General Tomás relacionou as transformações do poder mundial à formação dos futuros comandantes e destacou como o cenário internacional pode influenciar as decisões estratégicas do Exército Brasileiro.
O comandante do Exército Brasileiro, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, levou aos futuros chefes militares uma discussão que ultrapassa os limites tradicionais do campo de batalha: as transformações na ordem mundial e seus efeitos sobre a capacidade do Brasil de se defender. A mensagem foi apresentada em 2 de outubro de 2026, durante uma conferência na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), no Rio de Janeiro.
Diante de oficiais que se preparam para assumir responsabilidades estratégicas, o general abordou o surgimento de novos arranjos de poder, as mudanças nas relações internacionais e a necessidade de considerar esses fatores no planejamento militar.
Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Meses antes, O comandante já havia declarado publicamente que o mundo atravessava uma nova distribuição de poder, marcada pelo fortalecimento das pressões econômicas e militares, e defendido que o Brasil preservasse sua autonomia diante das grandes potências.
Comandante do Exército coloca transformações mundiais no centro da formação militar
De acordo com o comunicado oficial divulgado pela ECEME, o general Tomás analisou a dinâmica dos principais atores internacionais e a influência do pensamento geopolítico na reorganização do poder mundial.
A exposição relacionou essas transformações a três áreas fundamentais da atividade militar brasileira: planejamento, preparo e emprego da Força Terrestre.
Disputas internacionais podem influenciar acordos de cooperação militar, acesso a equipamentos, fornecimento de tecnologias e decisões sobre investimentos estratégicos. São fatores que precisam ser considerados por oficiais responsáveis por avaliar riscos e preparar o Exército para diferentes situações.

Escola prepara oficiais para ocupar cargos de grande responsabilidade no Exército
A ECEME é uma das principais instituições de altos estudos militares do Brasil. Localizada no Rio de Janeiro, prepara oficiais para funções de comando, Estado-Maior e assessoramento estratégico.
Entre suas atividades está a formação de militares que poderão comandar grandes unidades, atuar junto aos escalões superiores e participar da elaboração de planejamentos institucionais.
Um oficial responsável pelo planejamento de uma grande operação, por exemplo, precisa avaliar não somente os recursos militares disponíveis, mas também possíveis restrições de abastecimento, relações com países parceiros e consequências de uma crise internacional.
É nesse nível de responsabilidade que a geopolítica ganha importância para a carreira militar, especialmente entre os oficiais destinados a funções de comando e assessoramento nos escalões superiores.
General Tomás já havia alertado sobre o crescimento das ameaças militares e econômicas
A preocupação com a reorganização internacional já havia sido manifestada pelo comandante em 16 de junho de 2026, durante participação no programa WW Talks, da CNN Brasil.
Na ocasião, o comandante Paiva explicou que o cenário mundial estava passando por mudanças na distribuição de poder, com maior protagonismo das pressões econômicas e militares nas relações entre os países.
Ao comparar o ambiente internacional atual com o período das décadas de 1990 e 2000, o general destacou o crescimento do chamado hard power, conceito associado ao exercício de pressão por meio do poder econômico e militar.
“E hoje a gente enxerga um mundo onde a gente vê o ‘hard power’ baseado muito nas ameaças militar e econômica”, declarou o comandante.
A afirmação, registrada pela CNN Brasil, fazia parte de uma comparação com o soft power, expressão relacionada à capacidade de influenciar outros países por meios diplomáticos, culturais e políticos.
Tomás também manifestou preocupação com o crescente questionamento das normas internacionais e com a perda de importância dos organismos multilaterais, instituições responsáveis por promover a cooperação e a negociação entre diferentes países.
Brasil pode evitar alinhamento automático com Estados Unidos e China, avalia comandante
Durante o mesmo encontro de junho, Tomás foi questionado sobre a rivalidade entre Washington e Pequim e a possibilidade de o Brasil precisar escolher um dos lados dessa disputa.
