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Voluntário aos 17 anos em Baixa Verde, no Rio Grande do Norte, embarcou para a Itália em 22 de setembro de 1944 com o Regimento Sampaio e subiu Monte Castelo como terceiro-sargento: aos 102 anos, Severino Gomes de Souza é o último brasileiro vivo que tomou a montanha

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 12/09/2026 às 15:37
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Voluntário aos 17 anos em Baixa Verde, no Rio Grande do Norte, embarcou para a Itália em 22 de setembro de 1944 com o Regimento Sampaio e subiu Monte Castelo como terceiro-sargento: aos 102 anos, Severino Gomes de Souza é o último brasileiro vivo que tomou a montanha
Aos 102 anos, Severino Gomes de Souza é apontado pelo Censo Permanente da FEB como o último veterano vivo que participou da tomada de Monte Castelo.

Nascido no interior do Rio Grande do Norte, o veterano embarcou para a Itália em setembro de 1944, comandou um grupo de combate da FEB e presenciou a conquista de Monte Castelo em 21 de fevereiro de 1945

Severino Gomes de Souza tinha apenas 17 anos quando se apresentou como voluntário ao Exército Brasileiro. Mais de oito décadas depois, sua trajetória adquiriu um significado que ultrapassa as condecorações e homenagens acumuladas: aos 102 anos, ele é apontado pelo Censo Permanente da Força Expedicionária Brasileira como o último veterano vivo que participou da tomada de Monte Castelo.

A atualização do levantamento, realizada em 6 de setembro de 2026, identificou 19 integrantes da FEB ainda vivos. Severino é um deles, mas ocupa uma posição solitária dentro dessa lista: entre os veteranos localizados pelo trabalho, somente ele esteve no ataque que culminou na conquista da montanha italiana em 21 de fevereiro de 1945.

Na época da batalha, era terceiro-sargento do 1º Regimento de Infantaria, o tradicional Regimento Sampaio, e comandava um grupo de combate. Hoje, reformado como capitão, tornou-se uma das últimas testemunhas pessoais de um dos capítulos mais conhecidos da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial.

De Baixa Verde ao Exército aos 17 anos

Severino nasceu em 5 de agosto de 1924, em Baixa Verde, município do Rio Grande do Norte que mais tarde passou a se chamar João Câmara. Sua entrada no Exército ocorreu cedo.

De acordo com a biografia mantida pelo Museu Virtual da Força Expedicionária Brasileira, ele se apresentou como voluntário e foi incorporado em 1º de novembro de 1941, quando tinha 17 anos, dois meses e 26 dias. O jovem potiguar iniciou a vida militar no 16º Regimento de Infantaria, em Natal.

A cronologia ajuda a dimensionar sua história. Severino não se tornou voluntário às vésperas da viagem para a Europa. Quando embarcou para a Itália, em 22 de setembro de 1944, já havia passado quase três anos nas fileiras do Exército e acabara de completar 20 anos.

Na campanha, integrou o 1º Regimento de Infantaria, conhecido como Regimento Sampaio, uma das três unidades de infantaria que formavam a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária. Partiu como terceiro-sargento e assumiu a responsabilidade por um grupo de combate, pequena fração colocada diretamente diante do terreno, do fogo inimigo e das decisões tomadas em segundos.

É um detalhe que altera a leitura de sua participação. Severino não era apenas um nome dentro do efetivo enviado à Europa: ainda muito jovem, já comandava outros homens em combate.

O ataque que terminou no alto de Monte Castelo

Monte Castelo fazia parte do sistema defensivo alemão nos Apeninos, região montanhosa do norte da Itália. Sua posição permitia observar e controlar rotas utilizadas pelos Aliados, o que transformou a elevação em um obstáculo para o avanço em direção ao norte do país.

Depois de investidas malsucedidas e de um inverno rigoroso, o ataque definitivo começou na manhã de 21 de fevereiro de 1945. O Exército Brasileiro descreve a conquista como uma das batalhas mais árduas enfrentadas pela FEB durante a Segunda Guerra Mundial.

