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Landon Robinson se formou na escola de oficiais da Marinha dos EUA, virou tenente dos fuzileiros e chegou fardado ao primeiro jogo na liga de futebol americano

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 15/09/2026 às 13:00
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Landon Robinson se formou na escola de oficiais da Marinha dos EUA, virou tenente dos fuzileiros e chegou fardado ao primeiro jogo na liga de futebol americano
Militar de uniforme de gala e quepe branco caminha por um túnel de estádio em direção ao gramado e à arquibancada cheia. Imagem ilustrativa gerada por IA.

Ele ficou fora da escalação na vitória dos Bengals e só pode jogar porque uma lei de 2024 permite trocar cinco anos na ativa por até dez na reserva.

Landon Robinson chegou ao Paycor Stadium, em Cincinnati, no domingo, 13 de setembro, vestindo o uniforme de gala militar. Era o primeiro jogo da temporada regular da NFL, a liga profissional de futebol americano dos Estados Unidos, e a própria liga divulgou o vídeo da chegada, segundo a Sports Illustrated. Robinson tem 23 anos, joga na linha de defesa do Cincinnati Bengals e é segundo-tenente do Corpo de Fuzileiros Navais desde 22 de maio.

Ele não entrou em campo. Robinson foi um dos sete jogadores deixados fora da escalação na vitória por 33 a 27 sobre o Tampa Bay Buccaneers, de acordo com a lista de inativos publicada pelos Bengals. A farda e o contrato cabem na mesma vida por causa de uma lei aprovada pelo Congresso americano em 2024.

Da Academia Naval para a sétima rodada

Robinson cresceu em Fairlawn, no estado de Ohio, e jogou três temporadas pela Academia Naval dos Estados Unidos, em Annapolis, a escola que forma oficiais para a Marinha e para os Fuzileiros. Com 1,83 m e 130 kg, atuava no meio da linha defensiva com a camisa 96, segundo a ficha do time da academia.

No draft de abril, a seleção anual em que os times escolhem os novatos, os Bengals o chamaram na sétima e última rodada, na 226ª escolha. Segundo o time, foi a primeira vez desde 1968 que Cincinnati escolheu um jogador vindo de academia militar. Em maio ele se formou em operações cibernéticas e, no dia 22, recebeu a patente de segundo-tenente da reserva dos Fuzileiros Navais.

Uma continência depois de derrubar o lançador

Na pré-temporada, Robinson derrubou o lançador do Chicago Bears e comemorou com uma continência, lance que circulou nas redes. Terminou os jogos de preparação com quatro sacks, nome da jogada em que o defensor derruba o lançador adversário antes do passe, a maior marca da liga nesse período, segundo os Bengals. No fim de agosto, entrou na lista de 53 jogadores que o time leva para a temporada.

Ao site dos Bengals, em maio, ele contou que nas folgas do calendário terá atividades de recrutamento e treinos da reserva, somados ao futebol. O recrutamento é uma das obrigações previstas na lei que permitiu a ida dele à liga.

US$ 4,5 milhões em quatro anos

O contrato de novato de Robinson com os Bengals soma US$ 4.542.284 em quatro anos, cerca de R$ 23,48 milhões, segundo o site de salários Spotrac. Em 2026 o salário-base é de US$ 885 mil, ou R$ 4,58 milhões, e as luvas pela assinatura foram de US$ 162.284, R$ 838.943. As conversões usam a cotação de fechamento do Banco Central de 14 de setembro, de R$ 5,1696 por dólar.

A formação dele foi paga com dinheiro público. Um relatório de 2003 do GAO, o órgão de auditoria do Congresso americano, estimou em cerca de US$ 275 mil o custo de cada formado na Academia Naval no ano fiscal de 2002, valor nominal que daria R$ 1,42 milhão no câmbio de hoje, sem correção pela inflação. No Brasil, formar um aviador militar custa até R$ 1,5 milhão ao governo.

