Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

Estados Unidos anunciam data center de inteligência artificial abastecido por Itaipu no Paraguai, deixam Brasil fora do comunicado e projeto prevê expansão para até 280 MW

Os Estados Unidos anunciaram um centro de inteligência artificial abastecido por Itaipu no Paraguai, sem citar o Brasil. Crusoe prevê expansão a 280 MW enquanto cai o excedente de energia enviado ao país.

Marcos
Por Marcos 22/10/2026 às 22:58
Compartilhar
Estados Unidos anunciam data center de inteligência artificial abastecido por Itaipu no Paraguai, deixam Brasil fora do comunicado e projeto prevê expansão para até 280 MW
Obras de infraestrutura do campus Iguazú AI City, da Araico, em Yguazú, no Paraguai; a empresa anunciou parceria com a Crusoe para expandir centros de IA movidos pela energia de Itaipu. Foto: @alejandrozucco / Última Hora.

Os Estados Unidos anunciaram um acordo para instalar um grande centro de inteligência artificial alimentado pela energia de Itaipu, no Paraguai, sem mencionar o Brasil no comunicado oficial de 21 de outubro de 2026. A hidrelétrica pertence aos dois países, mas o empreendimento será desenvolvido pela norte-americana Crusoe em parceria com a paraguaia Araico, na margem paraguaia da região de fronteira.

O anúncio ganhou novos números um dia depois: a Crusoe prevê chegar a 106 megawatts (MW) de capacidade de tecnologia da informação, com opção de expansão, no longo prazo, para cerca de 280 MW. A primeira operação está programada para meados de 2027. O projeto chega quando o Paraguai já utiliza uma parcela crescente da energia que antes era disponibilizada ao mercado brasileiro.

A participação das empresas foi anunciada durante a visita do vice-secretário de Estado norte-americano Christopher Landau a Assunção. Quanto mais eletricidade o Paraguai consumir da sua metade de Itaipu, menor poderá ser o excedente enviado ao Brasil; a tendência já entrou nos estudos do setor elétrico brasileiro.

Comunicado dos EUA coloca empresas americanas e paraguaias no centro do projeto

Entre 19 e 21 de outubro, Landau liderou uma missão de negócios ao Paraguai e se reuniu com o presidente Santiago Peña e com o chanceler Rubén Ramírez Lezcano. O balanço divulgado pelo Departamento de Estado dos EUA apresentou a parceria Crusoe–Araico como um dos novos compromissos comerciais entre Washington e Assunção.

Segundo o governo norte-americano, a instalação usará eletricidade da usina de Itaipu para atender clientes de computação em nuvem nos Estados Unidos e na América Latina. A administração americana classificou o empreendimento como potencialmente um dos maiores investimentos privados da história paraguaia, sem divulgar seu valor.

O Brasil não apareceu nesse anúncio norte-americano, apesar de integrar a administração binacional da usina. A omissão no comunicado comercial, entretanto, não altera a divisão de direitos estabelecida entre os dois países.

Crusoe revela capacidade de até 280 MW para alimentar computadores de inteligência artificial

Em 22 de outubro, a própria Crusoe detalhou o projeto: a companhia pretende iniciar a operação em 2027 e ampliar o complexo até 106 MW de capacidade de TI. A possibilidade de chegar a aproximadamente 280 MW depende de fases posteriores. Essas grandezas descrevem a expansão planejada, e não consumo já contratado ou eletricidade atualmente utilizada.

O centro ficará ao lado de uma subestação de Itaipu, no território paraguaio. A Araico ficará responsável pelo desenvolvimento do terreno e da infraestrutura local, enquanto a Crusoe administrará os equipamentos de processamento e os serviços de sua plataforma Crusoe Cloud, segundo comunicado publicado pela empresa.

A instalação é apresentada como a primeira operação dedicada da plataforma de nuvem para inteligência artificial da Crusoe na América Latina. Computadores usados para treinar e executar sistemas de IA exigem alimentação elétrica contínua, o que explica a procura por grandes fontes de energia com fornecimento previsível.

Fileiras de equipamentos de processamento de dados com módulos de servidores, cabos e luzes de status em instalação operada pela Crusoe.
Equipamentos de computação de alta capacidade da Crusoe em seu centro de dados em Abilene, nos Estados Unidos. A empresa anunciou uma nova instalação no Paraguai abastecida por Itaipu. Foto: Crusoe/Divulgação.

Energia paraguaia enviada ao Brasil já caiu pela metade em dois anos

Segundo dados do Ministério de Minas e Energia publicados pela MegaWhat, o Brasil recebeu 22,203 milhões de MWh da parcela paraguaia em 2023. O volume caiu para 12,973 milhões de MWh em 2024 e para 10,455 milhões de MWh em 2025, redução aproximada de 53% em dois anos.