O general afirmou que o mundo caminhava para uma nova bipolaridade, caracterizada pelo protagonismo de Estados Unidos e China, mas demonstrou confiança na capacidade brasileira de preservar espaço para suas próprias decisões.
“Eu acho que a gente consegue escapar. Porque a gente é um país relevante, é uma potência média”, afirmou o comandante.
Na sequência, Tomás reiterou sua avaliação de que o Brasil poderia escapar dessa bipolaridade, justificando essa possibilidade com a dimensão territorial brasileira, a população, as reservas de recursos naturais e a importância econômica do país.
Na explicação, registrada anteriormente pela Revista Sociedade Militar, o comandante também observou que o Brasil mantém diferentes graus de aproximação com parceiros estrangeiros, dependendo do setor considerado.
As relações econômicas, por exemplo, não precisam seguir necessariamente o mesmo alinhamento das relações militares e tecnológicas. Tomás defendeu a preservação da autonomia e da soberania brasileiras nessas escolhas.
Ao abordar o assunto, ressaltou ainda que a política externa brasileira é definida pelas autoridades civis, e não autonomamente pelas Forças Armadas.
Estados Unidos, China, Rússia e Europa já estavam no centro das discussões militares
A preocupação com a reorganização internacional também aparece em outras atividades promovidas pela ECEME.
Em 6 de março de 2026, a instituição realizou uma Jornada de Geopolítica Mundial dedicada à análise das estratégias de Estados Unidos, China, Rússia e União Europeia.
O encontro reuniu pesquisadores, professores e militares de instituições como a Fundação Getulio Vargas, a Escola Superior de Guerra e a Escola de Guerra Naval.
Entre os temas discutidos estavam as estratégias das principais potências, as mudanças no sistema internacional e o posicionamento brasileiro diante dessa reorganização.
A atividade ocorreu quase sete meses antes da conferência de Tomás. Os quatro atores internacionais foram abordados naquela jornada de março, mas não são identificados individualmente no comunicado oficial sobre a exposição do comandante em outubro.
Como as disputas internacionais podem afetar a defesa do Brasil?
As consequências de uma crise internacional não precisam envolver uma guerra em território brasileiro para produzir dificuldades relacionadas à Defesa Nacional.
Restrições comerciais podem dificultar a compra de componentes militares, enquanto disputas diplomáticas podem alterar acordos de cooperação e limitar o acesso a tecnologias desenvolvidas no exterior.
Outra preocupação envolve as cadeias internacionais de produção. Equipamentos utilizados pelas Forças Armadas podem depender de peças, sistemas eletrônicos e materiais fabricados em diferentes países, tornando sua manutenção vulnerável a interrupções no fornecimento.
Para o Brasil, que possui extensas fronteiras terrestres, uma ampla área marítima e interesses econômicos ligados ao comércio internacional, esses fatores podem influenciar decisões sobre compras militares, investimentos e prioridades de defesa.
A rivalidade entre Estados Unidos e China também cria desafios para países que mantêm relações econômicas importantes com ambos, especialmente quando surgem restrições tecnológicas ou pressões por alinhamento diplomático.
General também associou mudanças internacionais ao crescimento do debate sobre Defesa Nacional
Na entrevista concedida à CNN Brasil em junho, Tomás relacionou o cenário internacional ao interesse crescente pelos assuntos militares no país.
“Na minha opinião, a cultura de defesa está mudando. O que tem acontecido no mundo tem demandado essa discussão”, afirmou o comandante.
Na ocasião, o general explicou que questões relacionadas à Defesa Nacional vinham recebendo maior atenção do governo federal, de parlamentares e de outros setores da sociedade.
Também mencionou a importância da base industrial de defesa, responsável pelo desenvolvimento e pela produção de equipamentos e tecnologias militares.
Tomás citou reuniões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os comandantes das Forças Armadas e o interesse de deputados e senadores por assuntos ligados à segurança e à defesa do país.
O debate promovido pelo WW Talks também abordou o financiamento da modernização militar, a proteção das fronteiras terrestres e o monitoramento da Amazônia Azul, área marítima de interesse estratégico para o Brasil.