Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

Polônia anuncia seu próprio ‘Starlink’ militar: rede soberana será criptografada, controlada pelo país e deverá operar até 2030 com tecnologia da ICEYE e estrutura da PGZ

Polônia inicia projeto de seu próprio ‘Starlink’ militar com ICEYE e PGZ. A rede terá vários satélites, comunicação criptografada e controle nacional, com capacidade operacional completa prevista para o fim de 2030.

Flavia Marinho
Por Flavia Marinho 19/09/2026 às 08:47
Compartilhar
Polônia anuncia seu próprio ‘Starlink’ militar: rede soberana será criptografada, controlada pelo país e deverá operar até 2030 com tecnologia da ICEYE e estrutura da PGZ
Polônia anuncia seu próprio ‘Starlink’ militar: rede soberana será criptografada, controlada pelo país e deverá operar até 2030 com tecnologia da ICEYE e estrutura da PGZ

A Polônia iniciou o projeto de seu próprio “Starlink” militar, uma rede formada por vários satélites, comunicação criptografada e infraestrutura terrestre instalada no país. O sistema deverá ficar sob controle polonês e alcançar capacidade operacional completa até o fim de 2030.

A iniciativa une a empresa espacial ICEYE e a Polska Grupa Zbrojeniowa, a estatal que concentra parte importante da indústria de defesa polonesa. As duas organizações assinaram uma carta de intenções em 11 de setembro de 2026, durante a feira militar MSPO, realizada em Kielce.

O primeiro-ministro Donald Tusk apresentou o plano como o caminho para um “Starlink polonês”. A comparação envolve a criação de uma rede distribuída no espaço, mas o alvo inicial será a comunicação das Forças Armadas, incluindo transmissões protegidas em situações nas quais antenas, cabos e redes terrestres estejam sob ataque.

ICEYE e PGZ começam a desenhar a rede militar que ficará sob controle polonês

A assinatura em Kielce abre a fase de planejamento do MILSATCOM, sigla usada para sistemas militares de comunicação por satélite. O programa está previsto para avançar entre 2026 e 2030, com a criação dos segmentos espacial e terrestre e de uma estrutura industrial capaz de sustentar a rede dentro da Polônia.

O desenho preliminar prevê uma arquitetura distribuída, formada por diversos satélites trabalhando em conjunto. Essa configuração reduz a dependência de um único equipamento em órbita: cada novo ponto amplia a cobertura e ajuda a manter a comunicação caso parte da rede seja interrompida.

Segundo a ICEYE, o sistema será totalmente criptografado e controlado pela Polônia. A infraestrutura terrestre deverá comandar os satélites, receber e distribuir informações e conectar unidades militares espalhadas pelo território ou enviadas para operações fora do país.

A quantidade de satélites, o custo total e as etapas intermediárias serão estabelecidos durante a elaboração da proposta técnica e financeira. ICEYE e PGZ pretendem formar primeiro uma equipe conjunta e, depois, abrir o diálogo com o Ministério da Defesa Nacional.

ICEYE projetará os satélites enquanto a PGZ montará a base industrial no país

A divisão inicial de trabalho coloca a ICEYE como parceira tecnológica. A companhia ficará encarregada da arquitetura da rede, do projeto e da fabricação das plataformas espaciais, além da condução das operações dos satélites.

A PGZ organizará a participação da indústria nacional. O grupo deverá selecionar empresas com capacidade para produzir componentes, integrar equipamentos e fornecer instalações, equipes técnicas e infraestrutura. O acordo também admite a entrada de outras companhias polonesas dos setores espacial e de defesa.

Imagem editorial relacionada ao plano anunciado pela Polônia para desenvolver um sistema nacional de comunicações por satélite.
Iniciativa polonesa de criar uma capacidade nacional de comunicações por satélite.

Parte das competências deverá ser construída durante o próprio programa. A meta anunciada inclui criar no país condições para fabricar, operar, manter e ampliar o sistema, evitando que funções essenciais permaneçam concentradas fora da Polônia.

Adam Leszkiewicz, presidente da PGZ, afirmou que a parceria pretende levar o país da posição de usuário para a de coprodutor e proprietário de tecnologia espacial. Esse processo poderá envolver centros de controle, linhas de integração, estações terrestres e equipes dedicadas às operações em órbita.

Guerra na Ucrânia colocou a comunicação por satélite no centro dos planos

Tusk ligou o novo programa às lições da guerra entre Rússia e Ucrânia. Tropas modernas dependem de comunicação constante para transmitir coordenadas, imagens, alertas, ordens, posições de unidades e dados coletados por drones e outros sensores.

