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Salário dos militares não são altos, os 82,6% em gastos com pessoal se deve ao baixo investimento em defesa: ofício de Múcio revela números e Marinha ressalta que Moral baixo da tropa é perigoso para o país

Robson Augusto
Por Robson Augusto Atualizado em 15/09/2026 às 18:14·publicado em 15/09/2026
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Salário dos militares não são altos, os 82,6% em gastos com pessoal se deve ao baixo investimento em defesa: ofício de Múcio revela números e Marinha ressalta que Moral baixo da tropa é perigoso para o país
Ministro José Mucio na LAAD 2025 - Imagem Revista Sociedade Militar

Relatório do Ministério da Defesa mostra que as despesas têm sido discutidas sob prisma invertido, que não é o salário dos militares que pesa no orçamento da defesa nacional e sim o percentual aquém das necessidades do país.

O peso das despesas com pessoal no orçamento militar brasileiro decorre do subfinanciamento da Defesa, e não de salários altos ou de excesso de tropa. É o que sustenta o pesquisador e militar Rodrigo A. Pereira no artigo “Does Brazil Spend Too Much on Military Personnel?“, de 30 de janeiro de 2025, publicado pelo Royal United Services Institute (RUSI). A leitura coincide com a resposta do Ministério da Defesa ao Requerimento de Informação nº 489/2026, do deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL/SP), assinada pelo ministro José Múcio Monteiro em 28 de maio de 2026.

Despacho do Ministro da Defesa enviado para a Câmara dos Deputados
Captura de tela: Despacho do Ministro da Defesa enviado para a Câmara dos Deputados

De onde vem o número que a imprensa repete

O autor disserta sobre parte do relatório setorial de Defesa do Congresso para a lei orçamentária de 2025, aprovada em 11 de dezembro de 2024. Ali, o pessoal responde por 74% da proposta para as Forças Armadas, percentual que ajustes do relator elevaram para quase 76%, em linha com 2023 e 2024. A alta não veio de aumento de salário para os militares, e sim de leve corte de investimento, o que mexeu na proporção.

No mesmo dia, lembra o pesquisador, um deputado apresentou proposta para reduzir benefícios previdenciários dos militares, alegando 78% do orçamento em pagamentos e pensões, contra um teto de 60% que atribuiu à OTAN. A proposição esbarra na Constituição: leis sobre soldos e pensões militares são de iniciativa privativa do presidente da República, nos termos do art. 61, § 1º, inciso II. Sem essa origem, tende a cair por vício de iniciativa, o que o autor classifica como gesto político, e não tentativa real de mudança.

O exagero da comparação com os EUA

A tese ganhou versão mais forte em junho de 2024, quando veículos generalistas afirmaram que a folha militar brasileira seria, proporcionalmente, mais de três vezes maior que a dos Estados Unidos, opondo 78% no Brasil aos 22% norte-americanos, dado da Peter G. Peterson Foundation. A comparação mistura perímetros distintos.

Os 22% dos EUA cobrem apenas a remuneração da tropa. Aposentadorias, pensões e assistência a veteranos ficam fora do orçamento de defesa, no Department of Veterans Affairs, cujo orçamento no ano fiscal de 2025 foi de US$ 368 bilhões, cerca de 40% de todo o gasto de defesa. No Brasil, inativos e pensionistas estão dentro da conta do Ministério da Defesa e formam a maior parte dos 78% a 82,6%. Comparado o comparável, a distância de “três vezes” se desfaz.

O Brasil tem militares em excesso?

O pesquisador responde que não. Segundo o International Institute for Strategic Studies, o país tem cerca de 366,5 mil militares da ativa, 14º maior efetivo do mundo em números absolutos. O Portal da Transparência registra 362.574 na ativa, além de 169.793 inativos e 235.416 pensionistas, universo perto de 770 mil pessoas.

