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Um capitão de fragata brasileiro chefia em São Tomé e Príncipe a missão que praticamente construiu a guarda costeira do país: em junho, 27 são-tomenses concluíram um curso de segurança de instalações estratégicas dado por fuzileiros navais do Brasil, com formatura na embaixada brasileira

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 12/09/2026 às 17:01
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Um capitão de fragata brasileiro chefia em São Tomé e Príncipe a missão que praticamente construiu a guarda costeira do país: em junho, 27 são-tomenses concluíram um curso de segurança de instalações estratégicas dado por fuzileiros navais do Brasil, com formatura na embaixada brasileira
Em dezembro de 2025, a Marinha do Brasil apoiou o início de uma nova turma de formação de soldados fuzileiros navais de São Tomé e Príncipe, no Centro de Instrução Militar do arquipélago, fortalecendo a Guarda Costeira e a cooperação bilateral mantida desde 2014. Imagem: Divulgação

Chefiada pelo capitão de fragata Daniel Junior Silva da Costa, missão brasileira mantém militares no arquipélago africano para formar tropas, padronizar procedimentos e apoiar a estruturação das forças locais

A Missão de Assessoria Naval Brasileira em São Tomé e Príncipe mantém oficiais e praças da Marinha a mais de 5 mil quilômetros do Brasil com uma tarefa incomum: ajudar um pequeno país africano de língua portuguesa a formar seus próprios marinheiros e fuzileiros navais.

À frente dessa estrutura está o capitão de fragata Daniel Junior Silva da Costa, chefe da missão brasileira. Sob sua coordenação, militares da Marinha compartilham conhecimento técnico, acompanham cursos e auxiliam o desenvolvimento da Guarda Costeira são-tomense.

Um dos resultados mais recentes desse trabalho apareceu em junho de 2026. Durante dez dias, fuzileiros navais brasileiros capacitaram 27 integrantes da Guarda Costeira, dos Fuzileiros Navais e do Exército de São Tomé e Príncipe para proteger áreas e instalações consideradas estratégicas.

Por trás da formatura realizada na Embaixada do Brasil existe uma presença militar brasileira permanente, formada por profissionais enviados ao arquipélago para trabalhar diretamente com as instituições locais.

Daniel Junior chefia missão que atua na formação da Guarda Costeira

O capitão de fragata Daniel Junior Silva da Costa não está em São Tomé e Príncipe apenas como representante institucional. Como chefe da MANBrSTP, cabe ao oficial coordenar o assessoramento naval prestado pelo Brasil e manter a ligação com as autoridades militares são-tomenses.

A atuação brasileira no país começou em 2014. Segundo a Agência Marinha de Notícias, a missão conta com militares que cooperam com a formação da Guarda Costeira. Há também um grupo especializado responsável por apoiar cursos de infantaria, supervisionar a formação de soldados fuzileiros navais e contribuir para a organização da unidade local.

Daniel Junior descreveu essa cooperação como um dos pilares para o desenvolvimento das forças de defesa do arquipélago. Em fevereiro de 2025, quando 13 novos combatentes anfíbios concluíram uma formação de 16 semanas, o oficial afirmou que o trabalho aproxima os dois países por meio da transferência de experiências militares.

A trajetória não se resume, portanto, a uma sucessão de cerimônias. O capitão de fragata coordena um trabalho contínuo no qual brasileiros acompanham a preparação das equipes locais e procuram deixar procedimentos que possam continuar sendo empregados depois de cada curso.

Capitão-tenente Iúri das Mercês Lopes comanda grupo de fuzileiros enviado ao arquipélago

A missão naval e o Grupo de Assessoramento Técnico de Fuzileiros Navais desempenham funções relacionadas, mas não são exatamente a mesma estrutura.

Em 2026, o GAT-FN-STP passou a ser chefiado pelo capitão-tenente de Fuzileiros Navais Iúri das Mercês Lopes. A nomeação publicada pela Marinha classificou a comissão como missão militar transitória, com mudança de sede, possibilidade de acompanhamento por dependentes e duração igual ou superior a seis meses.

