Em uma Polícia Militar, a entrada começa pelo posto de soldado. Mas, quando os pesquisadores olharam para as corporações brasileiras, encontraram a hierarquia de cabeça para baixo: 129.402 sargentos para 117.142 soldados. São 12.260 sargentos a mais do que soldados no retrato de 2025 divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em agosto de 2026.
Os extremos nos estados tornam o contraste ainda mais difícil de ignorar. No Rio de Janeiro, o levantamento contabilizou 20.727 sargentos e 3.002 soldados. Em Rondônia, foram registrados sete soldados, diante de 2.421 sargentos e 25 coronéis. Esses números constam da segunda edição do Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil, que reúne informações sobre efetivos, carreiras e remuneração.
Levantamento de 2026 identifica 129.402 sargentos e 117.142 soldados nas PMs brasileiras. A inversão aparece em 17 unidades da federação; no Rio, são 20.727 sargentos para 3.002 soldados, e Rondônia tinha apenas sete.
O Rio tem quase sete sargentos por soldado
A tabela por graduação do estudo mostra que o Rio de Janeiro reúne 20.727 sargentos, 9.001 cabos e 3.002 soldados na PM. A relação é de quase sete sargentos por soldado. Isso não significa que apenas três mil PMs patrulhem as ruas fluminenses: cabos e sargentos também podem trabalhar no policiamento ostensivo, e a graduação não revela, por si só, a função exercida por cada agente.
O Rio Grande do Norte apresenta outro contraste: 5.607 sargentos e 1.388 soldados. Na corporação potiguar, os sargentos representam 61,8% do efetivo pesquisado, a maior concentração proporcional destacada pelo relatório. O Acre vem em seguida, com 57,1%, enquanto o Distrito Federal alcança 52,7%.
Rondônia aparece no ponto mais extremo do recorte dos soldados. Dos 4.801 profissionais da corporação registrados pelo levantamento, apenas sete constavam na graduação de soldado. O próprio FBSP observa que a situação pode ter relação com o intervalo entre concursos de ingresso, mas a tabela, isoladamente, não demonstra a causa da distribuição atual.
A inversão alcança 17 unidades da federação e se aprofunda em 13
Entre as 25 unidades da federação com dados disponíveis por graduação, 17 registravam mais sargentos do que soldados. Mato Grosso do Sul e Roraima não apresentaram a discriminação necessária para essa comparação. Em 13 estados, o número de sargentos ultrapassava até mesmo a soma de soldados e cabos. Na edição anterior, esse cenário aparecia em nove estados.
No país, a composição é diferente dessa situação extrema de alguns estados: os 96.940 cabos somados aos 117.142 soldados ultrapassam os 129.402 sargentos. Mesmo assim, os sargentos formam, isoladamente, o maior grupo por graduação: 32% do efetivo com distribuição por patente identificada, contra 28,9% de soldados e 23,9% de cabos, nos cálculos do FBSP. O total nacional de policiais militares apurado chega a 413.319, incluindo unidades sem desagregação por graduação.
Promoção por antiguidade ajuda a explicar o quadro, segundo pesquisadores
Para o Fórum, a pirâmide achatada combina três fatores: promoções ao longo da carreira, ingresso insuficiente de novos soldados e permanência prolongada dos profissionais nos escalões intermediários. Para os autores, a valorização salarial por meio de promoções pode fazer com que o desenho da carreira se afaste das necessidades operacionais.
O gargalo seguinte também aparece. Somente 4,6% do efetivo era formado por subtenentes; os pesquisadores descrevem a graduação de sargento como uma espécie de teto prático para muitos praças, diante de caminhos limitados para ascender ao oficialato. O diagnóstico não aponta irregularidade em cada promoção nem defende retirar direitos individuais; trata dos efeitos acumulados de regras e ritmos de reposição diferentes entre estados.
Uma estrutura com poucos ingressantes e muitos graduados pode aumentar o peso da folha e tornar mais complexa a distribuição do policiamento ostensivo. É um risco apontado no relatório, não uma medição direta de quantas patrulhas deixaram as ruas por esse motivo. Um sargento pode comandar uma equipe, supervisionar uma unidade ou trabalhar diretamente no policiamento, conforme sua função.
O que os dados revelam e o que não permitem afirmar
O retrato não autoriza afirmar que toda PM tem mais chefes de escritório do que policiais nas ruas, nem que todos os estados apresentem a mesma situação. A comparação evidencia desenhos de carreira bastante diferentes. Em São Paulo, os sargentos correspondem a 13,1% do efetivo contabilizado, enquanto o Rio Grande do Norte concentra a maioria dos seus policiais nessa graduação. O número paulista exige uma ressalva metodológica: os dados do estado incluem os bombeiros militares, que fazem parte da estrutura administrativa da PM paulista.
O FBSP usou dados de portais da transparência e pedidos pela Lei de Acesso à Informação. A maior parte das posições estaduais é de março de 2025, com exceções explicitadas para Ceará, Mato Grosso e Roraima; a edição foi lançada em 4 de agosto de 2026. Portanto, ele oferece um retrato da estrutura daquele período e não um censo instantâneo de outubro de 2026.
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Para os pesquisadores, corrigir o desequilíbrio depende de discutir a entrada de novos policiais e a evolução da carreira, em vez de tratar promoções, efetivo e remuneração como assuntos separados. O diagnóstico levanta uma pergunta concreta para as corporações: como preservar a valorização de quem já está na ativa sem esvaziar a base responsável por renovar os quadros?
E na Polícia Militar do seu estado? A distribuição entre soldados, cabos e sargentos também chama atenção? Conte nos comentários como a carreira e o ingresso de novos profissionais têm funcionado na sua corporação.