No mesmo intervalo, o fornecimento de Itaipu ao próprio Paraguai cresceu de 19,515 milhões para 25,768 milhões de MWh, avanço de cerca de 32%. Parte da mudança está associada ao crescimento do consumo paraguaio e à atração de negócios que exigem muita eletricidade, como centros de dados.

Uma carga contínua de 280 MW equivaleria, ao longo de um ano, a aproximadamente 2,45 milhões de MWh. Essa conta representa perto de 23,5% do excedente paraguaio recebido pelo Brasil em 2025. O cálculo considera hipoteticamente o consumo contínuo de toda a capacidade futura; a expansão ainda dependerá de novas etapas e decisões de investimento.

Brasil e Paraguai têm direito a 50% da produção da hidrelétrica

A usina possui 14 mil MW de potência instalada. Pelo Tratado de Itaipu, firmado em 1973, cada país tem direito à metade da produção. O Paraguai tradicionalmente consome parte da sua quota e cede o excedente ao Brasil, conforme o sistema de comercialização estabelecido pelos dois governos.

Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora

Entrar no grupo agora

A ENBPar representa a participação brasileira na comercialização da energia de Itaipu, enquanto a Administração Nacional de Eletricidade (ANDE) desempenha o papel correspondente no Paraguai. A instalação de um empreendimento no país vizinho não representa transferência da parte brasileira da usina.

Vista aérea da barragem de Itaipu com vertedouro em funcionamento, água branca descendo pelo concreto, represa e vegetação nas margens.
Usina hidrelétrica binacional de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai. Os dois países têm direito à metade da produção, e o Paraguai vem usando uma parcela maior da energia que lhe cabe. Foto: Alexandre Marchetti/Itaipu Binacional.

À reportagem do UOL, Itaipu Binacional informou que a visita de Landau foi organizada pela administração paraguaia e não contou com representantes da diretoria brasileira ou do governo do Brasil. A empresa explicou que cada país pode receber autoridades estrangeiras e que os projetos voltados ao consumo interno de energia não são definidos pela própria usina.

Paraguai negocia tarifas para transformar eletricidade em negócio de tecnologia

A Araico já promovia o empreendimento Iguazú AI City, no departamento paraguaio de Alto Paraná. Em setembro, seu dirigente Alejandro Zuccolillo informou ao jornal ABC Color que negociava com a ANDE uma tarifa inicial de US$ 45 por MWh, sujeita a reajustes anuais.

Naquela entrevista, a empresa apresentava uma ambição de investimento de US$ 12 bilhões para seu campus de inteligência artificial. Esse montante pertence ao plano mais amplo divulgado pela Araico e não foi confirmado como preço ou investimento da parceria específica com a Crusoe. A dimensão financeira do novo acordo continua sem cifra oficialmente detalhada.

Ao desenvolver centros de processamento em Alto Paraná, investidores paraguaios pretendem usar localmente uma parcela maior da eletricidade de Itaipu para oferecer serviços digitais. O próprio presidente Santiago Peña declarou, no anúncio da parceria, que o projeto pretende gerar empregos e transformar recursos energéticos em inovação tecnológica no país.

Redução de excedentes já entrou no planejamento elétrico brasileiro

Segundo a MegaWhat, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Thiago Prado, afirmou que a diminuição do excedente de Itaipu destinado ao Brasil já integra os estudos de planejamento. Um exemplo é a modernização prioritária do primeiro dos dois bipolos de transmissão que levam energia de Foz do Iguaçu, no Paraná, até Ibiúna, em São Paulo.

A decisão sobre obras equivalentes no segundo bipolo depende da evolução do consumo paraguaio e da disponibilidade futura de eletricidade para o Brasil. Além disso, a negociação entre os governos sobre o Anexo C do Tratado de Itaipu continua relevante para as condições de compra e comercialização da energia depois de 2026.

O projeto da Crusoe e da Araico tem uma primeira etapa prevista para 2027, enquanto sua expansão total segue como possibilidade de longo prazo. Entre a assinatura empresarial e o funcionamento do complexo ainda estarão contratos de energia, infraestrutura e decisões de investimento.

O governo paraguaio atrai agora um operador norte-americano para ampliar esse tipo de consumo, enquanto o Brasil planeja seu sistema elétrico com menos excedentes de Itaipu. Você considera que o Brasil deveria acelerar seus próprios investimentos em centros de dados abastecidos pela hidrelétrica? Deixe sua opinião nos comentários.

guest
0 Comentários