Esse detalhe ajuda a dimensionar o lado humano da atividade. Não se trata de uma equipe que chega ao país, ministra algumas aulas e retorna imediatamente ao Brasil. Os militares transferem sua rotina para São Tomé, convivem com as forças locais e acompanham etapas sucessivas do processo de formação.

O grupo comandado por Iúri atua diretamente na transmissão de doutrina e na preparação de instrutores são-tomenses. Em cursos anteriores, os brasileiros ajudaram a padronizar técnicas de operações anfíbias, abordagem de embarcações, armamento, tiro e instrução básica de combate.

A intenção é que o conhecimento não permaneça restrito aos 27 participantes de uma única turma. Os militares formados devem atuar como multiplicadores dentro das próprias organizações, ampliando gradualmente a capacidade do país de preparar seus efetivos com maior autonomia.

Curso ensinou militares a identificar vulnerabilidades e proteger instalações estratégicas

O Estágio de Qualificação Técnica Especial em Segurança de Áreas e Instalações foi realizado entre 2 e 12 de junho de 2026, no Centro de Instrução Militar de São Tomé e Príncipe.

De acordo com o Defesa em Foco, os 27 alunos receberam instruções sobre segurança orgânica, avaliação de riscos, proteção física e assessoramento técnico. A turma reuniu integrantes de três componentes distintos: Guarda Costeira, Fuzileiros Navais e Exército.

Os participantes foram preparados para integrar comissões de verificação de segurança e equipes encarregadas de assessorar a proteção de áreas e instalações. Na prática, devem ser capazes de reconhecer vulnerabilidades, recomendar medidas preventivas e orientar suas organizações diante de riscos identificados.

Esse tipo de capacitação costuma receber menos atenção do que exercícios com navios, aeronaves e tropas. Seu efeito institucional, porém, pode ser mais duradouro: em vez de executar temporariamente a segurança de uma instalação estrangeira, os brasileiros ensinam as forças locais a avaliar e corrigir suas próprias deficiências.

A formatura ocorreu em 17 de junho, na Embaixada do Brasil em São Tomé e Príncipe. O intervalo entre o fim das aulas e a cerimônia marcou a passagem dos participantes da condição de alunos para a de possíveis multiplicadores dentro das forças são-tomenses.

País tem território pequeno, mas uma área marítima muito maior para proteger

São Tomé e Príncipe é um arquipélago situado no Golfo da Guiné, região atravessada por rotas comerciais e cercada por áreas de pesca e exploração de recursos energéticos.

Embora possua um território terrestre reduzido, o país precisa vigiar uma zona econômica exclusiva muito maior do que suas ilhas. Autoridades são-tomenses já destacaram que essa área marítima chega a aproximadamente 160 vezes o tamanho do território em terra.

É nesse contraste que a missão brasileira ganha peso. A Guarda Costeira precisa cuidar de um espaço marítimo desproporcional aos recursos humanos e materiais disponíveis, enquanto o Brasil considera o Golfo da Guiné parte relevante de seu entorno estratégico no Atlântico Sul.

Para a Marinha, a presença também funciona como diplomacia de Defesa: aproxima governos, abre canais entre instituições militares e reforça a influência brasileira entre países africanos de língua portuguesa. Para São Tomé e Príncipe, o ganho mais concreto está na formação de pessoas capazes de sustentar suas próprias estruturas de segurança.

Daniel Junior e Iúri das Mercês representam duas camadas desse trabalho. O primeiro coordena a missão naval mais ampla; o segundo conduz o grupo especializado dos fuzileiros. Ao redor deles, outros militares brasileiros passam meses no arquipélago ensinando tarefas que vão da formação básica de soldados à proteção de instalações sensíveis.

Depois de mais de uma década de presença da Marinha no país, a pergunta que permanece é até onde esse modelo poderá avançar: a formação de novos instrutores permitirá que São Tomé e Príncipe assuma progressivamente seus próprios cursos ou a dimensão de sua área marítima manterá a cooperação militar brasileira como uma peça necessária da Guarda Costeira por muitos anos?

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