A Força Aérea Brasileira prepara uma operação que começará em uma plataforma de lançamento no Rio Grande do Norte e terminará em pleno Oceano Atlântico, com um helicóptero militar procurando uma carga que retornará do espaço após cair de paraquedas no mar.
O protagonista da primeira parte da missão será o VS-30 V16, foguete brasileiro de sondagem que será lançado do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), em Parnamirim.
Depois de atingir aproximadamente 100 quilômetros de altitude, o veículo permitirá que sua carga realize experimentos em condições de microgravidade antes de iniciar o retorno.
Mas o trabalho não termina quando ela voltar à atmosfera.
A FAB mobilizou um H-36 Caracal, militares do Esquadrão Falcão e integrantes do PARA-SAR para localizar e recuperar no Atlântico a Plataforma Suborbital de Microgravidade Recuperável, conhecida como PSM-R.
A operação faz parte da Potiguar 2, conduzida entre 31 de agosto e 19 de setembro e envolvendo aproximadamente 160 militares e servidores civis.
H-36 Caracal irá procurar carga no mar
A etapa marítima ganhou novos detalhes nesta semana.
Segundo a Força Aérea Brasileira, o Primeiro Esquadrão do Oitavo Grupo de Aviação, o Esquadrão Falcão, e o Esquadrão Aeroterrestre de Salvamento, o PARA-SAR, realizaram treinamentos específicos para a recuperação da carga.
O exercício utilizou o H-36 Caracal, helicóptero militar empregado pela FAB em missões de busca, salvamento, transporte e operações especiais.
As equipes ensaiaram os procedimentos que deverão ser executados depois que a plataforma retornar do voo.
Após a trajetória suborbital, a PSM-R deverá realizar a descida utilizando seu sistema de recuperação por paraquedas.
O objetivo será encontrar a plataforma no oceano e recuperá-la para permitir que engenheiros e pesquisadores tenham novamente acesso aos equipamentos e experimentos transportados durante a missão.
Essa etapa é fundamental porque muitos resultados científicos não podem ser avaliados apenas por telemetria.
Os pesquisadores precisam recuperar fisicamente as amostras para verificar o que aconteceu durante os minutos em condições de microgravidade.
Foguete pesa cerca de 1,6 tonelada
O VS-30 V16 foi desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), organização subordinada ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da FAB.
O veículo possui massa total aproximada de 1.600 quilos.
A carga útil prevista é de aproximadamente 401 quilos.
De acordo com as simulações divulgadas pela FAB, a trajetória deverá atingir um apogeu próximo de 100 quilômetros, com alcance horizontal da ordem de 90 quilômetros.
O VS-30 é um veículo de sondagem.
Isso significa que ele não tem a missão de colocar um satélite em órbita.
O foguete sobe em uma trajetória suborbital, permite a realização dos experimentos e posteriormente retorna em direção à Terra.
Essa característica oferece aos cientistas alguns minutos de microgravidade sem os custos e a complexidade de uma missão orbital completa.
Bactérias brasileiras também irão ao espaço
Entre os experimentos preparados para viajar na missão existe um particularmente incomum.
A carga levará amostras das bactérias Bradyrhizobium e Azospirillum brasilense, microrganismos utilizados na agricultura e associados ao desenvolvimento de plantas.
As amostras foram fornecidas pela Embrapa e preparadas para enfrentar o voo espacial.
Uma parte ficará no solo como controle, enquanto outra viajará dentro da plataforma.
Sensores irão medir os efeitos da microgravidade e da radiação espacial sobre os microrganismos.
A Bradyrhizobium possui relação importante com a soja por auxiliar na fixação de nitrogênio.
A Azospirillum brasilense, por sua vez, pode estimular o desenvolvimento do sistema radicular e favorecer a absorção de água e nutrientes.
O experimento integra pesquisas relacionadas à chamada agricultura espacial.
A ideia é compreender como organismos importantes para a produção de alimentos se comportam fora das condições normais encontradas na Terra, conhecimento que poderá ser relevante em futuras missões espaciais de longa duração.
Barreira do Inferno coordena trajetória sobre o Atlântico
O lançamento será realizado a partir do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, primeira base espacial brasileira, localizada no litoral do Rio Grande do Norte.
A trajetória precisa ser planejada de maneira que o veículo e seus componentes permaneçam dentro das áreas previamente definidas sobre o oceano.
Para isso, a operação envolve coordenação da FAB com a Marinha do Brasil e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA).
São calculados fatores como trajetória, condições atmosféricas, provável região de impacto e áreas que precisarão ficar temporariamente livres de aviões e embarcações.
Avisos aeronáuticos e marítimos podem ser emitidos para restringir temporariamente esses espaços durante a operação.