A proporção inverte a leitura. Com estimativas do Banco Mundial, o Brasil tem cerca de 1,68 militar da ativa por 1.000 habitantes, o que o joga para o 17º lugar entre os vinte maiores efetivos. Na América do Sul, lidera em números absolutos, mas fica atrás de todos os vizinhos, exceto a Argentina (1,54 por 1.000), quando se mede pela população. E isso para o quinto maior país do mundo, com 8,5 milhões de km² e cerca de 17 mil km de fronteira.

Os salários são altos?

Também não, conclui o autor a partir de tabelas de remuneração de código aberto das três Forças, com dados do Exército de abril de 2023. Generais e almirantes de três a quatro estrelas somam apenas 0,11% do efetivo, com impacto pequeno no total, e um general de quatro estrelas ganha menos que um ministro de Estado, o maior teto do Executivo em 2023. O soldo inicial de oficial é o mais baixo entre as dez carreiras comparadas.

A maior parte da tropa é de sargentos, cerca de 41,8% do efetivo, cujo soldo inicial fica tão abaixo que, na conta do pesquisador, um praça de nível OR-4 recebe menos de um terço do menor salário inicial da lista de carreiras. A leitura converge com a do professor Eduardo Munhoz Svartman, da UFRGS, que já afirmou que a maioria dos militares não ganha muito e que o problema é o tamanho da folha, não o valor pago a cada um.

A concessão do autor

Rodrigo A. Pereira não nega que o orçamento seja fortemente inclinado para pessoal. Ele reconhece que, quando mais de três quartos da verba vão para gente, a Força passa a cumprir também um papel de construção nacional, gerando emprego, o que afasta a prontidão para o combate. A crítica dele não é ao diagnóstico do peso, e sim à conclusão de que a causa seria excesso de efetivo ou salário alto. Para o autor, a sociedade brasileira olha o problema pela lente errada.

O problema é o denominador

O gasto de defesa do Brasil está entre os menores do mundo em proporção da economia. Séries do Stockholm International Peace Research Institute apontam 1,07% do PIB em 2022 e 1,08% em 2023, longe da referência de 2% da OTAN. O pesquisador calcula que, elevado o orçamento a 2% do PIB, a fatia do pessoal cairia para cerca de 40,99% em 2023, sem qualquer mudança na folha.

O relatório do Ministério da Defesa chega ao mesmo ponto. Os subsídios da Marinha mostram que a participação do pessoal nas despesas primárias caiu de 6,54% em 2002 para 3,26% em 2025, e que a 2% do PIB o peso recuaria para cerca de 39,6%. O Exército, no Ofício nº 1184-A4.7/A4/GabCmtEx, estimou 39,7% e registrou que o problema central está no recurso destinado, não no efetivo ou no salário pago.

Quanto à participação das despesas de pessoal frente ao orçamento total, é necessário entender o importante princípio matemático de que a representação de uma parte é tão maior quanto menor for o seu total. Nesse sentido, quanto menor o orçamento destinado à Defesa Nacional, maior será o percentual que as despesas com pessoal representam, já que são despesas obrigatórias que decorrem de legislação própria, apartada diretamente daquela afeta aos ciclos orçamentários anuais. Com isso, quanto maior for o orçamento destinado às Forças Armadas, menor será o percentual que as despesas com o pessoal apresentarão“, diz trecho do documento emitido pelo Gabinete do Comandante da Marinha do Brasil no despacho do Ministério da Defesa.

O trecho elaborado pela Marinha do Brasil menciona ainda que o baixo status das Forças Armadas ucranianas diante da sociedade local foi um fator preponderante para que o país tivesse pouca possibilidade de resistir à investida russa que resultou na anexação da Criméia em 2014. Ciente da fragilidade, a partir daquela época o país passou a investir mais em defesa e nos próprios militares.

À guisa de exemplo concreto, vale destacar a experiência da Ucrânia, especialmente a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014. Antes do conflito, as Forças Armadas ucranianas enfrentavam condições precárias: baixo reconhecimento por parte da sociedade, salários insuficientes e moral muito baixo entre as tropas. Diante da investida russa, o estado apático e debilitado das forças ucranianas não representou obstáculo significativo, facilitando a anexação do território… ” e,

“Sem essa redefinição estratégica é provável que se observe a deterioração da capacidade do Brasil de garantir sua soberania sobre um território continental, uma Amazônia Azul de dimensões também continentais e uma população de mais de 210 milhões de habitantes”.

