O Brasil prepara uma nova etapa de sua corrida por tecnologias capazes de mudar a forma como as Forças Armadas se comunicam, processam informações e protegem dados estratégicos.
Na próxima quarta-feira, 16 de setembro, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Exército Brasileiro reunirão em Campinas, no interior de São Paulo, representantes das Forças Armadas, governo, indústria, universidades e centros de pesquisa para discutir o avanço das tecnologias quânticas aplicadas à Defesa Nacional.
O encontro será realizado no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI) e terá participação direta do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército.
Entre os assuntos previstos estão comunicações quânticas, financiamento de projetos estratégicos, aplicações futuras em tecnologia da informação e o chamado Projeto Aurora, iniciativa que aparecerá já na primeira apresentação técnica conduzida por generais do Exército.
A movimentação ocorre enquanto o Ministério da Defesa classifica oficialmente a área quântica entre as tecnologias de interesse da Defesa Nacional e também entre as tecnologias consideradas críticas para o país.
Exército coloca comunicações quânticas no centro do debate
O IV Encontro Nacional de Tecnologias Quânticas para Defesa começará às 8h e terá uma das primeiras apresentações dedicada especificamente às tendências das comunicações quânticas e ao Projeto Aurora.
Participarão dessa etapa o vice-chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, general de divisão Ivan de Sousa Corrêa Filho; o comandante do Instituto Militar de Engenharia, general de divisão engenheiro militar Juraci Ferreira Galdino; e o chefe de Comando, Controle e Informação do DCT, general de brigada Santiago Cesar França Budó.
O tema é estratégico porque as comunicações militares dependem cada vez mais de redes capazes de transportar informações sensíveis sem exposição a interceptações ou ataques cibernéticos.
Tecnologias quânticas são estudadas justamente pela possibilidade de criar novos métodos de comunicação, criptografia, processamento e medição.
O próprio Ministério da Defesa já havia apontado anteriormente computação, comunicação e metrologia quânticas como áreas com potencial de aplicação militar.
Tecnologia quântica já é tratada como crítica para a Defesa
O movimento não começou agora.
A lista oficial de áreas tecnológicas de interesse da Defesa Nacional inclui Quântica, ao lado de inteligência artificial, hipersônica, radares de alta sensibilidade, sistemas espaciais, robótica, sensores e defesa cibernética.
Na relação de tecnologias consideradas críticas, o Ministério da Defesa também inclui quântica e criptografia pós-quântica.
Isso significa que o tema deixou de permanecer restrito aos laboratórios acadêmicos e passou a fazer parte do planejamento tecnológico relacionado às futuras capacidades militares brasileiras.
Computadores quânticos, por exemplo, têm potencial para executar determinadas classes de cálculos de maneira muito diferente das máquinas convencionais.
Ao mesmo tempo, sua evolução cria um problema de segurança: métodos criptográficos atualmente utilizados podem se tornar vulneráveis no futuro, impulsionando a corrida por criptografia pós-quântica e novas formas de comunicação protegida.
Marinha e FAB também participarão
Embora o Exército esteja diretamente envolvido na organização, a discussão não ficará restrita à Força Terrestre.
A programação prevê representantes do Estado-Maior da Armada e do Estado-Maior da Aeronáutica em um painel dedicado às perspectivas futuras das tecnologias da informação e comunicação.
Também participarão a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o CPQD.
A presença das três Forças mostra como a tecnologia possui aplicações que podem atravessar os domínios terrestre, marítimo, aéreo, espacial e cibernético.
Para a Marinha, sistemas avançados de comunicação e sensoriamento podem ter aplicações em redes navais, monitoramento e proteção de informações.
Para a Força Aérea, o tema também se relaciona a comunicações seguras, sistemas espaciais, processamento e tecnologias utilizadas em ambientes altamente conectados.
BNDES, Finep e Fapesp entram na discussão
Outro bloco do encontro será dedicado a uma questão decisiva: quem financiará a transformação da pesquisa em tecnologia utilizável.
BNDES, Finep e Fapesp participarão do painel sobre fomento à indústria, pesquisa e projetos de Estado em ciência e tecnologia.
Também estará presente a Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia.
A composição evidencia que a estratégia não é simplesmente acompanhar pesquisas realizadas no exterior.
O objetivo é aproximar governo, Forças Armadas, universidades e empresas brasileiras, tentando construir capacidade tecnológica dentro do país.
Essa preocupação aparece também na política mais ampla do Ministério da Defesa, que relaciona autonomia estratégica ao domínio nacional de tecnologias avançadas.
Brasil já tenta estruturar ecossistema quântico
O esforço militar ocorre paralelamente a uma movimentação maior do governo brasileiro.
O MCTI vem estruturando a Iniciativa Brasileira para Tecnologias Quânticas, a IBQuântica, além de uma rede de laboratórios e iniciativas de cooperação internacional.
A Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação também coloca tecnologias quânticas entre as áreas que exigem esforços intensivos do Brasil nos próximos anos.
A disputa é internacional.
Estados Unidos, China, países europeus e outras potências investem recursos elevados na tentativa de dominar computação, comunicação e sensoriamento quânticos.
O próprio MCTI reconhece que existe uma competição global pela liderança tecnológica nessa área e que o Brasil ainda busca espaços em que possa desenvolver capacidades próprias.
Universidades e centros de pesquisa estarão ao lado dos militares
O último painel previsto para o encontro reforça essa aproximação.
Pesquisadores da Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal de Pernambuco, SENAI CIMATEC, Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e CTI Renato Archer participarão das discussões.
A programação também inclui representantes do Ministério das Relações Exteriores, Gabinete de Segurança Institucional e Ministério das Comunicações.
Na prática, o encontro colocará na mesma estrutura militares, cientistas, indústria, bancos públicos, agências de fomento e órgãos responsáveis por telecomunicações e segurança cibernética.
O evento ocorre enquanto o próprio Exército acelera sua transformação para operações em múltiplos domínios e considera a incorporação de tecnologias avançadas parte da preparação para conflitos futuros.