O Brasil chegou a receber dos Estados Unidos os planos de construção de destróieres da classe Fletcher, uma das mais importantes da Segunda Guerra Mundial. O projeto previa fabricar três embarcações no Arsenal de Marinha, no Rio de Janeiro, mas nenhuma chegou a ser construída.
A iniciativa estava em preparação no segundo semestre de 1945, quando a Marinha brasileira já possuía os desenhos e negociava equipamentos necessários à fabricação. Entretanto, a mudança de governo e as dificuldades financeiras interromperam um programa que poderia ampliar a capacidade industrial naval brasileira.
Estudo da Marinha confirma que os desenhos dos Fletcher foram entregues ao Brasil
A informação aparece na edição 30 da Revista Navigator, publicada pela Marinha do Brasil em 2019.
Na página 119, o historiador Ludolf Waldmann Júnior registra que existiam planos para fabricar contratorpedeiros Fletcher no território brasileiro e que os desenhos de construção haviam sido cedidos pela Marinha norte-americana.
O pesquisador fundamenta a informação em trabalhos do almirante Armando Amorim Ferreira Vidigal, que estudou a evolução do poder naval brasileiro e as tentativas de desenvolver uma indústria militar própria.

Brasil pretendia construir três navios e já negociava materiais na Filadélfia
Um relato ainda mais detalhado aparece no estudo A Indústria Naval Militar no Brasil Através do Tempo, publicado por Vidigal na Revista Marítima Brasileira, em 1980.
O almirante registra que o programa previa três contratorpedeiros Fletcher de aproximadamente 2 mil toneladas. Segundo ele, no segundo semestre de 1945, os preparativos no Arsenal de Marinha já permitiam planejar o início das obras.
Além dos desenhos recebidos, um escritório brasileiro estabelecido na Filadélfia havia iniciado negociações para adquirir materiais e equipamentos nos Estados Unidos. Portanto, a iniciativa tinha avançado além de uma simples manifestação de interesse.
Entretanto, possuir os desenhos não significava dominar integralmente a tecnologia necessária. A fabricação ainda dependia de equipamentos, fornecedores, recursos financeiros e da continuidade dos entendimentos industriais.
Marinha pretendia utilizar materiais brasileiros e nacionalizar componentes
O projeto também envolvia uma ambição industrial: aumentar a participação de componentes fabricados no Brasil, reduzindo gradualmente a necessidade de importações.
Em outro estudo publicado na Revista Navigator, em 2014, Waldmann Júnior confirma que a Marinha pretendia utilizar materiais nacionais na fabricação dos Fletcher.
Uma reportagem histórica do Poder Naval, publicada em 2018, apresenta detalhes adicionais dessas intenções. Segundo o levantamento, esperava-se alcançar até 80% de nacionalização nas turbinas da terceira unidade e 90% na parte elétrica.
Esses percentuais representavam metas de produção, não resultados alcançados. O projeto também considerava a fabricação brasileira de armamentos, em um período no qual o país implantava instalações voltadas à produção de canhões e torpedos.
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Fletcher tinha 114 metros, cinco canhões de 127 mm e velocidade de 36 nós
Os Fletcher estavam entre os principais navios de escolta utilizados pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Ao todo, 175 unidades da classe foram construídas para a Marinha norte-americana.
Cada destróier tinha aproximadamente 114 metros de comprimento, deslocamento padrão em torno de 2.100 toneladas e velocidade máxima próxima de 36 nós, equivalente a aproximadamente 67 quilômetros por hora.
O armamento original incluía cinco canhões de 127 milímetros, tubos lança-torpedos e equipamentos de combate antissubmarino. Esses navios também protegiam porta-aviões, escoltavam comboios e participavam de operações de bombardeio naval.
Para o Brasil, construir unidades dessa classe representaria um avanço em relação aos projetos anteriores e uma oportunidade de ampliar a experiência de engenheiros e trabalhadores da indústria naval militar.
Queda de Getúlio Vargas e dificuldades financeiras interromperam a construção
O principal obstáculo surgiu quando a Segunda Guerra Mundial terminou e o cenário político brasileiro mudou.
A deposição de Getúlio Vargas, em outubro de 1945, encerrou o Estado Novo e provocou alterações na administração federal. Na Marinha, a saída do ministro Henrique Aristides Guilhem afetou a continuidade dos programas de construção naval.
Vidigal aponta diretamente a mudança administrativa e as dificuldades financeiras como fatores responsáveis pelo abandono dos três Fletcher.
Também ocorreram mudanças nas prioridades dos Estados Unidos. A diplomacia norte-americana passou a demonstrar reservas sobre grandes programas de transferência de equipamentos militares ao Brasil, embora não haja comprovação de um veto específico à construção nacional dos Fletcher.
Brasil já construía destróieres, mas perdeu o ritmo industrial depois da guerra
O projeto não surgia em um país completamente sem experiência na fabricação de navios militares.
Desde 1937, o Arsenal de Marinha construía os contratorpedeiros da classe Marcílio Dias, derivados de projetos norte-americanos. A experiência permitiu desenvolver conhecimentos em montagem de cascos, soldagem e integração de equipamentos.
Outros seis contratorpedeiros, da classe Amazonas, também foram construídos no Brasil, mas enfrentaram atrasos consideráveis. O primeiro entrou em serviço em 1949, enquanto o último somente foi concluído em 1960.
Segundo Waldmann Júnior, a redução dos investimentos e a possibilidade de receber embarcações prontas contribuíram para enfraquecer a continuidade da construção naval militar no pós-guerra.
Em vez de fabricar três Fletcher, Brasil acabou recebendo sete navios usados dos EUA
O desfecho apresenta uma contradição histórica: anos depois de abandonar a fabricação nacional, a Marinha brasileira incorporou sete destróieres Fletcher que já haviam servido aos Estados Unidos.
As transferências ocorreram entre 1959 e 1972. As embarcações receberam os nomes Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Santa Catarina e Maranhão.
Um exemplo foi o Paraná (D-29), antigo USS Cushing, construído nos Estados Unidos em 1943 e incorporado à Marinha brasileira em julho de 1961. A embarcação permaneceu em serviço até fevereiro de 1982.
Os navios contribuíram para a capacidade operacional e a formação de militares brasileiros, mas chegaram prontos, sem concretizar o programa de fabricação previsto em 1945.
Assim, a Marinha recebeu os destróieres que pretendia produzir, mas não desenvolveu naquele momento a cadeia industrial planejada para construí-los. Os desenhos atravessaram a fronteira; os três navios brasileiros, porém, nunca saíram do papel.