Cortar tropa não abre espaço para investir

O ponto mais contraintuitivo da análise é orçamentário. Salários e pensões são despesas obrigatórias com prioridade na montagem do orçamento. Cobertas as obrigatórias, o que resta é dividido entre 38 ministérios, e o Congresso ainda direciona parcela expressiva da peça por emendas, cerca de 24% do orçamento federal em 2024. Reduzir efetivo, argumenta o autor, não converte a economia em investimento militar, e a Força seguiria com verba menor ainda dominada pela folha.

O Departamento de Planejamento, Orçamento e Finanças confirma a mecânica no Despacho nº 1046/2026/SEORI-MD: a pasta não tem discricionariedade sobre a composição do próprio orçamento e deve observar os limites do Órgão Central do Sistema de Planejamento e Orçamento Federal, conforme a Lei nº 10.180, de 2001.

A saída proposta

Para o pesquisador, a solução exige fixar um percentual do PIB para a Defesa, de preferência entre 1,5% e 1,6% como meio-termo realista, e blindá-lo, provavelmente por emenda constitucional. Em paralelo, propõe estabelecer meta de gasto com pessoal, na faixa de 40% a 50% do orçamento, com redução anual definida e revisão das carreiras, incluindo prazos de promoção, novos postos e programas de desligamento voluntário.

Ele reconhece a dificuldade política. Menos efetivo significa menos organizações militares, e bases funcionam como pilar econômico de muitas cidades, o que cria resistência no Congresso. Ainda assim, defende que a Defesa avance para o planejamento conjunto, além do paroquialismo de cada Força, para que cada capacidade adquirida amplie de fato o poder de dissuadir e combater.

O que está em jogo agora

A PEC 55/2023, do senador Carlos Portinho (PL-RJ), citada no requerimento como PEC 55/2024, tramita na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, com relatoria do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), e fixa piso de 2% do PIB, com 35% das discricionárias em projetos estratégicos. O Ministério apresentou texto alternativo que vincula as discricionárias a percentual da Receita Corrente Líquida.

Já vale a Lei Complementar nº 221, de 18 de novembro de 2025, que permite abater até R$ 5 bilhões por ano em projetos estratégicos do cômputo da meta primária, somando R$ 30 bilhões até 2031. O valor contrasta com os R$ 12,7 bilhões de discricionárias do Ministério da Defesa na LOA 2026, dentro de um orçamento de cerca de R$ 142 bilhões, os tais 1,1% do PIB.

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4 Comentários
Milico
Milico
15/09/2026 21:40

O Brasil não tem militares em excesso, apenas excesso de festas com militares: churrasco, aniversário, chá de bebê, café da manhã, competições de xadrez, vôlei e futebol, tudo isso durante o expediente e com salário pago pelo contribuinte! Isso tudo além do treinamento físico e das formaturas militares durante as horas trabalhadas!

Jose
Jose
15/09/2026 21:17

A discussão e o fetivo combate ao problema esbarra na política de “apadrinhamento da antiga colonia”. Sistema onde pequenos grupos se beneficiavam da maior fatia das vantagens disponíveis. Esses grupos não querem perdem benefícios. Enquanto a maioria, quem?

João
João
15/09/2026 19:20

EUA com US$ 2 trilhão ano gasta mais de 80% com pessoal . Salarios, Pensões, Aposentadorias, Bonificações, Beneficios, indenizações e outros gastos com pessoal da ativa, reserva e pensionistas.

Melhor coisa a se fazer é todo mundo parar de fazer guerra e gastar com alimentos pra humanidade.

E termos um unico exercito pra proteger a humanidade .

Norival
Norival
15/09/2026 21:19
Responder para  João

Diz isso para os aitolás