Uma delegação britânica entrou no Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro em 21 de outubro para examinar algo que o Exército Brasileiro já sabe fazer, trabalhar metais e produzir equipamentos militares, mas que ainda precisa demonstrar para um projeto específico: fabricar no país os obuseiros Light Gun de 105 milímetros. Representantes da BAE Systems se reuniram com militares do Sistema de Fabricação do Exército e percorreram instalações industriais do arsenal. Não foram à cidade para entregar canhões prontos. Foram discutir como os brasileiros poderiam passar a produzi-los sob licença.
O encontro, revelado em reportagem da Infodefensa publicada no domingo, 25, acrescenta um capítulo concreto a uma negociação de anos. O local visitado é significativo. Ali, em uma unidade ligada à história da indústria militar do Rio, máquinas já trabalham com tubos e peças de armamentos. O desafio agora não é simplesmente instalar uma linha de montagem: é saber quais componentes poderiam nascer no Brasil, quais processos precisariam ser adaptados e como transformar uma intenção diplomática em fabricação regular para a tropa.
Britânicos percorreram a Casa do Trem e viram como o arsenal do Exército Brasileiro trabalha o metal
A reunião de 21 de outubro envolveu executivos da BAE Systems, integrantes da Diretoria de Fabricação e representantes do Arsenal de Guerra do Rio, parte do Sistema de Fabricação do Exército (SisFab). Segundo a apuração publicada pela Infodefensa, os visitantes conheceram instalações e processos industriais da chamada Casa do Trem, referência histórica da unidade. As imagens que acompanham a informação mostram blocos de aço destinados à usinagem, inspeção de um tubo raiado de morteiro de 120 milímetros e o trabalho sobre um tarugo metálico. São registros de capacidades industriais do arsenal, não de um Light Gun já produzido no Brasil.
É nesse detalhe que a visita ganha importância. Num armamento de artilharia, o tubo por onde o projétil passa exige fabricação controlada, materiais adequados e verificações dimensionais. A estrutura que sustenta o disparo, os mecanismos de elevação e direção e a integração do conjunto precisam funcionar repetidamente sob esforço. Possuir experiência com outros sistemas, como morteiros, é um ponto de partida industrial; não significa que uma fábrica esteja automaticamente qualificada para reproduzir uma peça britânica. A negociação inclui justamente descobrir onde a experiência existente atende às exigências e onde faltam processos, treinamento, documentação e certificação.
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Por que o Exército quer fazer no país um canhão que precisa ser rebocado
O nome Light Gun designa uma família de obuseiros do Exército leves de calibre 105 milímetros. Um obuseiro é uma arma de artilharia destinada a lançar projéteis em trajetórias que permitem atingir posições fora da linha de visão direta do apontador. Diferentemente de um carro de combate com arma principal instalada numa torre, o modelo tratado nessa negociação é autorrebocado: precisa ser levado à posição de tiro por outro veículo ou por meio de transporte adequado, e ali é preparado por sua guarnição.
A vantagem buscada está no equilíbrio entre mobilidade e apoio de fogo. Nem toda missão exige o peso, a munição e a logística de um sistema de 155 milímetros. Unidades que se deslocam por regiões difíceis ou precisam montar posições de tiro em pouco tempo valorizam equipamentos mais leves, mesmo que cada calibre tenha alcance, potência e aplicações diferentes. O interesse brasileiro inclui renovar parte do parque de artilharia e reduzir a dependência de modelos mais antigos, entre eles o M101, citado nas diretrizes do projeto.
A distinção entre L118 e L119 também merece atenção. Os nomes aparecem juntos em relatórios sobre a negociação, mas designam variantes da mesma família. A declaração de intenções assinada em setembro de 2025 mencionava particularmente o L119. Reportagens posteriores voltaram a empregar L118/L119 ao tratar das tratativas com a BAE Systems. Para o leitor, isso significa que ainda é necessário identificar qual configuração será efetivamente escolhida e em que condições de licenciamento. Não seria correto afirmar que uma versão específica já saiu de uma linha de produção brasileira.
O Light Gun não é novidade absoluta nas Forças Armadas. Fotografias da Marinha, divulgadas sob licença aberta, mostram o L118 em atividades do Corpo de Fuzileiros Navais anos antes desta reunião. Isso ajuda a entender por que a possibilidade de fabricação nacional interessa também ao componente de artilharia dos fuzileiros: peças, manutenção e continuidade logística passam a fazer parte da discussão quando um equipamento deixa de depender exclusivamente de fornecimento externo.
