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O Brasil manteve 6.300 homens no deserto do Sinai entre 1957 e 1967, trocou o efetivo 20 vezes, perdeu sete soldados, seis por acidente e fogo amigo, e teve o Batalhão Suez cercado no início da Guerra dos Seis Dias

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 15/09/2026 às 13:15
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O Brasil manteve 6.300 homens no deserto do Sinai entre 1957 e 1967, trocou o efetivo 20 vezes, perdeu sete soldados, seis por acidente e fogo amigo, e teve o Batalhão Suez cercado no início da Guerra dos Seis Dias
Imagem ilustrativa mostra soldados brasileiros do Batalhão Suez no deserto do Sinai durante os momentos finais da missão de paz que durou dez anos.

Durante dez anos, vinte contingentes brasileiros se revezaram entre o Sinai e a Faixa de Gaza em uma das maiores experiências internacionais do Exército; a missão terminou com brasileiros desarmados em meio à guerra de 1967

Por cerca de uma década, aproximadamente 6.300 militares brasileiros trocaram o Brasil pelo deserto do Sinai e pela Faixa de Gaza para servir sob a bandeira das Nações Unidas. Foram vinte contingentes enviados entre 1957 e 1967, numa época em que operações de paz ainda estavam longe de fazer parte da rotina internacional das Forças Armadas brasileiras.

Era o Batalhão Suez, a unidade brasileira incorporada à Força de Emergência das Nações Unidas, a UNEF I, criada depois da Crise de Suez para manter separadas forças egípcias e israelenses.

A dimensão dessa participação aparece na pesquisa História, Memória e Deserto: os soldados brasileiros no Batalhão Suez (1957-1967), tese de doutorado de Manoel Ricardo Arraes Filho apresentada à Universidade Federal Fluminense. O estudo calcula em aproximadamente 6.300 homens o efetivo acumulado enviado pelo Exército Brasileiro à missão.

Não se tratou de uma passagem breve pelo Oriente Médio. O Brasil manteve homens permanentemente na região durante dez anos, renovando o efetivo em sucessivas rotações. Ao final, vinte contingentes brasileiros haviam atravessado aquela faixa de deserto que separava dois adversários que voltariam à guerra em 1967.

E o capítulo final foi muito diferente de uma simples cerimônia de encerramento de missão.

Quando a Guerra dos Seis Dias começou, ainda havia brasileiros em Rafah.

O Brasil chegou ao Oriente Médio depois da Crise de Suez

A origem da missão estava na crise aberta em 1956, depois que o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez.

Israel avançou sobre o Sinai e França e Reino Unido também intervieram militarmente. A ONU criou então a United Nations Emergency Force — UNEF I, destinada a funcionar como uma força de interposição.

O Brasil aceitou participar.

Um destacamento precursor, formado por cerca de 80 sapadores especializados, seguiu para a região em janeiro de 1957. O grosso do batalhão chegou pouco depois. Segundo o Instituto Boina Azul, os militares brasileiros desembarcaram em Port Said em 4 de fevereiro de 1957, após serem transportados pelo navio Custódio de Melo.

A tropa ficou concentrada nas proximidades de Rafah, junto à Faixa de Gaza.

A missão cotidiana não lembrava necessariamente as imagens clássicas de uma guerra convencional. Os militares brasileiros patrulhavam a linha de demarcação, mantinham postos de observação, acompanhavam movimentações na fronteira e atuavam inclusive na limpeza de áreas minadas.

A tese da UFF mostra que os quartéis-generais da ONU e da UNEF estavam instalados em Rafah Camp, transformando aquela área numa espécie de centro nervoso da presença internacional na região.

Era uma missão de paz, mas executada literalmente entre forças que continuavam se considerando inimigas.

Vinte contingentes transformaram o Batalhão Suez numa experiência nacional

O tamanho histórico da operação aparece menos no efetivo existente em determinado momento e mais na quantidade de brasileiros que passaram pelo Oriente Médio ao longo da década.

Foram vinte contingentes.

A própria pesquisa da UFF registra que unidades e efetivos mobilizados vieram de diferentes regiões brasileiras, incluindo São Paulo, Porto Alegre, Recife e Belo Horizonte. Esse sistema de rotação deu ao Batalhão Suez uma composição que ultrapassava a experiência de uma única organização militar.

Para os veteranos, o número do contingente acabou se tornando quase uma identidade.

Dizer que alguém pertencia ao 5º, ao 13º ou ao 20º contingente era localizar aquele militar dentro dos dez anos da missão.

O Instituto Boina Azul informa que os revezamentos ocorriam aproximadamente a cada sete meses. Ao longo desse período, cerca de seis mil militares passaram pelo batalhão; a pesquisa acadêmica da UFF, com documentação mais ampla, trabalha com o número acumulado de aproximadamente 6.300 homens.

É um detalhe importante porque ajuda a colocar Suez em perspectiva. A participação brasileira não foi uma missão experimental de poucas dezenas de observadores. Houve a manutenção continuada de uma unidade do Exército no exterior durante uma década.

Sete brasileiros morreram durante os dez anos de missão

A longa permanência também produziu baixas.

