Flávio Bolsonaro (PL) propõe instalar mais de 1 milhão de novas câmeras de reconhecimento facial no Brasil e conectar os equipamentos a bancos de dados criminais para auxiliar polícias na localização de foragidos. O projeto consta do plano de governo do candidato à Presidência e prevê monitoramento em portos, aeroportos e outros espaços públicos, mas ainda não tem orçamento nem modelo de execução definidos.
A proposta voltou ao debate a uma semana do segundo turno de 25 de outubro de 2026. O país já conta com 596 projetos que utilizam reconhecimento facial, segundo o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec). Gestores defendem ampliar o acesso das polícias à tecnologia, enquanto pesquisadores cobram provas de redução dos crimes e medidas para evitar abordagens equivocadas.
Plano de governo prevê instalar mais de 1 milhão de aparelhos novos
O documento apresentado à Justiça Eleitoral chama o projeto de Muralha Brasileira. Na página 15, o candidato propõe uma rede nacional integrada a informações criminais, inspirada no Smart Sampa, da Prefeitura de São Paulo, e no Muralha Paulista, do governo estadual.
Em setembro, a campanha passou a divulgar a iniciativa com o nome Smart Brasil. Segundo a CNN Brasil, a apresentação do programa também mencionou integrar dois milhões de câmeras à nova rede. Conectar equipamentos já existentes e instalar novas câmeras são metas diferentes, com exigências próprias de compra, compatibilidade tecnológica e manutenção.
A proposta prevê que as imagens possam ser cruzadas com cadastros de pessoas procuradas. Um eventual alerta de reconhecimento facial precisaria ser verificado por agentes de segurança antes de uma abordagem policial e da conferência da identidade do cidadão.
Polícias civis, militares e municípios entrariam no sistema nacional
Orlando Morando, que coordenou o Smart Sampa entre janeiro de 2025 e março de 2026, afirmou à Folha de S.Paulo que a União poderia fornecer plataformas tecnológicas, acesso a bancos de dados federais e recursos para prefeituras instalarem câmeras.
Morando participou de uma reunião sobre o tema com Flávio Bolsonaro e o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes. Na avaliação do ex-secretário, o compartilhamento de imagens ajudaria polícias Civil e Militar a localizar pessoas com mandados de prisão e permitiria ações de guardas municipais.
O pesquisador Alcides Peron, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, apontou uma dificuldade: forças policiais brasileiras registram e administram informações de maneiras diferentes, enquanto algumas sequer dispõem de sistemas amplos de coleta e compartilhamento de dados. A conexão exigiria conciliar estruturas tecnológicas estaduais e municipais muito desiguais.
Brasil já tem 596 projetos e quase 100 milhões de moradores potencialmente vigiados
O monitor O Panóptico, do Cesec, identificou 596 iniciativas que utilizam reconhecimento facial no país. Segundo o levantamento citado pela Folha, o alcance potencial desses programas chega a quase 100 milhões de pessoas, equivalentes a 46,6% da população.
As iniciativas somaram aproximadamente R$ 3,4 bilhões em valores declarados ao longo de sete anos. Mesmo assim, mais de 70% dos programas não tornaram públicos os custos. Esses números dizem respeito à vigilância já existente e não representam uma estimativa de quanto custaria construir o sistema federal defendido na campanha.
Câmeras são apenas parte dessa despesa. Uma rede desse tamanho também dependeria de conectividade, armazenamento das gravações, softwares, equipes responsáveis por verificar alertas, atualização de cadastros e manutenção permanente dos aparelhos.
Smart Sampa informa milhares de prisões, mas estudo contesta redução dos crimes

O programa da capital paulista utilizado como modelo apresenta resultados operacionais. Conforme o painel da Prefeitura de São Paulo mencionado pela Folha, foram contabilizados 3.624 foragidos capturados, 6.824 prisões em flagrante e 283 pessoas desaparecidas localizadas desde o início do Smart Sampa.
Um estudo do Cesec divulgado em 2025, porém, comparou indicadores da capital com dados de outros municípios paulistas e não identificou efeitos estatisticamente significativos atribuíveis ao sistema sobre furtos, roubos, homicídios, prisões em flagrante ou cumprimento de mandados.
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Os pesquisadores usaram a técnica de diferenças-em-diferenças, que compara as tendências dos indicadores antes e depois da implantação. Segundo a Folha, o trabalho ainda não havia passado por revisão por pares em revista científica. Morando contesta o estudo e defende que localizar procurados já traz benefícios à segurança.
Os números oficiais registram ocorrências e capturas; a pesquisa busca medir se a presença da tecnologia alterou as taxas de crime. Os índices de criminalidade continuam sendo usados para avaliar se as capturas se traduzem em redução de delitos.
268 pessoas foram conduzidas a delegacias por erros de identificação
Relatórios de transparência do Smart Sampa apontaram 268 pessoas levadas a delegacias e liberadas após erros de identificação entre novembro de 2024 e maio de 2026. Segundo a Prefeitura de São Paulo, nenhuma delas chegou a ser presa nesses episódios.
A Folha relatou ainda que um morador de Heliópolis, na zona sul da capital, foi detido quatro vezes em sete meses depois de alertas produzidos pelo sistema. Casos assim levam pesquisadores a pedir revisão humana das identificações e procedimentos claros para evitar abordagens equivocadas.
Também existe preocupação com acesso indevido a informações pessoais. Uma rede nacional poderia reunir imagens e registros de diversos órgãos de segurança, aumentando a necessidade de controlar consultas, corrigir cadastros desatualizados e proteger dados sensíveis.
Campanha admite que orçamento e detalhes de implantação ainda estão indefinidos
Guilherme Derrite, apontado como um dos responsáveis pelas propostas de segurança de Flávio, disse à Folha que a implantação dependeria de estudos técnicos. Segundo ele, não há estimativa de orçamento e o aproveitamento de estruturas já existentes ainda seria avaliado.
A instalação de câmeras em escala nacional permanece como proposta eleitoral. Se avançar, exigirá definição de financiamento, regras de cooperação com estados e prefeituras, padrões técnicos e mecanismos de proteção de dados. O segundo turno presidencial está marcado para 25 de outubro.