens do ATLAS, em Rio Hurtado, no Chile, às 1h33 de 12 de setembro, horário de Brasília (4h33 UTC). O ATLAS é uma rede de telescópios de 0,5 m feita para achar justamente rochas pequenas dias antes de elas passarem perto da Terra. A circular MPEC 2026-R164 anunciou o objeto com medidas de cinco estações, todas no Hemisfério Sul.
Na maior aproximação, a velocidade em relação à Terra era de 9,12 km/s, cerca de 32,8 mil km/h. Descontado o raio do planeta, a distância até a superfície ficou perto de 88 mil km. Os números são do banco de dados do JPL, o laboratório da NASA que calcula as aproximações, e foram reconsultados em 16 de setembro com a órbita já ajustada por 49 medições.
Sete posições medidas na Serra da Piedade
A estação Y05, código da Serra da Piedade no Minor Planet Center, usa um refletor de 0,45 m. As circulares do centro registram o observador Cristóvão Jacques. As três primeiras medidas foram feitas entre 0h11 e 0h36 de 13 de setembro, horário de Brasília (3h11 e 3h36 UTC), e saíram na circular MPEC 2026-R191.
Na noite seguinte, entre 18h54 e 19h03 de 14 de setembro (21h54 e 22h03 UTC), vieram mais quatro, publicadas na MPEC 2026-R214. O brilho medido subiu de magnitude 18 para perto de 15 enquanto a rocha se aproximava. Nas listas publicadas até 15 de setembro, foi a única estação brasileira.
Magnitude 15 é milhares de vezes mais fraca que a estrela mais apagada visível a olho nu. Só telescópio alcançava o 2026 RG15. Na hora da maior aproximação, pelas efemérides do JPL, ele já estava abaixo do horizonte de Minas Gerais.
Até 35 metros é uma estimativa pelo brilho
Ninguém mediu o tamanho do 2026 RG15. O JPL registra a magnitude absoluta dele, 26,16, com margem de 0,51. O diâmetro sai de uma conta que depende de quanto da luz do Sol a superfície reflete, e isso não se sabe.
Se a rocha for escura, refletindo 5% da luz, tem cerca de 35 metros. Se for clara, refletindo 25%, fica perto de 16 metros. A faixa ainda pode abrir mais, porque o próprio brilho tem margem de erro.
Nessa faixa cabe a rocha que explodiu sobre Tcheliabinsk, na Rússia, em 15 de fevereiro de 2013. O Centro de Estudos de Objetos Próximos da Terra (CNEOS), da NASA, estimou aquele objeto em cerca de 18 metros e 11 mil toneladas, com energia de 440 quilotons. O 2026 RG15 pode ter tamanho parecido, sem que se saiba a composição dele.
Por que a rocha não entrou na lista de perigosos
Na lista de asteroides potencialmente perigosos da NASA entram rochas do porte do asteroide Bennu, com cerca de meio quilômetro, visitado por uma sonda da agência. Para entrar nela, duas condições precisam se somar.
A órbita precisa chegar a menos de 0,05 unidade astronômica da órbita da Terra, cerca de 7,5 milhões de km. O objeto também precisa ter magnitude absoluta de 22 ou menos, o que corresponde a mais de 140 metros. O 2026 RG15 cumpre a primeira condição e passa longe da segunda.
O 2026 RT34 chegou abaixo dos satélites de GPS
Dois dias antes do RG15, outro visitante passou ainda mais perto. O 2026 RT34 chegou a 20.965 km do centro da Terra às 6h08 de 13 de setembro, horário de Brasília (9h08 UTC), segundo o JPL. É cerca de 14,6 mil km acima da superfície, a 13,08 km/s.
A altitude ficou abaixo da órbita dos satélites de GPS, que circulam a cerca de 20.200 km, segundo o governo americano. Ficou também muito abaixo do anel geoestacionário, a 35.786 km, onde ficam satélites de comunicação como o brasileiro SGDC. Pelo brilho, o RT34 tem de 2 a 5 metros e foi descoberto pelo telescópio Pan-STARRS 2, no Havaí, no dia 12.
Satélites, detritos e gente treinada para vigiar
Rocha desse tamanho costuma se desfazer na atmosfera, mas o espaço onde ela passou é o mesmo onde o país mantém satélites. O trabalho do COPE é acompanhar essas órbitas e prever encontros perigosos entre objetos artificiais, com dados públicos, de parceiros estrangeiros e dos próprios sensores, segundo a FAB.
Neste mês, um capitão da Força Aérea foi autorizado a passar até 410 dias fora do Brasil para estudar defesa espacial na França. A formação vale para satélites e detritos, a mesma área que o COPE acompanha no dia a dia.
Asteroides seguem fora desse radar militar. O Observatório Nacional mantém o projeto IMPACTON, com um telescópio de 1 m em Itacuruba, no sertão de Pernambuco, mas o objetivo declarado é estudar asteroides já descobertos. Ele não aparece nas medições do RG15 nem do RT34.
Uma volta ao Sol a cada 604 dias
O 2026 RG15 pertence ao grupo Apollo, de asteroides cuja órbita cruza a da Terra. Pela solução do JPL, ele leva 604 dias, pouco mais de um ano e sete meses, para dar uma volta ao Sol. No ponto mais próximo da estrela, chega a 0,968 unidade astronômica, um pouco por dentro da órbita terrestre.
A órbita foi calculada com apenas três dias de observação, e novas medidas ainda podem ajustá-la. As sete posições tiradas da Serra da Piedade estão entre as que sustentam a conta, registradas com o código Y05 nas circulares de 14 e 15 de setembro.