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Do estudo de 2024 à assinatura em Londres: o caminho que levou à reunião de outubro
As conversas não começaram neste mês. Em julho de 2024, a BAE Systems visitou o Arsenal de Guerra do Rio para avaliar sua estrutura. Em fevereiro de 2025, houve uma rodada de reuniões em Brasília com a Diretoria de Fabricação, o Escritório de Projetos do Exército e o Comando Logístico. A discussão já tratava da produção nacional sob licença de obuseiros de 105 milímetros. Em junho daquele ano, de acordo com a documentação descrita pela Infodefensa, o Estado-Maior do Exército formalizou diretrizes para o Projeto de Fabricação Nacional do Obuseiro Autorrebocado de 105 mm.
Em 11 de setembro de 2025, durante a feira de defesa DSEI, em Londres, representantes militares brasileiros e britânicos assinaram uma declaração de intenções para explorar a produção do L119. O documento, noticiado à época pela Tecnodefesa e pela imprensa brasileira, abriu um canal de cooperação e apontou os arsenais do Rio e de São Paulo como possíveis participantes. Não equivalia a uma ordem de compra, tampouco estabelecia que as primeiras peças já estavam encomendadas.
Uma reportagem de março de 2025 citou a ambição de chegar a até 200 obuseiros, com uma taxa mínima estudada de dez unidades anuais. Esses números descrevem um planejamento exposto naquela etapa e não podem ser apresentados como quantidade contratada ou capacidade industrial comprovada. Entre a estimativa de demanda e a entrega à tropa há decisões de orçamento, definição técnica, eventual assinatura de contratos, transferência de conhecimento, fabricação de lotes e testes de aceitação. A sequência importa porque muda o que o contribuinte brasileiro efetivamente está financiando.
Em agosto de 2026, foi noticiado um ato de revisão dos Requisitos Técnicos e Industriais por um grupo de trabalho. Em termos simples, são especificações que permitem confrontar o que a força deseja receber com o que fornecedores e unidades produtoras são capazes de entregar. A nova visita chega depois de estudos e uma declaração de intenções, sem comprovar que a linha de produção foi iniciada.
Villares, ROMI e outros fornecedores aparecem no plano, mas o contrato continua sendo a pergunta
A proposta não se limita às máquinas dentro de um quartel. A apuração de outubro menciona empresas com presença industrial no Brasil, como Villares Metals, ROMI e Trelleborg, entre as possíveis participantes da cadeia produtiva. Cada nome sugere competências diferentes: materiais metálicos especiais, máquinas e processos de usinagem, componentes industriais e soluções de engenharia. A menção, contudo, não comprova que essas empresas já receberam encomendas ou que foram selecionadas formalmente para fabricar peças do obuseiro.
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Uma produção sob licença teria consequências que vão além do produto final. Se houver acordo e investimentos suficientes, serviços como fabricação de componentes, inspeção, treinamento técnico e manutenção poderiam ficar mais próximos das unidades militares brasileiras. Isso ajuda na reposição de peças e no domínio de etapas industriais. Por outro lado, produzir localmente não garante autonomia integral: detalhes sobre propriedade intelectual, componentes importados, assistência técnica, equipamentos de fabricação e acesso a documentação precisam constar dos termos de uma eventual parceria.
Os arsenais do Rio e de São Paulo aparecem no histórico das negociações, mas a visita de outubro ocorreu no primeiro. Não há distribuição definitiva de etapas fabris nem previsão comprovada de empregos para anunciar.
Para os militares que operam artilharia, o resultado que interessa é simples de formular, embora difícil de alcançar: receber equipamento adequado, ter munição e peças disponíveis e contar com manutenção ao longo dos anos. O encontro de 21 de outubro permitiu que a BAE Systems reexaminasse instalações e processos industriais existentes no país.
O próximo marco verificável não será outra fotografia de executivos num galpão. Será a divulgação dos termos de licenciamento, da versão escolhida, da distribuição de responsabilidades, do custo e do cronograma, caso as negociações cheguem a esse estágio. Por enquanto, a notícia é a visita industrial e o avanço das conversas para produzir no Brasil um obuseiro que as tropas já conhecem, uma possibilidade concreta, mas ainda não uma entrega contratada.