Uma operação militar entre Brasil e Estados Unidos quase terminou em uma tragédia no Atlântico Sul. Em 11 de outubro de 1984, a fragata União (F45), da Marinha do Brasil, navegava com aproximadamente 220 pessoas a bordo quando encontrou um submarino nuclear americano em sua trajetória, nas proximidades do Arquipélago de Abrolhos, no litoral da Bahia.
O submarino USS Snook (SSN-592), que transportava outros 83 tripulantes, teria passado a menos de dois metros da embarcação brasileira. Uma manobra de emergência ordenada pelo comandante da fragata evitou a colisão. O episódio, tratado como sigiloso na época segundo os participantes, somente ganhou repercussão pública décadas depois.
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Dez navios brasileiros e americanos participavam de operação militar no Atlântico Sul
O incidente aconteceu durante a Operação UNITAS XXV, exercício naval realizado em plena Guerra Fria. Dois dias antes, cinco navios brasileiros e cinco americanos haviam deixado a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, com destino a Salvador.
Entre as embarcações brasileiras estavam o porta-aviões Minas Gerais, a fragata Liberal e o navio-tanque Marajó. O USS Snook participava como adversário simulado, tentando aproximar-se dos principais navios da formação para testar a capacidade de detecção e defesa das forças navais.
Submarino nuclear americano surgiu inesperadamente diante da fragata

Por volta das 15h daquele 11 de outubro, a tripulação brasileira acompanhava os movimentos do submarino por meio dos equipamentos de sonar, utilizados para identificar objetos submersos através de ondas sonoras.
Entretanto, segundo os testemunhos reunidos em uma reportagem publicada originalmente em 2012, o Snook subiu inesperadamente à profundidade de periscópio, posicionando-se diretamente à frente da fragata União.
O primeiro alerta partiu de um marinheiro que trabalhava como vigia. Ao observar o contato, comunicou ao passadiço: “Alvo a zero, zero, zero”, expressão utilizada para indicar que o objeto estava exatamente à frente da embarcação.
Comandante ordenou guinada de emergência para impedir a colisão
Inicialmente, houve dúvidas sobre o contato informado pelo vigia. Os radares estavam funcionando, mas não haviam identificado o periscópio. Segundos depois, o marinheiro confirmou que se tratava de um submarino e alertou para o risco iminente de colisão.
O comandante da União, então capitão-de-mar-e-guerra Carlos Edmundo de Lacerda Freire, determinou imediatamente uma guinada para bombordo, ou seja, para o lado esquerdo da embarcação.
A manobra alterou a trajetória da fragata, permitindo que passasse ao lado do submarino. Segundo os relatos dos tripulantes, a distância entre os cascos teria ficado abaixo de dois metros, uma margem extremamente pequena para embarcações militares daquele porte.
Sargento brasileiro conseguiu fotografar o momento do quase acidente

Um dos personagens mais importantes dessa história foi o então sargento Marco Antônio Gomes, que estava no passadiço da fragata. Naquele dia, ele aproveitava uma folga para produzir fotografias destinadas a um concurso promovido pela revista NoMar, da Marinha.
O militar já havia utilizado praticamente todo o filme de sua câmera quando o submarino apareceu. Restava uma única fotografia, que ele conseguiu registrar durante a aproximação entre as embarcações.
Posteriormente, o comandante solicitou as imagens produzidas a bordo. Segundo Gomes, as fotografias foram encaminhadas para análise, enquanto o incidente passou a receber tratamento sigiloso. A imagem preservada pelo militar tornou-se um importante registro visual daquele encontro.
Colisão poderia provocar danos graves e colocar centenas de militares em perigo
A fragata União deslocava quase quatro mil toneladas, enquanto o USS Snook era um submarino de ataque da classe Skipjack, equipado com propulsão nuclear e desenvolvido para operações militares durante a Guerra Fria.
Uma colisão poderia causar danos estruturais significativos ao submarino americano, especialmente porque ele estava próximo da superfície. A fragata brasileira também correria riscos, incluindo avarias em equipamentos instalados abaixo da linha d’água, como seu domo de sonar.
Apesar da gravidade potencial, não existem elementos públicos suficientes para afirmar que as 303 pessoas presentes nas duas embarcações morreriam ou que ocorreria um acidente nuclear. Essas possibilidades devem ser tratadas como hipóteses, não como consequências inevitáveis.
Militares discutiram o incidente dois dias depois, em Salvador
Segundo os testemunhos publicados em 2012, o episódio foi discutido em 13 de outubro de 1984, durante uma reunião de avaliação da operação, depois da chegada dos navios ao porto de Salvador.
Os relatos indicam que o submarino teria sido observado inicialmente a aproximadamente 200 metros da proa brasileira, antes de a distância diminuir perigosamente. Essa informação, assim como a separação final inferior a dois metros, depende dos depoimentos históricos disponíveis.
Um militar que trabalhava no Centro de Operações de Combate levantou a hipótese de uma falha de procedimento a bordo do Snook. Entretanto, não há um relatório técnico oficial publicamente disponível que permita estabelecer definitivamente a causa da aproximação.
Submarino americano foi desativado em 1986, mas fragata brasileira continuou navegando

O USS Snook entrou em serviço na Marinha dos Estados Unidos em outubro de 1961. Segundo o histórico naval americano, o submarino tinha aproximadamente 76,7 metros de comprimento e deslocava cerca de 3.513 toneladas quando submerso. Foi desativado em novembro de 1986.
A fragata União, por outro lado, teve uma trajetória muito mais longa. Incorporada à Marinha do Brasil em setembro de 1980, foi construída no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro e tornou-se a última embarcação da classe Niterói a entrar em serviço, conforme o histórico oficial da Força Naval.
Em agosto de 2026, mais de quatro décadas depois do incidente, a União ainda participou da Operação Fraterno XXXIX, realizada com a Armada Argentina, ao lado da fragata Tamandaré e do submarino Humaitá, conforme informou a Agência Marinha de Notícias.
Episódio permanece como um dos encontros mais perigosos relatados durante exercícios navais brasileiros
A história tornou-se pública em abril de 2012, quando o jornalista Elimar Côrtes entrevistou militares envolvidos na operação, incluindo o antigo comandante da fragata. Em maio de 2026, o portal especializado Poder Naval voltou a divulgar o episódio.
Ao comentar o ocorrido, Lacerda Freire, que posteriormente alcançou o posto de vice-almirante, reconheceu que uma colisão poderia resultar em um acidente trágico.
O encontro entre a União e o Snook permanece como um exemplo dos riscos existentes nas operações antissubmarinas. Naquele dia, a atenção de um vigia, a comunicação entre os militares e uma decisão tomada em poucos segundos foram fundamentais para impedir que um exercício entre duas marinhas terminasse em um acidente de grandes proporções.