Depois de enfrentar uma das crises mais graves de sua história, marcada por recuperação judicial, paralisação das fábricas e uma greve que durou 1.280 dias, a Avibras voltou a entregar munições ao Exército Brasileiro.
O primeiro lote da nova fase industrial foi entregue em 6 de outubro de 2026, no Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, em Formosa, Goiás. A operação ocorreu apenas cinco meses depois da retomada das atividades da fabricante em Jacareí, no interior de São Paulo.
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A entrega representa uma mudança concreta na situação da empresa, que passou anos enfrentando dificuldades para manter suas operações. Agora, a Avibras Aeroco começa a transformar a reativação das instalações industriais em fornecimentos efetivos às Forças Armadas.
Primeiro lote foi recebido pelo Exército no Forte Santa Bárbara, em Goiás
A remessa foi encaminhada ao Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, instalado no Forte Santa Bárbara, complexo militar ligado às unidades que operam o Sistema ASTROS.
O sistema, desenvolvido no Brasil, permite o emprego de diferentes tipos de foguetes e mísseis a partir de plataformas lançadoras móveis. Sua utilização depende de uma estrutura permanente de fornecimento de munições, manutenção e apoio logístico.
De acordo com o comunicado oficial divulgado pela Avibras Aeroco, a entrega foi possível após a reativação de áreas produtivas, a incorporação de profissionais especializados e a reorganização de fornecedores.
A fabricante, entretanto, não divulgou a quantidade de munições, os modelos específicos nem o valor financeiro correspondente ao carregamento.

Crédito: Imagem de arquivo / Wikimedia Commons.
Avibras reabriu fábrica em maio e precisou reconstruir sua estrutura de produção
A retomada industrial começou a ganhar forma no primeiro semestre de 2026. Em 29 de abril, a Avibras Aeroco anunciou oficialmente suas operações, reunindo ativos tecnológicos e industriais da antiga fabricante.
Em 4 de maio, trabalhadores retornaram às instalações de Jacareí, iniciando uma nova etapa depois de anos de paralisação.
A empresa precisou reorganizar setores industriais, recuperar equipes técnicas e restabelecer relações com fornecedores responsáveis por componentes utilizados na fabricação de produtos militares.
Esse processo envolve atividades que vão além da montagem final. A produção de munições exige componentes especializados, processos de fabricação controlados, profissionais qualificados e procedimentos de verificação antes do fornecimento ao cliente.
Crise da Avibras provocou greve de 1.280 dias e acumulou R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas
A recuperação da fabricante acontece depois de um período de dificuldades iniciado em 2022, quando a antiga Avibras entrou em recuperação judicial e enfrentou problemas financeiros que comprometeram suas atividades.
Os atrasos salariais levaram os trabalhadores a iniciar uma greve em 9 de setembro daquele ano. A paralisação se prolongou por mais de três anos, enquanto a empresa buscava alternativas para evitar o encerramento de suas operações.
Em março de 2026, os empregados aprovaram um acordo que permitiu encerrar a greve e estabelecer condições para a retomada industrial.
Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, o acordo envolveu aproximadamente R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas, com previsão de pagamento aos trabalhadores afetados.
A paralisação também ameaçou conhecimentos tecnológicos acumulados durante décadas em áreas estratégicas da indústria brasileira de defesa.
Exército mantém contrato de R$ 60,8 milhões para aquisição de 3.072 foguetes do Sistema ASTROS
A retomada das entregas ocorre em um momento de continuidade dos compromissos da fabricante com o Exército Brasileiro.
Em setembro de 2026, o Centro de Obtenções do Exército formalizou a transferência de um contrato de R$ 60.800.818,56 da antiga Avibras Divisão Aérea e Naval para a Avibras Aeroco.
O acordo, originalmente assinado em novembro de 2023, prevê o fornecimento de 3.072 foguetes destinados ao Sistema ASTROS, conforme os documentos da contratação analisados pela LRCA Defense Consulting.
A encomenda inclui 2.624 foguetes AV-SS-09 TS, utilizados no treinamento das guarnições, além de 448 foguetes SS-30, distribuídos em 56 contêineres com oito unidades cada.
Os foguetes de treinamento representam aproximadamente R$ 37,96 milhões do valor contratado. As munições SS-30 correspondem aos outros R$ 22,85 milhões.
A vigência do contrato foi prorrogada até 31 de dezembro de 2026. A transferência realizada em setembro não representa uma nova compra, mas a continuidade de uma contratação anterior sob responsabilidade da nova empresa.

Fonte: Sociedade Militar
Ainda não há confirmação de que as munições entregues em outubro pertençam ao contrato milionário
Embora a entrega tenha ocorrido poucos dias depois da transferência contratual, não existe confirmação pública de que o carregamento recebido em Formosa corresponda aos foguetes previstos no acordo de R$ 60,8 milhões.
Há uma coincidência relevante: os documentos originais do contrato estabelecem o Centro de Logística de Mísseis e Foguetes, no Forte Santa Bárbara, como local de recebimento das munições.
Entretanto, segundo o levantamento da LRCA Defense Consulting, os documentos disponíveis não permitem determinar quantas unidades já foram fornecidas, quais pagamentos foram realizados ou qual o saldo atualizado da contratação.
Portanto, os 3.072 foguetes representam a quantidade originalmente contratada, e não necessariamente o volume ainda pendente de entrega ao Exército.
Ministério da Defesa acompanha recuperação da fabricante de mísseis e foguetes
A recuperação da Avibras também passou a receber acompanhamento institucional ao longo de 2026.
Em 24 de julho, o ministro da Defesa, José Mucio Monteiro, participou de uma visita às instalações de Jacareí, acompanhado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de autoridades militares.
Na ocasião, foram apresentadas áreas de fabricação de componentes para mísseis e foguetes, montagem de sistemas de defesa e produção de veículos especiais.
Em maio, a Avibras Aeroco também havia recebido do Ministério da Defesa o credenciamento como Empresa Estratégica de Defesa, reconhecimento relacionado à sua atuação em tecnologias consideradas relevantes para o setor militar brasileiro.
Apesar dos avanços, a companhia informou em setembro que compromissos envolvendo orçamento para compras do Exército, investimentos tecnológicos e garantias para exportações ainda não haviam se concretizado.
Próximo desafio será manter entregas regulares e recuperar a capacidade industrial
O primeiro lote fornecido em outubro demonstra que a Avibras conseguiu voltar a realizar entregas ao seu principal cliente militar brasileiro. Entretanto, a continuidade dessa recuperação dependerá da manutenção da produção, do cumprimento dos contratos e da disponibilidade de recursos para novos projetos.
A fabricante também trabalha em tecnologias relacionadas ao Míssil Tático de Cruzeiro e ao desenvolvimento do Míssil Tático Balístico, programas que fazem parte de sua atuação na indústria nacional de defesa.
Até o momento, não foram divulgados um calendário completo para novas remessas nem os volumes que poderão ser produzidos nos próximos meses.
Depois de anos de crise, a Avibras conseguiu superar uma etapa importante: voltou a fornecer munições ao Exército Brasileiro. O próximo desafio será demonstrar que esse primeiro carregamento pode se transformar em uma produção contínua e economicamente sustentável.