Dez anos na reserva no lugar de cinco na ativa

Todo aluno da Academia Naval assina o compromisso de servir como oficial depois da formatura, e a regra geral é de cinco anos na ativa. A lei de defesa de 2025, a Lei 118-159, sancionada em 23 de dezembro de 2024, abriu uma alternativa para quem assina com um time profissional.

Pelo texto que hoje está no código de leis dos Estados Unidos, o secretário da Marinha pode transferir a cada ano letivo até cinco formados para a reserva selecionada da Marinha ou dos Fuzileiros. Eles servem como oficiais por um período definido pelo secretário, de no máximo dez anos, e precisam participar de ações de recrutamento. O limite original era de três por academia e subiu para cinco com a Lei 119-60, de 18 de dezembro de 2025.

Quem descumpre o acordo, na ativa ou na alternativa da reserva, fica sujeito a devolver o que foi gasto na formação, conforme a mesma lei. Quem cumpre a obrigação na reserva não paga nada.

De decisão do Pentágono a lei do Congresso

Antes de 2016, o formado que chegava à liga profissional tinha de cumprir dois anos na ativa. Naquele ano, o então secretário de Defesa, Ash Carter, aprovou a ida direta para a reserva de Keenan Reynolds, da Academia Naval, escolhido pelo Baltimore Ravens na sexta rodada, segundo a ESPN.

Em 1º de maio de 2017, o sucessor dele, Jim Mattis, revogou a permissão. Em 26 de junho de 2019, Donald Trump assinou um memorando pedindo uma política de acesso imediato dos atletas das academias às ligas. Até a lei de 2024, tudo dependia de decisão do Pentágono, que podia mudar a cada governo.

A regra ainda pode mudar outra vez. Na lei de defesa de 2027, o projeto da Câmara elimina o limite de cinco por academia e o da comissão de Forças Armadas do Senado sobe o teto para dez, segundo análise do Serviço de Pesquisa do Congresso publicada em 24 de julho de 2026.

Uma volta à ativa que ninguém crava

Não está claro o que acontece quando a carreira na liga acabar. Ao site dos Bengals, na noite do draft, Robinson disse que ficaria dez anos na reserva sem interromper o futebol e que poderia voltar à ativa mais tarde, se quisesse. A revista Task & Purpose afirma que ele terá de voltar, enquanto o texto da lei fala apenas em serviço na reserva.

Quem trocou a liga pela farda

Malcolm Perry fez o percurso ao contrário. Formado pela Academia Naval, foi escolhido pelo Miami Dolphins na sétima rodada de 2020 e deixou a NFL em 2022 para cumprir o serviço militar. Segundo o DVIDS, o serviço de imprensa das Forças Armadas americanas, ele virou segundo-tenente dos Fuzileiros e foi designado para operar drones na base aérea de Yuma, no Arizona.

Ao DVIDS, Perry explicou a escolha: “Percebi que o futebol não me dava a realização que eu procurava”. O compromisso dele com os Fuzileiros em Yuma é de seis anos, de acordo com o mesmo texto.

No Brasil, os quartéis recrutam o atleta pronto

Nas Forças Armadas brasileiras, a farda chega depois do resultado esportivo. Segundo o Ministério da Defesa, a incorporação de atletas de alto rendimento começou na Marinha em 2008, no Exército em 2009 e na Aeronáutica em 2014, e hoje o programa reúne 530 atletas militares, que podem ficar até oito anos. Nos Jogos de Paris 2024, eles ganharam 11 das 20 medalhas brasileiras.

O recordista mundial Alison dos Santos é terceiro-sargento da Marinha, graduação com soldo de R$ 4.177 desde 1º de janeiro de 2026, pela Lei 15.167. O salário-base de Robinson em 2026 equivale a cerca de 1.095 desses soldos mensais.

Fardado na chegada, fora da escalação

Robinson ocupa uma das cinco vagas que a lei reserva a cada academia por ano. No primeiro domingo da temporada, o tenente chegou ao estádio de farda e acompanhou a vitória sem entrar em campo.

O contrato com os Bengals vai até 2029. O compromisso com a reserva dos Fuzileiros que ele descreveu ao time é de dez anos, mais que o dobro do tempo do contrato.

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