Sete militares brasileiros morreram durante a presença do Batalhão Suez.

Fontes secundárias descrevem seis dessas mortes como decorrentes de acidentes e episódios de fogo amigo, enquanto a sétima ocorreu no contexto dos combates de 1967. A divisão exata entre acidentes e fogo amigo varia entre relatos posteriores, razão pela qual é mais seguro tratar os dois grupos conjuntamente.

A tese da UFF recupera, por exemplo, um episódio difícil de imaginar associado a uma missão militar: um dos sete brasileiros morreu após uma queda em uma das pirâmides, durante o período de serviço no Egito.

O último morto foi o cabo Carlos Adalberto Ilha de Macedo, integrante do 20º contingente.

Sua morte aconteceu justamente quando a operação de paz já estava se desfazendo e o Oriente Médio entrava novamente em guerra.

Esse contraste resume uma parte importante da experiência de Suez. Os brasileiros foram enviados para impedir que duas forças se aproximassem demais. Dez anos depois, acabariam praticamente no caminho de uma nova ofensiva.

A ONU encerrou a força em maio, mas os brasileiros ainda estavam lá quando a guerra começou

Em maio de 1967, a situação mudou rapidamente.

O governo egípcio pediu a retirada da UNEF. A presença da força internacional dependia do consentimento do país anfitrião e, em 18 de maio de 1967, a missão foi formalmente encerrada.

Mas retirar centenas de homens, veículos, equipamentos e estruturas de uma zona prestes a entrar em guerra não aconteceria instantaneamente.

A tese da UFF chama atenção justamente para esse intervalo: quando a Guerra dos Seis Dias começou em 5 de junho de 1967, a UNEF estava formalmente extinta havia 17 dias, mas militares brasileiros ainda permaneciam no teatro de operações.

Esse detalhe muda completamente a forma de contar o fim do Batalhão Suez.

Não houve uma tranquila retirada brasileira seguida, semanas depois, pelo início da guerra.

A guerra chegou enquanto os brasileiros ainda estavam ali.

Israel lançou sua ofensiva em 5 de junho. Ataques aéreos atingiram forças egípcias e, rapidamente, tropas terrestres israelenses avançaram pelo Sinai e pela região de Gaza.

Relatórios citados pela pesquisa da UFF registraram fogo de artilharia e morteiros nas proximidades de Rafah Camp naquele primeiro dia. O documento recebido pela ONU chegou a informar inicialmente que um soldado brasileiro estava apenas ferido. Era Carlos Adalberto Ilha de Macedo. Ele havia sido atingido mortalmente.

A informação inicial errada ajuda a dimensionar o caos daquele momento: nem o comando internacional tinha uma visão completa do que estava acontecendo no terreno.

Cercados, desarmados e diante das forças israelenses

O ponto mais dramático da história aparece nas memórias e documentos sobre as últimas horas dos brasileiros em Rafah.

Com o avanço israelense, o Batalhão Suez ficou envolvido pela nova realidade militar da região.

Registros preservados pelo próprio acervo histórico dos veteranos relatam que soldados israelenses entraram em Rafah e concentraram os brasileiros fora do acampamento. O armamento da tropa brasileira foi recolhido pelas forças de Israel.

A tese da UFF registra inclusive uma fotografia do episódio descrita como o “cerco israelense ao Batalhão Suez”. Nela, segundo a legenda acadêmica, brasileiros pediam em inglês para não serem alvejados.

É provavelmente a cena que melhor traduz o paradoxo daqueles dez anos.

Os homens enviados para manter dois exércitos separados estavam, ao final, sem uma missão internacional ativa, em meio a uma guerra aberta e diante das tropas de um dos beligerantes.

O contingente brasileiro não tinha sido estruturado para travar aquela guerra.

Sua função era outra: patrulhamento, observação, interposição e manutenção da paz.

Relatos de veteranos reunidos na pesquisa também descrevem o deslocamento dos militares depois que deixaram o acampamento e a passagem por áreas onde já eram visíveis os efeitos dos combates.

O fim do Batalhão Suez veio depois de dez anos e vinte contingentes

A retirada encerrou uma presença iniciada em 1957.

O Instituto Boina Azul registra o retorno definitivo das forças brasileiras em 13 de junho de 1967, já depois da Guerra dos Seis Dias.

Para trás ficavam vinte contingentes, aproximadamente 6.300 militares mobilizados ao longo de uma década e sete brasileiros mortos.

Ficava também uma experiência que ajudaria a construir a relação posterior das Forças Armadas brasileiras com missões internacionais de paz.

A dimensão histórica do Batalhão Suez não está apenas na quantidade de homens enviados. Está na duração.

Durante dez anos, sucessivas gerações de soldados brasileiros viveram entre postos de observação, campos minados, patrulhas no deserto e uma fronteira permanentemente tensionada. Quando a estrutura diplomática que sustentava a missão desapareceu, em maio de 1967, eles ainda precisaram enfrentar seu capítulo mais perigoso.

O Batalhão Suez começara como consequência de uma guerra.

Terminou no meio de outra.

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