O posto ocupa a ilha desde 1957 e é subordinado ao 1º Distrito Naval. Não há pista de pouso, e todo o abastecimento chega por navio.
O ponto mais distante do território brasileiro é, no papel, um pedaço da capital do Espírito Santo. A Ilha da Trindade fica a cerca de 1.167 quilômetros de Vitória e integra o município.
Ninguém mora lá por vontade própria. Há uma guarnição da Marinha do Brasil de cerca de 32 militares, e metade dela é substituída a cada dois meses, sempre por navio.
O posto que ocupa a ilha desde 1957
A estrutura tem nome e subordinação: é o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade, destacamento isolado ligado ao Comando do 1º Distrito Naval.
A ocupação permanente começou em 1957, e a área de responsabilidade do posto alcança também o arquipélago de Martim Vaz, mais a leste. O país mantém pontos fechados assim também perto do continente: há uma ilha proibida a 35 quilômetros do litoral onde só entram pesquisadores e militares.
A capacidade máxima da instalação é de cerca de 40 pessoas, contando os pesquisadores embarcados em cada comissão. É por isso que a lotação militar fica abaixo desse teto: parte do espaço é reservada a quem vai trabalhar em campo.
Como se troca metade de uma guarnição
O rodízio é a rotina que organiza tudo por lá. A cada dois meses um navio da Marinha chega levando gente nova e material, e leva de volta quem cumpriu o período.
Numa dessas comissões, 18 militares da guarnição foram substituídos de uma só vez. Não existe voo regular, não existe pista, e o mar decide se a troca acontece na data prevista.
As comissões de apoio logístico são feitas por navios-patrulha oceânicos e por navio de apoio oceânico, e uma delas já chegou à décima quinta operação de reabastecimento do posto.
Cada viagem carrega o que a ilha vai consumir até a próxima: alimento, combustível para os geradores, peça sobressalente e medicamento. O que não entrou, não entra.
O farol que justifica parte da presença
Há uma função ali que não é científica nem militar no sentido estrito: a sinalização náutica. O Farol da Enseada dos Portugueses entrou em operação em 1995, com plano focal de 45 metros.
Outros dois faróis funcionam na Ponta da Calheta. Manter luz acesa em ilha oceânica é obrigação de segurança da navegação e depende de alguém no lugar para trocar peça e conferir o funcionamento.
Farol de ilha oceânica dá trabalho desproporcional ao tamanho. A manutenção depende de troca de lâmpada, de bateria e de painel solar levados por navio, e uma falha só é resolvida quando a próxima comissão chega.
É essa obrigação, e não a pesquisa, que amarra a presença brasileira ao calendário. A ciência pode esperar a próxima expedição; a luz de sinalização náutica, não.
Quem consegue desembarcar
A ilha é área de proteção ambiental de acesso controlado pela Marinha. Turista não desembarca, e a entrada é autorizada apenas a militares e a pesquisadores com projeto aprovado.
O programa que organiza essa pesquisa se chama PROTRINDADE e é coordenado pela Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar. Ele cobre meteorologia, biologia marinha, botânica, geologia, oceanografia, zoologia e medicina.
Numa expedição recente, dez pesquisadores brasileiros embarcaram num navio-patrulha oceânico com três projetos em andamento. O trajeto de ida e volta consome dias de mar em cada ponta.
O número parece pequeno diante de outro programa da mesma Força. Para sustentar a ciência antártica, a Marinha leva 181 cientistas por temporada, com dois navios e helicópteros dedicados à operação.
O processo que corre há quase vinte anos
Existe um capítulo jurídico nessa história que quase ninguém acompanha. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional publicou o tombamento provisório da ilha, num processo que tramita desde 2007.
A proposta é inscrever a Trindade nos Livros do Tombo Histórico e do Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, reconhecendo o valor histórico e a formação vulcânica. O tombamento definitivo ainda não saiu.
O interesse não é decorativo. A ilha aparece em registro escrito desde 1501, quando foi localizada pelo navegador João da Nova, e virou ponto de disputa e de tentativa de ocupação estrangeira ao longo de séculos.
Por que o Brasil mantém gente lá
A resposta é a mesma que vale para outros pontos extremos do território, e é jurídica antes de ser científica. Presença permanente é o que sustenta o direito sobre a área marítima ao redor.
A Marinha aplica esse raciocínio em cada ponto extremo que ocupa. No arquipélago de São Pedro e São Paulo, a Força nunca deixa o rochedo desocupado, porque é a estação ali que garante a zona econômica exclusiva ao redor daquelas pedras.
No caso antártico a lógica aparece com clareza ainda maior. A Estação Comandante Ferraz abriga dezessete militares que passam treze meses no continente, sem navio por boa parte do ano.
Trindade, São Pedro e São Paulo e a Antártica formam uma mesma linha de argumento diplomático. Cada uma dessas ocupações converte um pedaço de rocha ou de gelo em direito sobre a água que o cerca, e é isso que paga a conta do isolamento.
O que a presença custa, e o que falta saber
Houve um projeto de transformar a Trindade em base militar de fato, estimado em torno de 200 milhões de dólares. Ele nunca saiu do papel, e o que existe hoje continua sendo um posto oceanográfico com farol.
A Marinha vem ampliando a vigilância marítima por outras vias, mesmo sob corte orçamentário. Em julho ela ativou a primeira unidade de vigilância costeira da Amazônia Azul.
Em setembro a Força deslocou o maior navio de guerra da América Latina para vigiar a Elevação do Rio Grande, área que o Brasil reivindica como plataforma continental estendida.
O que continua sem resposta pública é o custo anual de manter o posto e o protocolo de evacuação médica quando alguém adoece entre uma comissão e outra. São as duas informações que fecham o retrato de qualquer posto isolado, e nenhuma delas está publicada.