Quando redes terrestres são destruídas, bloqueadas ou congestionadas, os satélites podem preservar a ligação entre comandantes e tropas. Essa capacidade influencia desde o deslocamento de veículos até a coordenação de defesa antiaérea, reconhecimento e ataques de precisão.

A Polônia conhece diretamente essa dependência. Desde o começo da invasão russa em grande escala, Varsóvia forneceu à Ucrânia milhares de terminais Starlink destinados a hospitais, ferrovias, serviços de emergência e sistemas de comunicação. A experiência ampliou o debate sobre quem controla a infraestrutura e quais alternativas permanecem disponíveis durante uma crise.

O MILSATCOM buscará entregar uma rede voltada às exigências militares polonesas, com criptografia, operação nacional e arquitetura preparada para sobreviver a falhas e ataques. A comunicação soberana também dá ao governo maior controle sobre prioridades de acesso, expansão da cobertura e atualização dos equipamentos.

Nove satélites darão imagens ao Exército antes da nova rede de comunicação

Donald Tusk afirmou que as Forças Armadas polonesas deverão contar com nove satélites até o fim de 2026, capazes de apoiar o imageamento de diferentes regiões do planeta em poucos minutos. Esses equipamentos pertencem ao avanço da capacidade de observação espacial do país.

O “Starlink polonês” terá outra missão: transmitir dados e manter unidades conectadas. A separação entre observação e comunicação é decisiva. Um satélite de reconhecimento localiza movimentações, acompanha fronteiras e produz imagens; uma rede MILSATCOM distribui essas informações com segurança para os usuários militares.

Ao reunir as duas capacidades, a Polônia pretende encurtar o intervalo entre detectar uma atividade e enviar os dados ao comando responsável. Satélites de observação podem identificar um alvo ou deslocamento, enquanto a futura rede de comunicação poderá entregar a informação às unidades que precisam reagir.

Imagem em destaque selecionada para a reportagem sobre o plano da Polônia de desenvolver seu próprio sistema de comunicação por satélite.
Iniciativa polonesa de desenvolver uma alternativa nacional de comunicação por satélite.

MikroSAR saiu do contrato para a operação militar em apenas 12 meses

ICEYE e empresas da PGZ já trabalharam juntas no programa MikroSAR, que colocou satélites de radar a serviço das Forças Armadas polonesas. O contrato, assinado em maio de 2025, tinha valor aproximado de 860 milhões de zlotys e incluía três satélites, segmento terrestre móvel, treinamento e suporte.

Em cerca de um ano, quatro satélites radar foram construídos e lançados, contando a primeira opção adicional prevista no acordo. Militares poloneses receberam treinamento e passaram a operar o sistema, batizado de POLSARIS, por meio da Agência de Reconhecimento Geoespacial e Serviços de Satélite.

Os equipamentos utilizam radar de abertura sintética, tecnologia capaz de produzir imagens durante a noite e mesmo com nuvens cobrindo a área observada. A resolução informada chega a 25 centímetros por pixel, suficiente para acompanhar pontos específicos, fronteiras e áreas marítimas.

O segmento terrestre desenvolvido pelos Wojskowe Zakłady Łączności Nr 1, empresa ligada à PGZ, reúne antena, transmissão de dados, segurança e alimentação elétrica em uma estrutura móvel. A experiência oferece uma base técnica para o projeto de comunicação anunciado em Kielce.

Primeiro desafio será transformar a carta de intenções em programa financiado

O cronograma até 2030 começa com a definição da arquitetura, dos requisitos militares e do modelo financeiro. Depois virão contratos, fabricação, lançamentos, testes em órbita, instalação das estações terrestres e treinamento dos operadores.

A etapa atual ainda é uma carta de intenções, anterior à contratação da rede completa. O avanço dependerá da aprovação do Ministério da Defesa, da liberação de recursos e da escolha das empresas polonesas que participarão da produção e da manutenção.

Se o calendário for cumprido, a Polônia chegará ao fim da década com satélites próprios para observar a Terra e uma rede separada para transmitir informações militares. O país passará a controlar dois elementos que decidem a velocidade de uma operação moderna: ver o que ocorre no terreno e enviar os dados sem depender de uma única rede estrangeira.

Você acredita que outros países europeus também deveriam desenvolver redes militares próprias de comunicação por satélite? Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe esta matéria.

guest
0 Comentários