Os brasileiros avançaram sob resistência alemã e com apoio de artilharia, enquanto a 10ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos operava no setor vizinho. Severino subiu com os homens do Regimento Sampaio. Ao fim daquele dia, as tropas brasileiras haviam alcançado o objetivo.

A montanha seria conquistada pela FEB, mas o episódio não pode ser resumido à imagem final da bandeira no alto. O resultado foi precedido por meses de tentativas, baixas, exposição ao frio e adaptação a uma guerra travada em terreno desconhecido.

Severino sobreviveu à campanha, retornou ao Brasil em 22 de agosto de 1945 e recebeu a Cruz de Combate de 2ª Classe. Posteriormente, foi reformado no posto de capitão.

Dos 127 veteranos localizados em 2021, restam 19 no levantamento

A dimensão da passagem do tempo aparece nos próprios números do Censo Permanente da FEB. O projeto começou em abril de 2020 com 40 veteranos identificados e chegou a registrar 127 nomes em janeiro de 2021.

A lista caiu para 110 em janeiro de 2022, 88 em setembro do mesmo ano, 60 em novembro de 2023, 50 em setembro de 2024 e 31 em outubro de 2025. Em 2026, eram 27 em fevereiro, 22 em maio e 19 na atualização de setembro.

Desde o início do acompanhamento, 237 veteranos cadastrados morreram, segundo os responsáveis pelo trabalho. O próprio Censo adverte que a relação não constitui uma contagem demográfica definitiva. A pesquisa é voluntária, permanece aberta a correções e depende de associações de ex-combatentes, unidades militares, pesquisadores, familiares, documentos e notícias para localizar sobreviventes.

O recorte também é específico: concentra-se nos integrantes do Exército que compuseram a FEB e combateram na Itália. Não representa todos os brasileiros reconhecidos como ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial.

Ainda assim, a redução de 127 para 19 nomes em pouco mais de cinco anos revela a velocidade com que o Brasil perde suas últimas testemunhas diretas da campanha. Nesse contexto, uma entrevista, fotografia, carta ou recordação familiar deixa de ser apenas memória privada e passa a integrar um acervo histórico que já não poderá ser reconstruído da mesma forma no futuro.

O último homem de uma montanha que virou símbolo

Entre os 19 veteranos identificados, há histórias de brasileiros feridos por estilhaços, condecorados com a Medalha Sangue do Brasil e participantes da rendição da 148ª Divisão de Infantaria alemã. Severino, porém, é o único localizado pelo Censo que esteve na tomada de Monte Castelo.

A condição de “último” não significa que ele seja o derradeiro veterano brasileiro da Segunda Guerra Mundial. Significa algo mais preciso: é o último sobrevivente conhecido, dentro do levantamento, entre os brasileiros que participaram diretamente daquela conquista.

Essa distinção importa. Evita transformar uma pesquisa permanente e incompleta em uma afirmação absoluta, ao mesmo tempo que preserva a excepcionalidade de sua trajetória.

Aos 102 anos, Severino liga três tempos que parecem pertencer a países diferentes: o interior potiguar dos anos 1920, o Brasil que enviou mais de 25 mil homens à guerra na Europa e a geração atual, que conhece Monte Castelo principalmente por livros, monumentos e cerimônias.

Enquanto o Censo busca confirmar novos nomes e atualizar sua relação, a presença de Severino recorda que a história da FEB ainda possui voz humana. Mas essa janela está se fechando: quanto o Brasil ainda conseguirá registrar diretamente do último homem vivo que subiu a montanha antes que Monte Castelo permaneça apenas nos documentos?

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1 Comentário
Paulo Sérgio
Paulo Sérgio
12/09/2026 19:02

O último guerreiro de um tempo que foi esquecido pelo nosso povo . Como irmão de arma sou veterano também minha passagem por um conflito foi a guerra das Malvinas , nosso país não divulga que manteve uma tropa varrendo a Costa dia e noite , embarcada no navio Transporte de Tropas Custodio de Melo, 1 Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais sediado no Rio